Um “tesouro” de Bracara Augusta está agora à vista no Museu Pio XII

Um conjunto de 481 moedas oriundas de várias geografias do Império Romano, outrora pertença de uma família de elite da cidade que era então Braga, foi descoberto em escavações arqueológicas e está exposto ao público desde quarta-feira. O museu quer criar um novo percurso com base nas ruínas romanas que alberga.

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Adriano Miranda

Sobre um mapa do Império Romano, há 13 montes de moedas de bronze. Elas foram cunhadas desde Treveri (hoje Trier, na Alemanha), a norte, até Alexandria (Egipto), a sul, e a Antioquia (Antáquia, na Turquia), a leste. Os lotes mais volumosos repousam, porém, sobre Lugdunum (Lyon, em França), Arelate (Arles, no sul de França) e Roma, onde se vislumbram gravuras da lenda da sua fundação, em que a loba amamenta Rómulo e Remo.

Estas três cidades são também as mais próximas de Bracara Augusta, o local onde essas moedas do século IV e V d.C., 481 no total, foram guardadas num saco de pano. Esse “tesouro”, descoberto há dois anos no espaço que hoje corresponde ao jardim interior Museu Pio XII, passou a estar exposto ao público desde quarta-feira, para assinalar mais uma edição da Braga Romana, evento alusivo à época, que decorre de 23 a 27 de Maio.

“As moedas já foram estudadas e consolidadas, e pensámos que seria esta a altura de expormos o tesouro encontrado aquando das escavações. Apareceram muito mais coisas: muita cerâmica e também peças em vidro”, disse ao PÚBLICO José Paulo Abreu, director do museu de arte sacra e arqueologia e ainda presidente do Instituto de História e Arte Cristãs da Arquidiocese de Braga.

Graças ao trabalho da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho (UAUM), a colecção agora em exposição apareceu num dos muros da domus de Santiago, uma casa da qual restam hoje capitéis em mármore e um tanque no jardim interior do museu. Embora catalogadas de tesouro, as moedas não eram mais do que as poupanças de uma família, à semelhança do que pode acontecer hoje, explicou a arqueóloga Fernanda Magalhães. “Essa família decidiu reunir um conjunto de dividendos que tinha e escondeu-o, porque poderia voltar a precisar dele noutra fase. Acabaram por nunca precisar dele”.

As moedas, prosseguiu a docente, espelham uma fase de crescimento económico de Bracara Augusta, com trocas comerciais que decorriam principalmente com a parte ocidental do império, mas se estendiam também a leste, nomeadamente a Constantinopla (Istambul, na Turquia) e a outras cidades em seu redor, e envolviam também pessoas. “Muitas vezes, nos mosaicos, eram artífices de outras cidades que os vinham fazer”, revelou.

Um desses mosaicos foi também descoberto nas escavações realizadas sob o Museu Pio XII. Decorava um tanque construído no início do século IV na domus de Santiago e prova, segundo Fernanda Magalhães, que a família aí residente integrava uma elite da cidade. “Era uma casa de prestígio, pois estamos junto do eixo principal da cidade no sentido este-oeste, próximos do fórum da cidade”, descreveu.

Essa domus não é, porém, a única que se encontra na superfície abrangida pelo Museu Pio XII. Além das moedas, limpas e tratadas por Diego Machado, estudante de mestrado em Arqueologia na Universidade do Minho, as escavações detectaram igualmente o limite de uma outra domus, e ainda outras duas, a Norte do jardim interior, revelou a docente da UAUM.

Museu quer novo percurso através das ruínas romanas

As sondagens arqueológicas comprovaram também que o subsolo contém mais ruínas do período de Bracara Augusta, além dos vestígios das quatro domus. “Varremos toda esta área. Claro que não podemos levantar tudo isto, mas, nesta fase, era para termos a certeza de que isto tem ruínas. Temos a certeza que isto está cheio de ruínas”, assegurou Fernanda Magalhães.

O Museu Pio XII quer, por isso, criar um circuito de visita ao património romano que alberga segundo o trajecto das ruas que aí existiam no tempo do império, acrescentou a arqueóloga. “A ideia é fazer um museu em que as ruínas falarão por si, estarão todas expostas e a cota de circulação do museu vai-se adaptando conforme as ruínas. Vamos subindo ou descendo para vermos as ruínas e todo o espólio”.

O director do espaço realçou que o projecto, apesar de ter sido rejeitado na primeira candidatura a fundos comunitários, vai voltar a ser submetido “logo que haja uma porta aberta” ou esperar pela ajuda de uma fundação. Para José Paulo Abreu, o percurso pelas ruínas conseguiria transpor o visitante para o tempo do Império Romano, algo que, a seu ver, seria caso único na Península Ibérica e uma mais-valia para Braga.

“Seria interessante qualquer bracarense remontar ao tempo dos romanos e andar nesta área toda como se estivesse a passear no tempo em que os romanos aqui estiveram. Isso é possível”, defendeu.