China corta nas taxas de importação de carros

Pequim baixa direitos aduaneiros de 25% para 15%, a partir de 1 de Julho, para a generalidade dos veículos ligeiros.

Gansu, o Comitê Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, Conferência Consultiva Política do Povo Chinês
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Alguns dos modelos topo de gama não são produzidos na China e têm de ser importados Guang Niu/Reuters

Alegria na indústria automóvel alemã – mas também na Tesla e no Japão. A China vai baixar as taxas cobradas na importação de carros a partir de 1 de Julho, anunciou nesta terça-feira o Ministério das Finanças da China, em Pequim. A descida também vai ser aplicada na importação de peças de carros, uma medida que pretende abrir o maior mercado mundial de automóveis ao comércio internacional, segundo o governo chinês.

"A China defende um sistema de comércio multilateral. Baixar os direitos aduaneiros sobre carros é um gigantesco passo para expandir as nossas reformas e abrir o mercado", afirma o ministério, segundo uma nota citada pela agência oficial chinesa Xinhua.

A decisão já era esperada, mas subsistiam dúvidas sobre qual o valor do corte e quando entraria em vigor. A indústria germânica é uma das mais beneficiadas por este corte, já que alguns dos modelos topo de gama (executivos, desportivos e familiares) têm de ser importados porque não são produzidos na China. Desta forma, passam a chegar ao mercado mais baratos, aumentando a competitividade dos modelos alemães, em termos de preço.

Embora outros fabricantes tenham igual razão para estarem satisfeitos – designadamente a norte-americana Tesla ou a nipónica Nissan –, o momento da divulgação da medida sugere que se trata de uma decisão para agradar a Berlim. Isto porque a chanceler alemã, Angela Merkel, chega a Pequim na quinta-feira, para uma visita de Estado. E um anúncio destes a 48 horas da chegada de Merkel à China só pode gerar "um ambiente positivo", como nota o diário alemão Süddeutsche Zeitung, de Munique (Baviera), cidade onde se encontra sediada a BMW, uma das marcas alemãs mais populares em terras chinesas e que será outra das grandes beneficiárias, a par da Mercedes.

Por outro lado, a categoria veículos e materiais de transporte ocupa a maior parcela nas exportações portuguesas para a China. Em 2017, representou 34,2% das exportações, somando um total de 288 milhões de euros, sobretudo devido às vendas de veículos fabricados pela Autoeuropa, a unidade da Volkswagen em Setúbal, que até 2014 contribuía para mais de metade das exportações portuguesas para o país asiático.

Mas também os EUA podem vir a beneficiar desta medida, porque também a Ford pode vir a lucrar com um corte nas taxas de importação para o maior mercado automóvel do planeta. Do ponto de vista político, Pequim alivia assim o ambiente de guerra comercial encetada pelo Presidente Donald Trump, quando anunciou um aumento das taxas sobre o aço importado pelos EUA.

O clima de crispação entre as duas maiores economias mundiais tem vindo, porém, a diluir-se graças a uma série de decisões menos "vistosas", mas de enorme alcance político – a mais significativa das quais, para a China, foi a posição de Trump sobre a segunda maior empresa de telecomunicações chinesa, a ZTE, que Washington tinha proibido em Abril de fazer negócios nos EUA por sete anos.

Neste quadro, parece evidente que o anúncio de Pequim nesta terça-feira está ligado aos restantes desenvolvimentos: ao mesmo tempo em que a China anunciava um alívio nos direitos aduaneiros sobre carros estrangeiros, Washington fez saber que estaria mais próxima de um acordo em torno da ZTE. A empresa tinha sido castigada por alegadamente vender ao Irão e à Coreia do Norte tecnologia desenvolvida pela subsidiária nos EUA.

Esse castigo seria um rude golpe para a empresa chinesa mas a proibição de fazer negócios deverá ser substituída por sanções menos severas, noticia nesta terça-feira a Reuters. Graças sobretudo a Donald Trump, que vem há semanas defendendo um passo atrás, com o argumento de que estão em jogo demasiados postos de trabalho na China. Um recuo que tem sido criticado por responsáveis do Partido Republicano, que vêem isto como uma "cedência" da Administração norte-americana face a Pequim.

Duas fontes não identificadas pela Reuters dizem que o acordo entre a Casa Branca e a ZTE está iminente, devendo envolver também um corte nos direitos aduaneiros que Pequim aplica sobre produtos agrícolas norte-americanos e um aumento dos níveis de importação desses produtos. com Lusa