O nosso programador em Pyongyang

O regime norte-coreano contorna sanções económicas internacionais através da venda de software e da prestação de serviços informáticos, sem que os clientes saibam com quem estão a negociar.

Kim Jong-un, Kim Jong-il, Coreia do Norte, Estados Unidos
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Reuters/KCNA

Ainda sob pesadas sanções que em teoria deveriam fechar o país ao comércio internacional, a Coreia do Norte continua a vender tecnologia a empresas e serviços públicos de todo o mundo, incluindo na Europa e nos Estados Unidos. Na maioria das vezes, sem que o cliente final saiba que está a financiar o regime de Kim Jong-un. O fenómeno é descrito por investigadores do Instituto de Estudos Internacionais do Middlebury College, nos EUA, num relatório publicado este mês que revela como empresas de fachada em países como a China, Malásia, Rússia ou a Nigéria vendem redes VPN, software de encriptação e tecnologia de reconhecimento facial e biométrico, entre outros produtos de origem norte-coreana. 

Outro método descrito é o recurso a sites de contratação de serviços em regime freelance, como o freelancer.com ou o guru.com, onde se suspeita a presença de programadores com identidade falsa que prestam serviços a partir da Coreia do Norte, como a construção de sites ou o desenvolvimento de aplicações móveis. Os investigadores afirmam que entre os clientes enganados está uma empresa do sector da defesa de um país ocidental, uma escola norte-americana e o governo de um estado nigeriano. 

Os autores do estudo apontam dois tipos de problemas gerados pelo fenómeno. Por um lado, a venda de produtos intangíveis com recurso a métodos de pagamento virtuais é uma fonte de financiamento do regime difícil de detectar e combater por parte da comunidade internacional, permitindo a Pyongyang contornar as sanções. Por outro, a circulação de software norte-coreano representa um risco de segurança, podendo servir de veículo para códigos maliciosos como o WannaCry, um vírus que bloqueou milhares de computadores em todo o mundo em 2017, efectuando pedidos de resgate financeiros para libertar os sistemas, e cuja autoria tem sido atribuída à Coreia do Norte.