Discutir a mobilidade a pensar nas pessoas

O Open Day P é uma iniciativa do PÚBLICO para pôr as cidades a discutir a mobilidade. Esta quarta-feira, foi em Vila Nova de Gaia que discutimos o futuro.

Autocarro, Transportes públicos, Sociedade de Transportes Colectivos do Porto, Transportes
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Diogo Baptista

Discutir a mobilidade nas cidades implica pensar, em primeiro lugar, nas pessoas. Foi esta a ideia chave do segundo Open Day P dedicado à mobilidade urbana, que decorreu nesta quarta-feira no Auditório Municipal de Vila Nova de Gaia. Organizado pelo PÚBLICO com o apoio da Câmara Municipal, metro do Porto, Renault, Luís Simões e RRG, o evento reuniu profissionais de diversas áreas para discutir estratégias para melhorar a vida nas cidades, olhando para as necessidades e conforto dos que nelas vivem mas também para o ambiente.

Eduardo Vítor Rodrigues, Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, entende que os transportes são já um dos pilares essenciais do desenvolvimento dos países. Por esta razão, defendeu, o investimento público tem de olhar para os transportes públicos como uma prioridade, sem esquecer a componente ambiental.

“Na trajectória que estamos, Portugal não vai cumprir as metas da descarbonização”, afirmou, para reforçar a urgência de implementar transportes ecológicos, que evitem as emissões de gases com efeito de estufa. E acrescentou que é preciso um investimento sério na rede, nos equipamentos e na bilhética, para que as pessoas entendam que compensa utilizar os transportes públicos. “Como está, só tende a piorar.”

São várias as razões que levam os cidadãos a preferir o automóvel, entre elas o preço e eficiência dos transportes públicos, nomeadamente a noção de que o tempo despendido não compensa, mas na verdade os dados recolhidos demonstram que essa percepção tende a ser errada. Ana Aguiar, professora assistente na Universidade do Porto, apresentou dados que sugerem que quem se desloca da periferia chega mais depressa ao centro das cidades se utilizar o transporte público. O que se justifica, em parte, pela falta de um cruzamento verdadeiramente eficiente de informação entre entidades e plataformas para que seja possível aos cidadãos comparar os benefícios.

Paula Teles, presidente do Instituto das Cidades e Vilas com Mobilidade, explicou que as cidades devem ser projectadas por esta sequência: peões, bicicletas, transportes públicos, e só depois o carro. Parece simples, mas na verdade as cidades portuguesas ainda estão atrasadas no planeamento, não necessariamente por falta de visão estratégica mas de dinheiro.

Na falta de orçamento para grandes obras, Paula Teles defendeu a importância de adoptar aquilo a que chama de “acupunctura urbana”, ou seja, a realização de intervenções de pequena dimensão mas fundamentais para a melhoria da qualidade de vida nas cidades.

O modo como se constrói e organiza o mobiliário urbano e o desenho das vias públicas é determinante para garantir a mobilidade, uma abordagem que é reforçada pelos números: “60% da população da OCDE tem mobilidade reduzida. Estamos, portanto, a planear as cidades para 40%”, afirmou Paula Teles.

A acessibilidade e a mobilidade assumem-se, na actualidade, como matéria fundamental no planeamento de mobilidade urbana, o que exige um planeamento rigoroso, que cruza o interesse económico com a vontade política. A discussão é prática mas tem uma base sociológica, que define como nos deslocamos mas também como interagimos uns com os outros. Todos os indicadores sugerem que a melhoria nos transportes tem uma tradução directa na qualidade de vida, daí o interesse e urgência na definição de estratégias que levem a cabo esta transformação inevitável e, sobretudo, necessária.

Pode assistir à gravação da conferência neste link.