5 Estrelas e Liga propõem o desconhecido Conte para primeiro-ministro

O nome do professor de Direito, sem experiência política, foi proposto ao Presidente Sergio Mattarella, a quem cabe a última palavra.

Giulio Sapelli
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Giuseppe Conte Reuters
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Matteo Salvini a ser recebido pelo Presidente HANDOUT EDITORIAL

O Movimento 5 Estrelas e a Liga propuseram ao Presidente Sergio Mattarella o nome de Giuseppe Conte para ocupar o cargo de primeiro-ministro do novo Governo italiano.

Nesta segunda-feira, Luigi Di Maio, líder do partido anti-sistema Movimento 5 Estrelas, e Matteo Salvini, da Liga, de extrema-direita, foram ao Quirinale para uma audiência com Mattarella para apresentarem não só o contrato de Governo estabelecido entre ambos mas também a sua proposta para primeiro-ministro. A decisão cabe agora ao Presidente, que vai torná-la pública esta terça-feira.

Nas suas declarações formais aos jornalistas à saída da reunião nenhum dos dois líderes partidários revelou o nome proposto. Mas, depois, Di Maio acabou por confirmar o que já tinha sido noticiado pelos jornais italianos: o nome escolhido é o do professor de Direito, relativamente desconhecido do público, Giuseppe Conte.

“Acredito que hoje podemos dizer que estamos perante um momento histórico: indicámos ao Presidente da República o nome que pode cumprir o contrato de Governo”, disse o líder do 5 Estrelas à saída da curta reunião com Mattarella. “Obviamente o nosso objectivo era e é melhorar a vida dos italianos e nestes 80 dias [de negociação] impusemos um método: primeiro discutimos tópicos e depois nomes”. “Finalmente nasceu a terceira República”, atirou Di Maio.

“Giuseppe Conte será o primeiro-ministro de um Governo político, indicado por duas forças políticas, composto por figuras políticas, e, especialmente, com o apoio de duas forças políticas eleitas”, afirmou Di Maio, já no exterior do Quirinale, confirmando o nome proposto.

Depois de Di Maio foi a vez de Salvini encontrar-se com o Presidente. No final da audiência, o líder da Liga apontou à recuperação económica de Itália. “Indicámos o nome ao Presidente e fomos muito claros relativamente à equipa e ao projecto. Estamos ansiosos por começar a recuperar a economia do país”, disse, acrescentando que o novo Governo porá no topo das prioridades o “interesse nacional respeitando tudo e todos”.

Mattarella terá agora de aprovar toda a composição do Governo proposto. Di Maio e Salvini tinham já descartado a possibilidade de liderarem o Governo. No entanto, segundo foi sendo noticiado, é esperado que o líder do 5 Estrelas venha a liderar o Ministério do Trabalho e Salvini o Ministério do Interior.

Salvini, se receber a pasta do Interior, ficará a cargo das políticas de imigração, um dos pontos-chave do seu programa eleitoral e também do contrato de Governo assinado com Di Maio. O acordo fala da expulsão de 500 mil imigrantes em situação irregular.

Conte, o tecnocrata anti-burocracia

Poucos italianos terão reconhecido o nome de Conte, professor universitário de 54 anos, quando este começou a ser apontado como próximo primeiro-ministro de Itália. No entanto, no dia 1 de Março, apareceu perante as câmaras juntamente com Di Maio e a restante equipa que o líder do 5 Estrelas propunha para dirigir os destinos de Itália.

“Tem um objectivo muito ambicioso: o de conseguir com que o Estado faça menos leis”, explicou, na altura, Di Maio.

Era esse o papel de Conte na proposta de um Governo exclusivamente 5 Estrelas. Ia chefiar o novo Ministério da Administração Pública, Meritocracia e Desburocratização. E a principal função era acabar com 400 leis consideradas “inúteis”.

Esta foi a meta indicada por Di Maio, mas Conte acabaria por referir que as leis desnecessárias “são muito mais”. “Primeiro, devemos abolir drasticamente leis desnecessárias, que são muito mais do que as 400 referidas por Di Maio. Segundo, a legislação contra a corrupção deve ser fortalecida”, disse, expondo já os seus objectivos se viesse a ser ministro. “No passado votei à esquerda mas penso que os esquemas ideológicos do século XX já não são adequados”.

A proximidade de Conte e Di Maio é conhecida. Mas o professor de Direito manteve-se sempre afastado da política e nem sequer é um militante do 5 Estrelas.

O currículo de Conte é vasto. Segundo o La Reppublica é composto por 18 páginas, com formação e colaboração em algumas das universidades mais prestigiadas do mundo. Porém, como nota o mesmo jornal, no meio das quase duas dezenas de folhas não se reconhece qualquer experiência política. Neste momento lecciona Direito Privado na Universidade de Florença.

É visto como um tecnocrata puro, e a forma como a sua nomeação surgiu pode sugerir que parte em posição de fragilidade política. Porém, ouvido pela Reuters, Giovanni Orsina, professor de Ciência Política na Universidade Luiss, em Roma, diz que “tudo depende da sua personalidade”. “Ele está a ser posto lá como um notário para seguir as ordens dos partidos. Mas a posição de primeiro-ministro traz a sua própria força e ele será o único que manterá tudo unido.”

Liderando um Governo formado por duas forças teoricamente contrastantes, ambas populistas, Conte, se for confirmado pelo Presidente, vai ter de aplicar um programa que começou já a gerar desconfiança na Europa e nos mercados.

Os alarmes soaram nos mercados assim que se percebeu que no acordo de Governo estava prevista a possibilidade de um pedido de reestruturação da dívida e a criação de um mecanismo de saída da moeda única.

As preocupações da União Europeia são mais abrangentes, apesar de o acordo de Governo ter aligeirado o tom anti-Europa levantado por Salvini durante a campanha eleitoral. Mas as propostas anti-imigração e uma política externa que assenta numa aproximação à Rússia e aos Estados Unidos de Donald Trump são dois dos factores que não deixam ninguém descansado em Bruxelas.