Giuseppe Conte, candidato do M5S e da Liga, vai formar o governo italiano

Oitenta dias após as eleições, a Itália vai ter finalmente um executivo. São muitas as dúvidas sobre a sua natureza. Há polémica sobre a pasta das Finanças. Di Maio fala já na fundação da “Terceira República”.

Relações públicas
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Mattarella com Conte - que género de primeiro-ministro será este? EPA

O Presidente Sergio Mattarella encarregou nesta quarta-feira o jurista Giuseppe Conte de formar o próximo governo italiano, apoiado pelo Movimento Cinco Estrelas (M5S), de Luigi Di Maio, e pela Liga, de Matteo Salvini. Conte, 53 anos, é professor de Direito Privado e advogado, muito próximo do M5S. A lista dos ministros deverá ser apresentada ao PR quinta ou sexta-feira. O voto de confiança no Parlamento poderá começar já na próxima terça-feira.

Disse Conte na sua primeira declaração: “Sou professor e advogado, defendi as causas de várias pessoas, agora defenderei os interesses dos italianos em todas as sedes da UE e internacionais, dialogando com as instituições.”

Conte tem estado “debaixo de fogo” por causa de inexactidões no seu currículo e pela sua ligação ao “caso Stamina”, uma fraude médica em que participou indirectamente como advogado. Mas o M5S e a Liga renovaram-lhe a sua plena confiança.

De manhã, após uma audiência com Mattarella, Di Maio proclamou: “Começa a Terceira República, como tinha prometido.” As duas questões que nesta quarta-feira dominavam a actualidade, antes da indigitação de Conte, eram a natureza do governo, em particular o papel do primeiro-ministro, e o nome que irá ocupar a pasta das Finanças.

Este governo marca a abertura de uma nova fase política. “Será a maior e mais interessante experiência política italiana nos últimos 30 anos, apenas igualado pelo Pólo da Liberdades de Silvio Berlusconi em 1994”, escreve Francesco Cancellato, redactor do Il Foglio. Não se trata de uma aliança orgânica e política nem de um mero governo de grande coligação à alemã. É o produto de uma inédita aliança entre dois partidos anti-sistema.

Di Maio desvalorizou o papel do primeiro-ministro ao declarar há dias que “o nosso líder é o programa”. Deixava implícita a ideia de que não haveria um verdadeiro ”governo Conte”. Para o analista António Politi, do La Repubblica, “o que está a nascer é um governo de directório”, um “governo quase dual”, de Luigi di Maio e Matteo Salvini.

Observa: “Põe fim à fase revolucionária do novo poder, legitimado pelos votos do 4 de Março, (...) e com um compromisso sobre a figura do Presidente do Conselho que modifica substancialmente a Constituição material que rege a Itália desde 1948. A guiá-lo é chamado um não parlamentar, o que parece paradoxal para dois partidos que até agora protestavam contra ‘os quatro primeiros-ministros não eleitos’, de [Mario] Monti a [Enrico] Letta, de [Matteo] Renzi a [Paolo] Gentiloni’.”

A incógnita está em saber se Conte será, como sugeriu a Bloomberg, uma mera “marioneta” nas mão dos dois partidos ou se assumirá a efectiva direcção do executivo. É uma questão que Matarella seguramente terá levantado. É com Conte que ele discutirá a composição do governo e as suas opções políticas, designadamente na economia e na política europeia e internacional da Itália.

Por outro lado, o “contrato de governo” aponta para uma reforma constitucional em direcção a uma “democracia directa”. Uma cópia do sistema político suíço? No entanto o “contrato” é muto vago e mais uma declaração de intenções que um efectivo programa de governo. A grande curiosidade é saber como enfrentará o “choque da realidade”. Um grande número de economistas, entre eles Tito Boeri, presidente da Segurança Social italiana (Inps), alertam contra o irrealismo financeiro do programa de governo, a começar pela reforma do sistema de pensões.

Resistência a Paolo Savona

O nome que terá encontrado maior resistência por parte de Mattarella é o do economista Paolo Savona, 82 anos, antigo ministro da Indústria e com um vasto currículo. Depois de ter sido um convicto europeísta, assume hoje posições eurocépticas e, em particular, anti-euro. O seu nome foi proposto para o Tesouro (Finanças) pela Liga. Salvini tentou desdramarizar o problema, que discutirá com o Presidente Mattarella Mas Savona demitiu-se na terça-feira da presidência do hedge fund Euklid, sedeado em Londres, o que foi interpretado como a confirmação da sua ida para o Governo. O Tesouro é um cargo crucial.

Falta conhecer os titulares de pastas como a Defesa e os Negócios Estrangeiros. Se Salvini parece certo no Interior, ainda há dúvidas sobre o cargo de Di Maio, falando-se no Trabalho e Segurança Social.