Conversas entre intermediários lançam suspeita sobre jogador do Aves

Nélson Lenho, defesa do Desportivo das Aves, foi referido numa das conversas entre os intermediários associados ao alegado esquema de corrupção montado pelo Sporting. O atleta terá recebido dinheiro do Sporting na presente temporada.

André Geraldes (à esquerda de Bruno de Carvalho) é um dos arguidos
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André Geraldes (à esquerda de Bruno de Carvalho) é um dos arguidos LUSA/MIGUEL A. LOPES

As trocas de mensagens entre os intermediários no alegado esquema de corrupção desportiva do Sporting indicam que vários jogadores de equipas rivais terão sido subornados para favorecer o clube de Alvalade em jogos da Liga. Entre os jogadores mencionados estão Nélson Lenho, do Desportivo das Aves, e Bruno Nascimento, do Feirense. Parte das conversas entre João Gonçalves (que agia a mando do suposto “cabecilha” do clube, André Geraldes) e Paulo Silva, (empresário encarregado de entregar o dinheiro dos subornos) foram reveladas pela SIC Notícias, na quarta-feira, e foram transcritas pelo Correio da Manhã (CM), na edição desta quinta-feira.

Numa das conversas recuperadas, João Gonçalves e Paulo Silva preparam o suposto suborno a Bruno Nascimento, defesa-central do Feirense, equipa que defrontaria o Sporting a 8 de Setembro de 2017. Paulo Silva diz ter “tudo controlado” para entregar ao defesa quatro mil euros, ressalvando que o dinheiro só chegaria ao futebolista se o jogo correr bem para o Sporting. A equipa de Alvalade ganhou o encontro por 3-2, mas André Geraldes terá recusado pagar ao futebolista por não ter gostado da prestação, escreve o CM. Já Paulo Silva recebeu a sua comissão, no valor de 350 euros. 

Na sequência da divulgação das conversas, o Feirense emitiu um comunicado em que afirma que não recebeu "qualquer notificação por parte das autoridades competentes, relativamente a qualquer envolvência nesta polémica, pelo que a estupefacção pelas notícias vindas a público é o sentimento que impera no clube". No comunicado, a SAD do Feirense sublinha ainda a disponibilidade para colaborar com as autoridades e informa que irá verificar internamente "a envolvência de qualquer agente desportivo que possa ter praticado tais actos".

O nome de Nélson Lenho, defesa do Desportivo das Aves, também é referido durante a conversa porque alegadamente recebeu dinheiro na primeira jornada da época 2017/2018 para ajudar o Sporting. Não terá sido Paulo Silva que subornou Nélson Lenho, mas sim outro intermediário, cujo nome se desconhece. Também se desconhece o montante em causa. O Desportivo das Aves volta a defrontar o Sporting novamente na final da Taça de Portugal, que se joga este domingo.

Ainda de acordo com as mensagens reveladas pelo CM, o Sporting já teria tentado corromper Leandro Freire, do Desportivo de Chaves, na época anterior, mas o atleta “desbroncou-se todo”. Paulo Silva terá tentado contactar o futebolista antes do jogo e ele terá aceitado o suborno num primeiro momento, mas mudou de ideias e recusou-se a ajudar o Sporting. Freire terá denunciado a tentativa à direcção do Chaves.

Escreve o CM que Paulo Silva estaria encarregado de identificar e subornar defesas-centrais ou laterais que pudessem facilitar a acção de Bas Dost e Gelson, avançados do Sporting.

O jornal A Bola também revela estas conversas, entre as quais uma em que os intermediários trocam impressões sobre como aliciar um jogador do Tondela antes do encontro de Setembro passado em Alvalade frente ao Sporting.

João Aurélio nega envolvimento no caso de corrupção

Ao longo de quarta-feira alguns meios de comunicação como o Correio da Manhã e a SIC Notícias revelaram que o escândalo de corrupção no Sporting se podia estender ao futebol – nomeando jogos contra equipas como o Desportivo das Aves, Feirense, Tondela, Vitória de Setúbal ou Vitória de Guimarães.

Do Vitória de Guimarães foi referido o nome do defesa João Aurélio – o jogador nega ter sido subornado. "Face às notícias veiculadas pelos órgãos de comunicação social, envolvendo o meu nome, sou a informar que as nego veementemente, pois sou completamente inocente. Desconheço, por completo, as razões para as referências ao meu nome. Não conheço, não sei quem são e nunca tive qualquer contacto ou qualquer abordagem, por parte desses nomes indiciados nas notícias, alegadamente relacionados com o Sporting", escreveu o futebolista.

"Estranhando que, até este momento, nunca tenha sido chamado a prestar declarações às entidades competentes, informo que instruí o meu advogado para agir judicial e criminalmente contra todos aqueles que, por qualquer forma, lançaram ou difundiram essas falsas insinuações", acrescenta João Aurélio, exigindo celeridade ao Estado e às autoridades judiciais no apuramento da verdade de forma a retirar o seu nome do que classifica de "lamaçal". O Sindicato dos Jogadores já emitiu um comunicado em que diz estar “ao lado de João Aurélio” e reitera o apoio ao jogador, nomeadamente no âmbito jurídico.

A investigação ao caso de corrupção por parte do Sporting, tanto no futebol quanto no andebol, já estaria em curso mas foi precipitada pelas notícias do CM. No esquema estiveram envolvidos pelo menos quatro pessoas, dois deles de funcionários do Sporting, que agora estão detidos para interrogatório. São eles André Geraldes, director do futebol do Sporting, Gonçalo Rodrigues, funcionário do gabinete de apoio ao atleta do Sporting, e os empresários João Gonçalves e Paulo Silva.

Estes últimos receberiam uma comissão por cada jogador que conseguissem corromper: 350 euros para Paulo Silva e 150 euros para João Gonçalves. Os montantes são referidos nas conversas de Whastapp agora apreendidas.

Para os jogadores, os montantes eram mais elevados. No andebol, variavam entre 1500 e 2000 euros, e no futebol entre três e dez mil euros. O dinheiro seria passado entre os intermediários em envelopes com o símbolo do Sporting. Foram encontrados vários envelopes na casa de Paulo Silva, apreendidos pelas autoridades, escreve o Correio da Manhã.

Os quatro detidos — André Geraldes, Gonçalo Rodrigues, João Gonçalves e Paulo Dias — passaram esta noite no estabelecimento prisional anexo às instalações da Polícia Judiciária (PJ), no Porto, e serão ouvidos nesta quinta-feira por um juiz do Tribunal de Instrução Criminal, que poderá decretar as repectivas medidas de coacção. Os arguidos no processo Cashball estão imputados de 18 crimes: dez de corrupção activa no andebol e oito no futebol.