Bitcoin depende das emoções dos investidores, diz estudo

Um professor da Universidade de Warwick passou mais de 74 semanas a monitorizar o valor da bitcoin. Concluiu que aquilo que mais o influencia é o estado de espírito de quem investe.

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O estudo analisou as 14 criptomoedas mais populares Reuters/Dado Ruvic

Um professor de Finanças da Universidade de Warwick, no Reino Unido, argumenta que a volatilidade das criptomoedas não vem das vantagens económicas em adquirir estas divisas, mas das emoções e do estado de espírito dos investidores quando vêem o preço a subir ou a descer.

A conclusão de Daniele Bianchi surge depois de mais de 74 semanas (entre Abril de 2016 e Setembro de 2017) a analisar as variações no valor das acções de 14 das criptomoedas mais conhecidas, incluindo a bitcoin (a primeira e mais conhecida destas divisas) e a ether.

“Ao olhar para a alta volatilidade do preço das criptomoedas mais populares, vemos que não podem ser encaradas como instrumentos de poupança confiáveis a curto prazo, e muito menos a longo ou médio prazo”, explica Bianchi na apresentação de um estudo preliminar sobre os seus resultados que ainda não passou pelo processo de avaliação prévia pelos pares (ou peer review).

“O trabalho que fiz mostra que a principal razão para as pessoas comprarem ou venderem criptomoedas vem do desempenho anterior das divisas, quando o seu valor começou a subir ou a descer. No fundo, é o sentimento que surge quando o valor começa a mudar”, diz Bianchi ao PÚBLICO. “Não há factores macroeconómicos significativos por detrás do mercado de criptomoedas.”

O professor de Warwick dá o exemplo da bitcoin, que chegou a ultrapassar os 19 mil dólares em Dezembro, antes de voltar a descer para metade. Hoje, ronda os oito mil dólares de acordo com valores do site especializado CoinMarketCap. Para Bianchi, as constantes variações mostram que a divisa não pode ser apelidada como o “novo padrão monetário” ou comparada ao ouro.

“A subida espectacular da bitcoin em 2017 leva investidores a correr para as criptomoedas, mas isto não são divisas normais, em que a economia de um país influencia o preço”, explica Bianchi. “Em vez disso, investir numa dada criptomoeda tem mais semelhanças com um investimento em capital de uma tecnológica.”

O especialista em finanças nota que a grande maioria das criptomoedas surge através de processos de ICO (initial coin offering, na sigla inglesa), que são uma forma popular de startups de tecnologia conseguirem financiamento. Em vez de vender acções, as empresas criam uma versão de moeda digital que não funciona como dinheiro, mas representa uma parte do capital da empresa.

Apesar de o conteúdo do trabalho não ir além de Setembro, o académico diz ao PÚBLICO que está a actualizar os dados, mas prevê que pouco mude. “De certa forma, o mercado para as criptomoedas lembra a bolha dot-com no início dos anos 1990”, alerta Bianchi. Quando não existirem mais investidores disponíveis para comprar as critpomoedas, poderá ocorrer uma venda maciça destas divisas, tal como aconteceu com a especulação bolsista em relação às empresas tecnológicas.

Ao PÚBLICO o professor de Economia Neil Gandal, da Eitan Berglas School Economics, em Telavive, explica que a fraude também pode ter um papel na variação de preços das criptomoedas. “Embora não se saiba o que impulsionou a subida a pico do valor da bitcoin, também não podemos ignorar a possibilidade de fraude”, diz Gandal, que publicou, recentemente, um estudo sobre a influência de lavagem de dinheiro e outros esquemas de manipulação no ecossistema da bitcoin. Gandal deixa um alerta: “Não podemos confiar na taxa de câmbio para reflectir apenas fontes legítimas da oferta e procura, [porque] são necessárias mais garantias de que os negócios a ocorrer [com criptomoedas] são de facto legítimos e reflectem a compra e venda por agentes independentes.”

Bianchi não rejeita a possibilidade de fraude, mas defende que é a popularidade das moedas e a popularidade da tecnologia em que assenta (a Blockchain) que faz subir o seu valor. “Investir nestas divisas também pode ser visto como um investimento na Blockchain, acrescenta.

A Blockchain é a base de dados distribuída em que assenta a bitcoin. Foi criada em 2008 pelo misterioso Satoshi Nakamoto. O sistema regista informação (por exemplo, transacções de criptomoedas) em blocos encadeados por ordem cronológica e é mantido pelo esforço colectivo dos vários computadores ligados à rede. Devido à utilização de métodos de encriptação que impedem pessoas de alterar os registos, a tecnologia tem sido usada noutras áreas, como a emissão de certificados académicos digitais.

“Se as pessoas acreditam no sucesso da Blockchain, é normal que invistam nas divisas que assentam nesta tecnologia”, explica Bianchi. Admite que algumas divisas podem sobreviver para além da fama, “mas será apenas uma mão-cheia”. Acima de tudo, o trabalho que teve ao longo de quase um ano e meio mostra que “não há factores macroeconómicos significativos por detrás do mercado de criptomoedas”. Para Bianchi, é algo que “não deve mudar”.