Philip Roth, o grande controlador, deu a última palavra sobre Philip Roth ao seu biógrafo

Blake Bailey é o homem que se submeteu a um verdadeiro interrogatório para poder escrever a biografia do autor de Pastoral Americana. Uma tarefa em que contou, até aqui, com o empenho do escritor. “Eu trabalho para ele”, disse Roth. Não se sabe ainda quando estará pronta.

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Philip Roth, Howard Jacobson, The Plot Against America, Reclamação de Portnoy, Writer
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Nos últimos anos da sua vida, Philip Roth decidiu que não ia mais escrever ficção e que ia autorizar Blake Bailey a escrever a sua biografia. O diário norte-americano The New York Times anunciou “Philip Roth vai cooperar com novo biógrafo”, com a mesma solenidade com que o britânico The Guardian notava no seu obituário que nos últimos anos “Philip Roth comprou um iPhone” e decidiu que já nada sabia sobre a América. Nos últimos anos da sua vida, Philip Roth, o grande controlador que até pela exactidão das suas referências na Wikipédia lutou, tinha um novo patrão – o seu biógrafo.

“Eu trabalho para ele. Eu sou empregado dele”, disse em 2013 ao francês Le Monde sobre Bailey, o autor daquela que será, a certa altura, a última palavra sobre Roth. A vontade de ser preciso na forma como se expressava e as lutas sobre como era interpretada a sua escrita eram conhecidas, tanto quanto a carta aberta que em 2012 escreveu à Wikipédia sobre se era ou não uma fonte fiável no que à sua vida e obra dizia respeito quanto a A Mancha Humana (sabe-se que escreveu mais cartas à enciclopédia colaborativa). Mas Philip Roth, que morreu na madrugada de quarta-feira aos 85 anos, era sobretudo um dos autores mais assombrados pelo cariz autobiográfico da sua obra – como constatava há um par de meses o escritor Nathaniel Rich na New York Review of Books, “poucos romancistas têm sido tão perseguidos por interrogações pessoais como Roth, ou tão publicamente angustiados por elas”.

A futura biografia, cujos direitos norte-americanos são da W.W. Norton e que a D. Quixote vai publicar em Portugal (esteve prevista a sua edição em 2018, mas a obra não está ainda terminada), enfrenta então um duplo desafio – a sua própria produção, entre a ficção e as memórias que o próprio autor já publicou, e, até aqui, o controlo de Roth. A Library of America deu a Blake Bailey a oportunidade de explicar como lidava com isso. “O que tendo a fazer como biógrafo é conhecer tudo, ou saber tanto quanto possível, e depois determinar quais são os principais temas e como é que eles se relacionam — se sequer se relacionam — com a obra e vice-versa. Os temas são múltiplos, as contradições são vastas e até que ponto podem ser solucionadas? Essa é a tarefa do bom biógrafo. Quanto a ‘competir’ com Roth, não estou a fazer nada disso. É azeite e água. Como diz, ele transmutou a sua vida na sua obra e eu estou a fazer o oposto.”

No mesmo ano em que Bailey se tornou seu biógrafo, Roth anunciou que não ia escrever mais ficção. “Tudo o que tenho escrito é material de arquivo para o meu biógrafo. Se encontro um documento, um molho de notas, uma carta — e encontrei centenas — tenho de explicar ao biógrafo o que o documento significa: sobre o que é, quais as circunstâncias em que surgiu, quem são exactamente as pessoas envolvidas. Escrita forense”, deslindava ao Le Monde em 2013. Por isso dizia que era empregado de Bailey: “Faço o trabalho de sapador dele – sem ser pago.” São “páginas e páginas de comentário”, empreitada que insistia ser “muito mais fácil do que escrever ficção” – porque, aliás, “não pode ser ficção. Não implica sofrimento”.

Em Janeiro deste ano já estavam prontas 1900 páginas de notas — o livro, diz o New York Times, deverá ter metade desse tamanho. O acordo assinado entre Roth e Bailey prevê o acesso “ilimitado” aos materiais biográficos do escritor, dos seus densos arquivos aos documentos mais pessoais, entrevistas e escritos inéditos. Os seus documentos pessoais serão depositados na Biblioteca do Congresso, onde ficarão selados até que possam ser tornados públicos em 2050.

Existem já dois volumes de memórias, The Facts: A Novelist’s Biography (1988) e Patrimony: A True Story (1991), centrado na morte do seu pai, e em 2013 Claudia Roth Pierpont publicou Roth Unbound – A Writer and His Books, uma biografia não autorizada que Martin Amis considerou “vívida e inteligente”, mas que outros críticos reprovaram pela forma como retratava levemente a relação do escritor com as suas mulheres ou por ser produto de uma fã (que apesar do apelido nada tem que ver com o autor). Havia um projecto de biografia autorizada anterior, entregue a Ross Miller (sobrinho do dramaturgo Arthur Miller), que foi rescindido por mútuo acordo em 2009.

Foi Blake Bailey, biógrafo de Charles Jackson ou de John Cheever, que abordou Roth na Primavera de 2012 para escrever a sua biografia. Roth, que um ano depois o descreveria como “provavelmente o melhor biógrafo literário actual na América”, submeteu-o a um processo de aprovação demorado – a história do primeiro comentário de Roth já faz parte do prólogo mediático da obra. “A primeira pergunta dele foi ‘Porque é que um gentio de Oklahoma deveria escrever a minha biografia?’, ao que eu respondi ‘Também não sou um alcoólico bissexual com uma linhagem puritana ancestral, mas escrevi uma biografia do [romancista] John Cheever’”, relataria Bailey ao jornal Los Angeles Times. Foi a primeira de “uma centena” de perguntas de um interrogatório a que se submeteu nesse processo de aprovação, contou esta quarta-feira à BBC. “Também o observei, claro”, acrescentava em 2013 ao diário Le Monde o autor de O Complexo de Portnoy, “para ver que tipo de homem era”.  

Em 2012, Bailey previa que deveria demorar oito a dez anos a terminar a biografia daquele que, na hora da sua morte, descreveu como o “maior escritor vivo”. A relação entre ambos era, afinal, “feliz”. Em 2013, quando ainda estava a desbastar os documentos pessoais de Roth, Blake Bailey disse ao Daily Beast que tinha na sua mesa “uma fotografia cómica” do escritor: “Ele é um tipo muito engraçado (bem como alguém profundamente sério) e gosto de me lembrar disso.”