Entrevista

“Falcón tornou-se um verdadeiro crítico do Governo”

Javier Corrales – professor de Ciência Política da Amherst College (EUA) e especialista em estudos latinoamericanos – critica práticas autocráticas de Nicolás Maduro, mas defende que a população deve ir às urnas para demonstrar que a eleição foi “usurpada” pelo regime.

NYSE
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Henri Falcón em campanha na capital, Caracas Carlos Garcia Rawlins/Reuters

Qual a sua opinião sobre a opção da oposição venezuelana pela abstenção?
A única forma de provar que uma eleição é ilegítima é demonstrar que foi usurpada. E para o fazer é necessário votar e depois provar que a margem da vitória do candidato ‘declarado’ foi inferior à margem da irregularidade. A oposição venezuelana boicotou a eleição para a Assembleia Constituinte [em Agosto] e não ganhou nada com isso. Nestas presidenciais há uma hipótese de colocar alguns travões nesse processo. Derrotando-o ou forçando-o a tornar-se ainda mais fraudulento e, com isso, enfraquecendo-o dentro do próprio universo chavista.

Acredita que Henri Falcón tem alguma hipótese contra Maduro?
Falcón é um político com muitos defeitos e cometeu muitos erros. Devia ter ouvido a MUD, devia ter procurado mais concessões do Governo e devia ter denunciado a violação de alguns acordos. Mas está rodeado de boas pessoas. E tornou-se um verdadeiro crítico do Governo. Pode atrair o apoio de alguns chavistas, algo que continua a ser o principal desafio da MUD.

Olhando para a situação política, parece que o sucesso eleitoral da MUD em 2015 não lhe trouxe qualquer poder. 
A vitória nas legislativas de 2015 foi enorme, a maior alguma vez obtida pela oposição. Mas o Governo usou todo o tipo de práticas autocráticas para lhe arrancar esse triunfo. Primeiro converteu o Supremo num apêndice do braço executivo, invalidando todas as competências do Parlamento. Depois, através de uma eleição fraudulenta e inconstitucional, inventou uma nova Assembleia Constituinte para abolir o Parlamento. Foi todo um novo tipo de autogolpe.

Com Leopoldo López, Henrique Capriles e Antonio Ledezma fora de cena, quem pode voltar a unir a oposição venezuelana?
Será difícil, mas tenho a certeza de que o Governo continuará a dar à oposição motivos para se unir. Importa, no entanto, destacar que não há praticamente nenhum país latino-americano que tenha uma oposição unida. A era dos sistemas políticos bipartidários da América Latina está a chegar ao fim. Já foi um milagre que a Venezuela tenha conseguido aproximar-se de um sistema desses nos últimos dez anos. Não espero que esse milagre seja eterno.