West Africa Leaks levanta o véu sobre o paraíso fiscal de Cabo Verde

Jornalistas de países da África Ocidental trabalham dezenas de milhões de dados dos Panama Papers e de outras fugas de informação.

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Cabo Verde faz parte da "lista cinzenta" de paraísos fiscais elaborada pela UE Miguel Madeira/Arquivo

Repórteres de uma dezena de países africanos estão a colaborar com o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (CIJI) para revelar esquemas de planeamento fiscal que passaram por alguns territórios da África Ocidental, alguns dos quais ligados a políticos, diplomatas e empresários locais. Cabo Verde, uma pequena economia que tem servido de chamariz para a indústria de consultadoria offshore, é um dos países no centro das investigações.

As notícias começaram a ser divulgadas nesta terça-feira a partir de 27,5 milhões de ficheiros, agregando dados das fugas de informação do Swissleaks, Panama Papers, Paradise Papers e Offshore Leaks. As investigações estão a ser coordenadas pelo CIJI em colaboração com o centro de investigação Norbert Zongo (Cenozo), um núcleo sediado Burkina Faso que pretende dinamizar o jornalismo de investigação em alguns países da África Ocidental.

Embora o site do CIJI revele a colaboração com um jornal cabo-verdiano, a primeira das histórias foi publicada pelo Cenozo sem a assinatura do jornalista que a investigou. A notícia centra-se na história de um desconhecido empresário italiano, Gilberto Pachotti, que vive há 25 anos na ilha cabo-verdiana de São Vicente e cujo nome aparecera alegadamente nos documentos do Swissleaks por estar associado a uma conta secreta na Suíça.

Cabo Verde é um dos centros financeiros offshore que acabaram por ficar de fora da chamada “lista negra” de paraísos fiscais elaborada pela União Europeia, algo que só foi possível pelos compromissos que o governo de Ulisses Correia e Silva assumiu de rever o rever o regime fiscal e reforçar o sistema financeiro. O país está numa segunda lista de paraísos fiscais, a chamada “lista cinzenta”. E para evitar entrar na mais gravosa do ponto de vista reputacional, os passos que Cabo Verde se comprometeu a dar em termos de cooperação fiscal para trocar informações com outros países da OCDE estão a ser acompanhado pelos parceiros europeus.

Além de Cabo Verde, o West Africa Leaks traz algumas revelações sobre empresas e pessoas ligadas ao Congo, Senegal, Mali, Níger, Burkina Faso, Libéria, Costa do Marfim, Gana, Nigéria, Togo, Benim, Nigéria.

Will Fitzgibbon, coordenador deste projecto no CIJI, descreveu no site do consórcio como os jornalistas têm estado sujeitos a pressões, não só pelas dificuldades em conseguirem trabalhar localmente os ficheiros do consórcio, mas também pelas tentativas de mordaça de que têm sido alvo por quem é visado nas investigações. “Para dar uma ideia das condições em que alguns destes jornalistas trabalham: um jornalista pediu para não ser identificado para garantir a sua segurança no exílio, outro repórter não é pago pelo jornalismo de investigação e muitos trabalham em computadores com ecrãs danificados. (Conseguem imaginar uma pessoa a tentar decifrar os registos bancários suíços apenas com metade do ecrã do computador visível?) Alguns jornalistas foram ameaçados por telefone durante as reportagens ou foram pressionados pelos responsáveis executivos das empresas que aparecem nos Panama Papers para que parassem de investigar – ou então viram a publicidade dos seus jornais cancelada”, escreveu Fitzgibbon no site do consórcio.

Sobre o Mali, por exemplo, o facto de os jornalistas poderem trabalhar os documentos do CIJI permitiu-lhes identificar o nome de Hamadoun Touré, antigo secretário-geral da União Internacional de Telecomunicações (uma agência especializada das Nações Unidas) e actual candidato à Presidência do país. Touré foi notícia por surgir referenciado como o beneficiário de uma empresa offshore criada nas Seicheles a partir do Dubai.

Outra revelação, desta vez sobre a Costa do Marfim: os jornalistas descobriram que Noël Akossi Bendj, empresário e político, secretário-executivo do Partido Democrata (na coligação governamental actualmente no poder), criou há mais de 20 anos uma sociedade offshore nas Baamas instalando-se neste paraísos fiscal por intermédio da Mossack Fonseca, a sociedade que está no centro das revelações dos Panama Papers.