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Marco Gil
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Marco Gil é fotógrafo e contador de histórias

Megafone

A realidade dos “likes”

Preocupamo-nos mais com a imagem do que com os valores e é preferível sermos quem não somos do que sermos aquilo que somos. Aliás, “ser” e “estar” já não é bem aquilo que é

Deixei a vida real há coisa de três anos, passei a fazer vida no mundo virtual.

Ficaram para trás os abraços e tenho agora os retweets e os likes, é incrivel. Uma partilha vale por um aconchego e aquele like de um seguidor que “bomba” é um beijo intenso e forte.

Mas o orgasmo vem com os 17 followers que apareceram naqueles 10 minutos que se seguem à foto que publiquei a olhar para a calçada, que por acaso até era terra batida.

A vida não pára, porque se estiver distraído perco uma story e não quero passar a noite a pensar nisso. Os dias são curtos para tanta emoção feita de corações verdes, azuis e até amarelos, às vezes duas mãos que fingem bater palmas.

Nem é que se finja muito desde que cheguei aqui, mas muitas vezes temos que inovar e o mistério de estarmos onde não estamos é algo insuperável. Conheci Florença no Google e prometi a mim mesmo que só fiz de conta que foram oito dias por lá, porque ambiciono conhecê-la. Mas também porque os azulejos do Mosteiro da Batalha são iguais aos do Palazzo Vechio, foi como se o mundo estivesse a conspirar a meu favor e me dissesse: “Só mais esta story, Florença é arrebatadora”.

E já sinto saudades, aquela semana em Florença nem pareceu que se passou entre Leiria e a Batalha. Foi mágico e surpreendente.

Este mundo que fazemos de conta que existe não é tão mau como o apregoam (sim, escrevi “apregoam”, passou-me no feed ontem), tem coisas positivas, viajamos por todo lado, vamos onde nunca pensámos ir e posso garantir que fica quase de borla.

As refeições nem são bem as que comemos, só para que tenham noção daquilo que poupamos.

E isto tem regras, coisas simples: se olhar para o chão sai uma foto, se comer um gelado temos que tirar outra, se comer quinoa hoje tenho que fazer de conta que foi isso que comi o mês todo, perder 300 gramas é logo para partilhar e se olhar para o ar também sei que dá direito a mais uma fotografia, nunca partilhar um produto que não nos garanta mais de 25% de desconto em qualquer coisa (até pode ser comida para patos domésticos), abrir sempre em directo o que recebemos das marcas que divulgamos e ter cuidado com a activação da localização porque nos pode denunciar.

E fazer crossfit-treino funcional–hiit-zumba sem sair de casa e practicamente sem pagar aulas?

No Verão, o meu corpo tem que sair em pelo menos 19 stories à hora pelo novo algoritmo do Instagram e sei que tenho que me preparar para isso e mostrar também toda a preparação. Dizer ou escrever 30 vezes ao dia que “abacate é vida” como se fosse uma oração é das coisas que me dá mais prazer. E receber cremes pelo correio será o maior lapso do dia se não filmar desde a entrada do carteiro até ter a garantia de que aquilo é mesmo suavidade para a pele.

Hoje ser-se trend vale mais do que ser-se um cavalheiro. Nada contra os segundos, mas prefiro ser pop e receber perfumes e esteróides — abrir tudo isso num directo — do que abrir a porta a uma senhora.

Ter qualquer coisa a ganhar nos dias que correm é muito superior aos princípios. 35% de consciência e dever serve para alguma coisa? Dá entrada em algum meeting? É o civismo que me ajuda a ser melhor ou pior blogger?

Os laços que criamos com os seguidores são amizade para a vida, sei que se precisar posso contar sempre com ele para me promover. Dá-me o share que preciso e fico-lhe grato para sempre, é um amor que não se explica. Sente-se e “laika-se”.

Quando vou ao café irrito-me com aquelas pessoas que falam à minha volta e não percebem que estou concentrado no “face” ou a fazer scroll no feed; aquela malta consegue falar minutos seguidos sem parar, nunca perceberei! Ainda ontem éramos 27 no jantar de anos da Filipa e só o Nuno e a Rita não estavam a socializar, de resto estava tudo a partilhar aquele “niver” maravilhoso, cheio de confetti oferecidos pela marca que patrocina a Filipa.

Pára tudo: “Vejam bem este vestido da mais nova das Kardashian”. Este é um dos gritos de guerra, não há ninguém que se descuide das novidades que elas nos trazem. Há dias mandei-lhes um emoji a chorar pelo chat, nem viu. Mesmo assim, como não gostar delas? São a família que escolhemos.

Partilhei aquela foto com a minha mãe no dia delas, li-lhe todos os comentários que lhe teceram porque ela não tem Facebook, e ainda lhe li aquilo que lhe escrevi para todos perceberem o quanto ela é importante para mim. Creio que ninguém duvida do quanto gosto dela porque foi a publicação onde tive mais likes de sempre; muitos mais que aqueles do post em que a Maria dá os parabéns ao filho de 18 meses.

- O mundo mudou e, hoje em dia, já não é tão improvável vermos um porco a andar de bicicleta.

Preocupamo-nos mais com a imagem do que com os valores e é preferível sermos quem não somos do que sermos aquilo que somos. Aliás, “ser” e “estar” já não é bem aquilo que é.

A realidade é cada vez menos um substantivo que devemos ter em conta e o mundo é aquele que publicarmos, nunca aquele que vivemos. Porque republicar tem sido mais do que desfrutar ou existir e um seguidor é mais do que um amigo.

Mas não é isso que me dói mais, aquilo que me magoa é a troca dos abraços e dos gestos por clicks instantâneos e desprovidos de sentimento. Viver sem tacto ou olfacto.

A dor começa e acaba quando publicamos uma foto com a nossa mãe para o mundo ver e nos esquecemos que a temos diante de nós e lhe podemos dizer nos olhos ou num abraço o quanto a amamos, seja lá o dia que for. Que um tweet não chega e que o nosso filho de 18 meses não sabe ler aquilo que lhe postámos, que mesmo que seja bonito nunca lhe trará nada de significativo. Os bébés não têm redes sociais (sempre quis escrever isto).

Hoje é mais importante documentar do que sentir.