Auscultadores angariam milhões em crowdfunding, mas deixam milhares sem dinheiro

As campanhas de financiamento colectivo da OSSIC reuniram mais de 2,5 milhões de euros, mas faltava outro milhão e meio para a empresa conseguir fabricar os auscultadores personalizáveis.

Os óculos foram criados para funcionar com os óculos de realidade virtual da HTC
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Os auscultadores foram criados para funcionar com os óculos de realidade virtual da HTC OSSIC

A OSSIC, uma startup de San Diego, EUA, que concebeu auscultadores “inteligentes” e personalizáveis para ambientes de realidade virtual, anunciou que vai fechar. É mais um exemplo de campanhas de financiamento colectivo que falham e deixam milhares de utilizadores sem o dinheiro, apesar do entusiasmo que conseguem gerar, incluindo na imprensa.

Apresentados há dois anos em campanhas simultâneas de financiamento colectivo nos dois mais populares sites do género, o Kickstarter e o Indiegogo, os auscultadores OSSIC X custavam entre 200 a 300 dólares e podiam ser calibrados de acordo com a anatomia de cada pessoa. O objectivo era proporcionar uma melhor qualidade de som em experiências de realidade virtual com os óculos Vive, da HTC. Com vários sensores embutidos, os aparelhos acompanhavam os movimentos do utilizador no mundo real e traduziam-no nas experiências virtuais. O aparelho foi mencionado em publicações de renome, como o TechCrunch e a Popular Science.

Em Janeiro, a empresa enviou várias versões, para programadores, mas agora admite que não há dinheiro para os produzir. “Nos últimos 18 meses, explorados uma miríade de opções de financiamento, mas dada a lentidão de arranque da realidade virtual e o número de falhas de produtos de startups na área, não conseguimos assegurar o investimento necessário”, lê-se no comunicado publicado pela OSSIC este fim de semana, que nota que vários trabalhadores estiveram seis meses sem salário, na esperança de que a situação na empresa melhorasse.

Para já, a OSSIC não esclarece se os 10.263 investidores no Kickstarter e os 1761 investidores no Indiegogo, que encomendaram 22 mil modelos e contribuíram com mais de 3,2 milhões de dólares (cerca de 2,5 milhões de euros), no total, vão ser reembolsados. O dinheiro representava 50% do financiamento da empresa, mas “faltavam pelo menos dois milhões de dólares adicionais” para fabricar os aparelhos. A empresa nota que tentou convencer tecnológicas maiores a fabricar o produto, mas não teve sucesso, porque “ninguém tinha o apetite e a habilidade para levar o produto para o mercado.”

Não é o primeiro caso de um projecto de crowdfunding que falha. Em 2013, o relógio CST (sigla para Central Standart Timing) prometia ser o “relógio mais fino do mundo” (mais leve que uma moeda de cinco cêntimos), mas, depois de um milhão de dólares em pré-encomendas por sete mil utilizadores do Kickstarter, declarou falência em 2015. Outro exemplo é o Zano, um mini-drone criado para tirar fotografias em alta definição, que foi cancelado depois de juntar 3,5 milhões de dólares, mas apenas conseguir produzir e entregar 600 drones.

Nem sempre é uma questão de a tecnologia ser exequível, mas uma questão de ser possível produzi-la, em massa, a baixo custo.

Um estudo de 2017 da analista CB Insights sobre o grande número de startups de aparelhos tecnológicos que falham nota que um dos grandes problemas é suster o interesse das pessoas a longo prazo. “É provável que as startups consigam dinheiro para as levar a uma fase de desenvolvimento inicial, mas depois de lá chegar muitas vezes não há um mercado suficientemente grande para justificar a produção em massa”, lê-se no relatório da CB Insights. “Independentemente do produto, o sucesso é uma questão de oportunidade, timing e estratégia”, conclui a CB Insights.