Sócrates demarca-se de Costa: “Eu não estava no camarote do BES”

Antigo primeiro-ministro juntou perto de 120 apoiantes num almoço em Lisboa.

José Sócrates, Operação Marquês, Portugal
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Almoço de José Sócrates juntou alguns apoiantes num almoço, na zona da Expo LUSA/ANTÓNIO PEDRO SANTOS

José Sócrates esperou que a sala do restaurante estivesse mais composta para chegar ao local, almoçou e depois, durante 45 minutos, disparou em todas as direcções: contra o Ministério Público, que tem a “agenda da direita”, e contra os que sabem factos e não vêm a público defender figuras do seu governo, como Manuel Pinho. Um tiro dirigido ao primeiro-ministro.

Sócrates realçou a entrevista do ex-ministro Manuel Pinho este fim-de-semana ao Expresso para lembrar que os dois foram apresentados por António Costa, à saída de um jogo de futebol do Euro 2004. “Eu não estava no camarote do BES”, afirmou Sócrates, acusando o semanário de "manipulação" ao colocar os três no mesmo camarote. “Não, não estava. Porque não conhecia ninguém do BES e assisti a todos os jogos do Euro 2004 com amigos”, afirmou, com o microfone na mão, depois de ter dito que havia “pessoas que sabiam que não era assim e não tiveram a decência de dizer que era mentira”, numa referência implícita ao actual primeiro-ministro. 

Semanas depois da "vergonha" que alguns socialistas assumiram ter perante as acusações que pendem sobre o ex-primeiro-ministro no processo Marquês, Sócrates falava perante uma assistência quase sem notáveis do PS. No restaurante em Lisboa, num almoço de apoio ao ex-primeiro-ministro, só estiveram o ex-ministro Mário Lino, o ex-secretário de Estado Paulo Campos e António Campos, histórico do PS. Nem os deputados Renato Sampaio e Isabel Santos compareram desta vez ao contrário da última iniciativa no mesmo local. 

Foi precisamente pela saída do PS que José Sócrates começou, fazendo avisos. A desfiliação foi “um acto doloroso” por “razões que vocês conhecem” e que não quis explorar. “Saí do PS mas continuo socialista”, proclamou, assegurando que não lhe passou pela cabeça “magoar o PS” nem “atacar” o partido. Mas jurou defender-se a si próprio e às “políticas” que liderou. Esse foi, aliás, o propósito do almoço organizado pelo movimento cívico "José Sócrates sempre". 

O ex-primeiro-ministro começou por juntar a “agenda política da direita” com a do Ministério Público e justificar assim uma série de processos: desde a investigação ao uso de cartões de crédito no seu governo, às Parcerias Público-Privadas e à Parque Escolar. E até ironizou com as “maroscas”: “Esqueceram-se de alguns porque não foram às energias renováveis, ao Programa Novas Oportunidades, ao Complemento Solidário para Idosos”.

Sócrates fez a defesa das PPP no seu executivo, recorrendo a indicadores económicos para concluir que não foram despesistas face às concretizadas pelos governos de direita. E aproveitou para se defender da acusação de viver à custa do empresário Carlos Silva: “Não aceitei dinheiro de um construtor que tinha negócios com o Estado, aceitei ser ajudado por um amigo de há 40 anos.” Essa ajuda, acrescentou, só aconteceu "dois anos depois" de ter deixado de ter responsabilidades políticas. 

Com um ambiente na sala muito menos entusiástico do que há um ano e meio, Sócrates arrancava palmas quando atacava o Ministério Público - que está contra "as bandeiras do PS e eram muitas"- e até gargalhadas da assistência quando lançava mais um caso: "Vocês conhecem a história do TGV?"

Sócrates arrancou ainda uma vaia aos jornalistas por manipularem as notícias. Nem a "escandaleira" da divulgação das imagens dos interrogatórios correu bem à acusação: Quem as viu concluiu que "estão a acusar esta pessoa sem factos e sem provas". 

O discurso acabou com os agradecimentos e promessas de luta pelos princípios do Estado de direito - e até que constam na declaração fundadora do PS - e contra as acusações "falsas e absurdas". Antes e durante o almoço, vários participantes abordaram o ex-primeiro-ministro para lhe dar palavras de ânimo. Outros lamentavam que vários amigos que se tinham comprometido com o almoço tivessem entretanto desistido. À chegada, antes de entrar no restaurante no Parque das Nações, os apoiantes cumpriam um ritual: confirmavam a sua inscrição com elementos da organização e deixavam numa caixa de plástico o respectivo comprovativo do pagamento por multibanco. Foram poucos os que pagaram os 20 euros em dinheiro vivo pedidos para o almoço.