Opinião

Lucas Pires: palavra e génio, vinte anos depois

Fez mais pela divulgação do ideal europeu do que qualquer outro político ou académico português.

1. Perfazem-se precisamente hoje vinte anos sobre a morte de Francisco Lucas Pires, uma das minhas grandes referências humanas, intelectuais e políticas, a quem, fruto de seis anos de uma marcante relação profissional e pessoal, muito devo. Para assinalar a ocasião, a rede de think tanks do Grupo PPE, a que presido e que há três anos criou o Prémio Internacional Lucas Pires, distinguirá o fundador da democracia polaca, Lech Walesa. Dia 24 de Maio, em Riga, Walesa, o grande lutador pela liberdade política e sindical da Polónia, primeiro Presidente depois do fim do comunismo, receberá o Prémio Lucas Pires, na presença de representantes da sua família. Nunca como hoje a Europa precisou de casar a sageza e sabedoria destes dois políticos, um intelectual e outro operário, ambos cristãos empenhados. A Polónia é, por estes tempos, um triste exemplo da deriva populista e anti-democrática que assola a Europa oriental e (também) ocidental. É, nestas alturas, que, no transe europeu, mais falta nos faz a centelha da análise e a coragem da intervenção de Lucas Pires. Vinte anos depois da sua morte, ele continua a ser o deputado europeu português que mais marcou o Parlamento Europeu. Que um Prémio Nobel da Paz como Lech Walesa tenha aceitado sem hesitação receber uma tal distinção revela bem a altura da memória que deixou Lucas Pires. Deixo aqui, com saudade e sem conseguir fazer melhor, algumas das linhas que, neste mesmo jornal, publiquei há dez anos.

2. A memória pública guarda o “primeiro” Lucas Pires das lutas académicas da derradeira década da ditadura. Claramente alinhado à direita, fornecendo brilho, consistência e inspiração cultural ao seu lado do movimento, aparece já timbrado pela desconcertante abertura à polémica e à proximidade com os adversários. Assim que, por força da distinção curricular e intelectual, é guindado à posição de assistente da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, as suas aulas ganham o perfume e a aura das lendas e dos sussurros da academia. Por mais conservadoras que, justa ou injustamente, se classificassem as suas ideias, Lucas Pires revolucionava, no verbo e na escrita, a linguagem. Onde outrora figurava uma austera tradição jurídica ou uma fina elegância literária, agora emergia uma poderosa “imagética”, cheia de conotação e prenhe de sentidos, pronta a fomentar a liberdade e criatividade interpretativa. Não havia nem manual, nem tratado, nem compêndio que resistissem à ousadia e ao charme de uma linguagem “pós-moderna antes da pós-modernidade”, mais própria do actual homo videns do que do coevo homo sapiens.

3. Logo no início dos anos setenta, desenvolve um estágio académico de média duração em Tubinga. Tubinga foi, de alguma maneira, o 25 de Abril de Lucas Pires. Consagra e congraça a sua adesão genuína e irreversível aos ideais democráticos e liberais, a sua aguda consciência do declínio do regime, a sua tentativa doutrinal de o reformar por dentro. Daí surgirá a proposta de democratizar e resolver o problema colonial e a antevisão de que a “ideologia europeia” substituirá a “antiga ideologia africana”. Quando chega a revolução, surpreende-se por ser dos únicos docentes de direita que não foram formalmente saneados da universidade – circunstância que nunca soube explicar. A verdade é que estava maduro para teorizar um regime democrático, assente nos valores da dignidade da pessoa humana, do pluralismo, da liberdade, do humanismo social e da economia de mercado. O carácter lapidar, acessível, fundamentado e erudito do estudo do projecto de constituição Uma Constituição para Portugal permanece aí para o demonstrar.

4. Toda a sua tensão política, cívica e científica será drenada, nos empolgantes anos seguintes, para a luta por uma constituição ocidental. Antes do mais, contra a tutela militar e revolucionária do Conselho da Revolução que impedia o exercício de uma verdadeira democracia. Mas também contra a colectivização e o controlo estatal da economia que embaraçavam qualquer perspectiva de desenvolvimento económico e social. Pelo meio destas batalhas, ganhara já a fama de parlamentar, ao mesmo tempo temível e exímio, terno e sedutor. E viria a conquistar a admiração e o respeito de todo o espectro político como ministro da Cultura. Aqui sobressaiu o seu carisma de abertura, de cosmopolitismo, de tolerância; evidenciou-se o seu gene liberal, o pensamento libertino, a atracção e curiosidade pelo diferente. A inesperada subida à liderança do CDS traria também uma inovação política: a construção de um programa coerente, de raiz “liberal-cristã”, baseado nos trabalhos do Grupo de Ofir. Tal inovação, com aquela solidez e aprofundamento, nunca mais veio a ser reeditada por qualquer outro líder político.

5. Finalmente, chegaria o momento da Europa. A compreensão de que o desenvolvimento de Portugal passava pela integração europeia. A crença e convicção num projecto genuíno europeu dominaram os últimos 12 anos da vida de Lucas Pires. Fez mais pela divulgação do ideal europeu do que qualquer outro político ou académico português. Atingiu aí, em especial junto do Parlamento Europeu e do PPE, um reconhecimento internacional sem paralelo. Nos momentos de crise global e europeia, sente-se agudamente a falta da sua análise, da sua prospectiva, da sua intuição.

6. Para quem conheceu Francisco Lucas Pires, mais do que a personalidade, sobeja o homem. A afabilidade do discurso, a ironia terna, a abertura ao argumento adversário, a recusa do cinismo e do preconceito, a fé esclarecida. Na vida como na linguagem, a capacidade de dar, de transmitir, de evocar os oráculos de outrora. Muitas vezes, revelando mais num gesto, numa frase solta ou numa atitude do que em mil palavras. À semelhança da sua escrita e do seu discurso, esses gestos e atitudes não rareavam em Lucas Pires. Como algures escreveu Agustina, “ali não se pagavam caro as páginas geniais”.

SIM. D. António Marto. Simplicidade desarmante, alegria, bondade, rectidão. Um homem de boa vontade que o Vaticano conhece há muito. Ninguém julgue que é (só) Fátima que explica o cardeal.

SIM. Lech Walesa. O herói da democracia polaca recebe, dia 24 de Maio, o Prémio Lucas Pires, criado e atribuído pelo Grupo PPE. Um sinal para a democracia europeia e um orgulho para Portugal.