Dez crianças “torturadas” pelos pais numa segunda “casa dos horrores” na Califórnia

Um dos filhos do casal escapou à família e alertou as autoridades. Pais estão detidos mas refutam acusações de que infligiam abusos físicos, como waterboarding e queimaduras com água a ferver.

Ina Rogers, 31 anos, e Jonathan Allen, 29 anos, acusados de torturarem os dez filhos
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Ina Rogers, 31 anos, e Jonathan Allen, 29 anos, acusados de torturarem os dez filhos LUSA/SOLANO COUNTY SHERIFF'S OFFICE HANDOUT

Dez crianças, com idades entre os quatro meses e os 12 anos, foram encontradas numa casa na localidade de Fairfield, a Norte de São Francisco, na Califórnia, sob condições abusivas que o Ministério Público qualificou como "tortura".

Os menores eram alegadamente submetidos, pelos pais, a castigos que incluíam afogamento simulado (waterboarding), disparos de armas e queimaduras com água a ferver, de acordo com as autoridades californianas citadas pelo jornal Los Angeles Times. A mãe das crianças, Ina Rogers, de 31 anos, e o marido, Jonathan Allen, de 29 anos, foram acusados de abuso e maus-tratos e encontram-se detidos.

O caso foi descoberto depois de o filho mais velho do casal, de 12 anos, ter conseguido fugir de casa. Após a polícia ter sido notificada do desaparecimento, a 31 de Março, o menor foi localizado. Foi então que as autoridades procederam a uma inspecção para avaliar as condições em que o jovem vivia e encontraram outras nove crianças a viverem em sem condições de higiene e segurança. Os menores foram resgatados pelas autoridades e estão agora sob protecção dos serviços sociais. 

"Estamos horrorizados com o que nos contaram as crianças", disse Sharon Henry, procuradora do Condado de Solano, citada pela CBS News, acrescentando que, segundo os testemunhos, acredita que "houve [formas de] tortura naquela casa". Os pais encontram-se agora detidos e são acusados de negligência e abuso infantil e de actos de tortura. Foi aberta uma investigação pelas autoridades, juntamente com o Departamento de Violência Doméstica da polícia de Fairfield, que revelou um "longo historial de graves abusos físicos e emocionais nas crianças".

"As crianças eram constantemente espancadas, estranguladas, mordidas, atacadas com armas como arcos ou espingardas, espancadas com paus e bastões, submetidas ao afogamento simulado e derramavam água a ferver sobre elas", afirmou a procuradora do Condado de Solano, Veronica Juarez, num dos documentos apresentados em tribunal citada pela revista Time. Os abusos terão começado em 2014, de acordo com os depoimentos dos menores.

O casal ouvido nesta quarta-feira pelo Tribunal Superior de Solano, na Califórnia, tendo ficado detido. Ina Rogers enfrenta nove acusações de abuso sobre crianças e terá de pagar uma fiança de 495 mil dólares (420 mil euros) para sair em liberdade. Jonathan Allen é acusado de sete crimes de tortura e nove de abuso de crianças e a sua fiança é de 5,2 milhões de dólares (4,4 milhões de euros). Ambos negam as alegações.

Ina Rogers terá contado às autoridades que já tinha sido abordada pela assistência social, em 2015, depois de a avó materna das crianças ter “mencionado algo” que motivou uma visita domiciliar por parte dos serviços sociais. Porém, na altura, “nada foi encontrado” e as crianças, depois de ouvidas pelas autoridades, foram devolvidas aos pais, segundo a revista Time. A mãe acrescenta ainda que educava as crianças em casa mas a residência não estava registada para esse efeito – como manda a lei californiana –, de acordo com o Departamento de Educação da Califórnia.

Numa entrevista à estação televisiva KCRA-TV, Jonathan Allen, que está detido, afirmou que está inocente e que “não é um animal”, fazendo ainda referência às suas crenças religiosas – ele afirma que é “como um Indiana Jones quando se trata de espiritualidade”. A próxima audiência em tribunal está marcada para 24 de Maio.

Este caso vem a público depois de as autoridades terem descoberto um caso semelhante, em Janeiro, na cidade de Perris, na Califórnia. David e Louise Turpin foram acusados de manterem os seus 13 filhos em cativeiro, assim como de maus tratos e práticas de tortura, naquela que foi denominada a "casa dos horrores".