Opinião

Agentes culturais contra a designação e missão do "Museu da Descoberta" da Câmara Municipal de Lisboa

Nós, profissionais do sector cultural e científico, juntamos as nossas vozes à recente carta pública assinada por mais de cem cientistas sociais.

Estátua, escultura, escultura em pedra
Foto
Daniel Rocha

Neste momento é injustificável e extemporâneo que se crie o “Museu da Descoberta“ — se não se aproveitar esta oportunidade para refletir sobre o passado colonial português e as suas ramificações no presente; assim como as políticas de memória da cidade de Lisboa. Nós, artistas, curadores/as, historiadores/as de arte e outros/as profissionais do sector cultural e científico, mas fundamentalmente cidadãos e cidadãs, juntamos as nossas vozes à recente carta pública sobre este tema assinada por mais de cem cientistas sociais.

O atual programa de governo da CML para um tal museu promove os seguintes objetivos: “uma reflexão sobre aquele período histórico nas suas múltiplas abordagens, de natureza económica, científica, cultural, nos seus aspetos mais e menos positivos, incluindo um núcleo dedicado à temática da escravatura.” Tais objetivos só serão rigorosos se em diálogo com o crescente movimento de descolonização da memória histórica que tem vindo a ser operado a partir do sector cultural e científico e de movimentos anti-racistas, feministas, LGBTQI. Esta articulação requer compromissos estruturais no que concerne aos objetivos e modelo de gestão deste projeto que devem ser debatidos num fórum de alargada participação. Um projeto museológico inovador tem obrigatoriamente de passar pela construção e/ou pela ativação de redes de conhecimento e solidariedades institucionais, narrativas e contranarrativas em disputa, bem como memórias díspares, individuais e coletivas.

Em repúdio de uma história anacrónica que assuma um ponto de vista unívoco e glorificador, o qual tem vindo a ser contestado em fundamentadas reformulações por múltiplas investigações académicas nacionais e internacionais, apoiamos a urgência da revisão dos termos ”descoberta”/“descobrimentos” e outros eufemismos (“primeira globalização”, “viagem”, “diáspora”, “interculturalidade”, “mar”, “lusofonia”) como o primeiro passo para uma discussão mais ampla e plural.

Um tal projeto museológico deverá considerar a forma como a dita “grandiosidade” da história de Portugal foi forjada com iniciativas de rasgo que de facto rasgaram e destruíram outros tecidos culturais e sociais, através de violência explícita ou insidiosa, cuja história e existência têm sido na sua maioria ignoradas. Ou seja, este projeto museológico, a ser exemplar de novos modos mais inclusivos de museologia e investigação, terá de ser assumidamente polivocal e capaz de abrir essa História à sua diversidade e complexidade, mostrando os aspetos obliterados por um olhar hegemónico — colonial e colonizante.

Dado que a história do império português implica diferentes comunidades em várias partes do mundo, e foi vivida de modos muito diferenciados que importa conhecer e integrar, um tal futuro museu deve privilegiar a inclusão e diversidade de narrativas e assumir as responsabilidades históricas que Portugal tem na configuração geocultural atual e estar à altura das reais trajetórias e rotas não só de encontro, mas também de colisão e de resistências várias.

A vontade de abraçar esta complexidade histórica já existe a vários níveis, e não só na academia, na sociedade portuguesa, seja no trabalho de diferentes grupos ativistas, seja no contributo que muitos artistas (de escritores/as a cineastas, de dramaturgos/as a artistas visuais e músicos/as) têm dado para uma maior consciência coletiva do passado colonial português e dos desafios à nossa frente.

Nós estamos disponíveis para contribuir num grupo de trabalho que debata um projeto museológico plural e questionador, não-hegemónico e desmistificador. Apesar de um projeto museológico ter necessariamente de ser realizado por um conselho científico e curatorial, e sem que este seja o lugar para enumerar exaustivamente as diretrizes de um tal projeto, consideramos indispensável que:

1. Para além das dimensões científicas e tecnológicas deste período, que sejam contempladas de forma permanente e aprofundada em atividades de caráter temporário (exposições, debates, etc.) ou permanente temas como: o lugar de Portugal no tráfico mundial de pessoas escravizadas e os seus efeitos na economia global, nomeadamente na ascensão do capitalismo; a responsabilidade de Portugal na história do genocídio e etnocídio indígena nas Américas, assim como a responsabilidade dos índios na construção de formas plurais de relacionamento com os colonizadores; a história e os efeitos da construção ideológica luso-tropicalista; a forma como o termo "descobertas" alimentou ideologias políticas, entre elas a do Estado Novo; as várias dimensões do mar na história do imaginário político português, incluindo a dimensão do Atlântico Negro; a história da imposição de modos de sociabilização europeus em territórios colonizados; as relações económicas associadas ao comércio e a práticas extrativas disruptivas do ambiente e das culturas desses territórios; a dependência entre a história da construção do edificado monumental em Portugal e a extração de recursos e pessoas em territórios colonizados; a urbanização passada e atual das cidades e como esta revela uma profunda desigualdade de herança colonial; o papel da racialização na gestão do espaço imperial e as múltiplas formas de representação que contribuíram para essa racialização; a emigração para Portugal das comunidades africanas das ex-colónias antes do 25 de Abril e até hoje; o impacto decisivo da guerra colonial/guerras de libertação e da resistência dos povos; e, por último mas não em último, a história das múltiplas formas de resistência dos colonizados, incluindo dos seus principais agentes, materialidades e representações.

2. Se tenha em conta as repercussões desta história no presente, tais como: os nanoracismos (i.e.: os pequenos, mas impactantes, gestos e atitudes racistas que pontuam linguagem e ação quotidianas); as implicações da atual lei da nacionalidade no que diz respeito às pessoas afrodescendentes e outras questões relacionadas com a tomada em consideração da sua experiência e realidade social; a não inclusão das várias facetas da história do colonialismo no sistema de ensino português; assim como as políticas de memória da cidade de Lisboa.

3. Num momento em que por todo o mundo se questiona o papel dos museus como “tecnologias imperiais” e se discute a devolução de uma parte do património que os constitui e que é resultante da espoliação colonial, discordamos do uso de fundos públicos para promover um projeto acrítico e megalómano. Quando outros museus e instituições nacionais agonizam, urge perguntar que infraestruturas serão usadas, que espólios, acervos, objetos, etc. e a quem vão ser mostrados e para que fim.

Perderemos uma oportunidade histórica (e ética) se mantivermos uma nomenclatura de “descoberta” a propósito deste período histórico e não pensarmos uma metodologia adequada para este museu que esteja à altura de abrir um espaço novo capaz de articular crítica e criativamente, de forma informada, inclusiva e respeitadora da legitimidade das várias perspetivas e experiências que são a realidade da cidade de Lisboa e do país.

Por questões de espaço não foi possível incluir todas as assinaturas, a lista completa será publicada em www.buala.org

Primeiras assinaturas: Alexandra Lucas Coelho, escritora; Ana Balona Oliveira, curadora, hist. de arte; Ana Cristina Cachola, curadora; Ana Naomi de Sousa, cineasta; André E. Teodósio, encenador, actor; Ângela Ferreira, artista; António Pinto Ribeiro, curador; Bruno Leitão, curador Hangar; Carla Fernandes, jornalista, ed. Afrolis; Catarina Simão, artista; Cristina Roldão, socióloga, prof.; Djaimilia Pereira de Almeida, escritora; Filipa César, cineasta; Filipa Ramos, crítica de arte; Flávio Almada (LBC), músico, activista; Grada Kilomba, artista, escritora; Inês Beleza Barreiros, arqueóloga visual; Joacine Katar Moreira, activista, hist.; João Mourão, curador, Kunsthalle Lissabon; João Salaviza, cineasta; José Eduardo Agualusa, escritor; José Manuel dos Santos Maia, artista, curador; Jürgen Bock, curador, dir. Maumaus; Kalaf Epalanga, músico, escritor; Kiluanji Kia Henda, artista; Liliana Coutinho, curadora; Luzia Gomes, museóloga, prof.; Margarida Mendes, curadora; Maria do Mar Fazenda, curadora; Maria Paula Meneses, antropóloga; Maria Vlachou, curadora; Mariana Silva, artista; Marta Lança, investigadora, ed. BUALA; Marta Mestre, curadora; Mamadou Ba, tradutor, militante anti-racista; Natxo Checa, curador, ZDB; Nuno Lisboa, cineasta, curador; Nuno Faria, curador CIAJG; Pedro Lapa, crítico de arte, prof.; Pedro Neves Marques, artista, cineasta, escritor; Pedro Pinho, cineasta; Tiago Mota Saraiva, arquitecto; Raquel Schefer, cineasta, investigadora; Regina Guimarães, escritora, cineasta; Renée Nader Messora, cineasta; Rita Fabiana, curadora; Rita Natálio, artista, investigadora; Rita GT, artista; Ruth Wilson Gilmore, prof. CUNY/Maumaus; Salomé Lamas, cineasta; Sandra Vieira Jurgens, curadora, hist. de arte; Susana Sousa Dias, cineasta; Vasco Araújo, artista; Zia Soares, actriz, Teatro Griot

Os autores escrevem segundo o novo Acordo Ortográfico