Deputados pedem que Governo britânico endureça medidas contra oligarcas russos

A presença de multimilionários com ligações ao Kremlin em Londres põe em causa a segurança nacional do Reino Unido, alerta relatório.

O visto de Roman Abramovich está a demorar mais tempo do que o normal para ser renovado
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O visto de Roman Abramovich está a demorar mais tempo do que o normal para ser renovado Reuters/John Sibley

O Reino Unido está a pôr em causa a própria segurança nacional ao “fechar os olhos” à crescente presença de oligarcas russos na city londrina, alerta um relatório parlamentar britânico publicado esta segunda-feira. Os deputados apelam ao Governo para que tome medidas mais duras para impedir a “lavagem de dinheiro” levada a cabo por empresários próximos do Kremlin.

O Governo britânico está a permitir que “cleptocratas e violadores dos direitos humanos usem a city de Londres [o distrito financeiro da capital] para lavar os seus fundos obtidos de forma irregular para contornar as sanções”, conclui o relatório elaborado pela comissão de Negócios Estrangeiros da Câmara dos Comuns.

Os deputados dizem que a facilidade com que os oligarcas russos movimentam os seus recursos tem implicações para a segurança nacional britânica, por causa da proximidade destes empresários ao Presidente russo, Vladimir Putin. “Estes activos, que o Kremlin pode convocar a qualquer momento, apoiam directa e indirectamente a campanha do Presidente Putin para subverter o sistema internacional baseado em regras, enfraquecer os nossos aliados, e corroer as redes internacionais que apoiam a política externa britânica”, lê-se no documento, citado pelo Guardian.

Os membros da comissão parlamentar esperam que o Governo de Theresa May possa dar continuidade à resposta dura que foi dada na sequência do envenenamento do ex-espião Serguei Skripal e da filha em Salisbury – e que Londres diz ter sido orquestrado pelo Kremlin, que nega qualquer responsabilidade. O Reino Unido expulsou 23 diplomatas russos e contou com medidas idênticas de apoio por parte dos EUA e da maioria dos aliados europeus.

Porém, a classe empresarial russa baseada no Reino Unido tem passado incólume às várias crises que as relações entre os dois países têm atravessado, desde a guerra na Ucrânia até ao envenenamento do ex-espião.

Business as usual

O relatório dá dois exemplos de como os negócios continuam intocáveis. “A 16 de Março – dois dias depois de o Governo ter anunciado a expulsão de 23 diplomatas russos – a Rússia conseguiu quatro mil milhões de dólares em emissões de títulos de dívida europeus, quase metade dos quais foram adquiridos por investidores britânicos”, revela o documento. Pela mesma altura, o gigante estatal russo de gás natural Gazprom acumulou 750 milhões de euros numa venda de títulos de dívida, em que também participaram investidores britânicos.

“Não podemos permitir que os negócios continuem como dantes”, disse o deputado conservador Tom Tugendhat, que lidera a comissão. “O Reino Unido deve dizer de forma clara que a corrupção proveniente do Kremlin não é mais bem-vinda nos nossos mercados e que vamos agir”, acrescentou.

O secretário de Estado para a Segurança e Crime Económico, Ben Wallace, disse que o Governo está “determinado em expulsar o dinheiro sujo e os responsáveis pela lavagem de dinheiro do país”, mas criticou os autores do relatório por não o terem ouvido. “Receio que uma omissão como esta enfraqueça as bases do relatório”, afirmou, citado pela BBC.

Esta semana, a imprensa britânica revelou que o visto do empresário russo Roman Abramovich, um dos homens mais ricos do Reino Unido, expirou e não foi ainda revalidado. Várias fontes próximas de Abramovich – que está fora do país e, por isso, não pôde assistir à final da Taça de Inglaterra ganha pelo Chelsea, clube de que é proprietário – disseram que o processo está a demorar mais tempo que o normal, mas não acreditam que o visto não venha a ser renovado.

Depois do envenenamento de Skripal, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Boris Johnson, garantiu que as autoridades britânicas iriam visar os milionários com ligações ao Kremlin.