Crítica

A mulher em chamas

Como pegar em pleno numa “questão social”, a educação, sem a transformar na declinação dum sermão: Serge Bozon mostra.

Serge Bozon, Éric Rohmer, Romain Duris, Sra. Hyde, Isabelle Huppert, Lua Cheia em Paris, Estranho Caso do Dr. Jekyll e Sr. Hyde
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Madame Hyde é a história de uma transformação que tem centro absoluto no físico de Isabelle Huppert
Sra. Hyde, Serge Bozon, Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, 2017 Locarno International Film Festival, Festival de Cinema de Nova York
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Serge Bozon, Sra. Hyde, Isabelle Huppert, caso estranho do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, Locarno International Film Festival
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Serge Bozon, Sra. Hyde, Isabelle Huppert, Tip Top, Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde
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A primeira coisa em que se repara em Madame Hyde é na voz, sumida e frágil, de Isabelle Huppert. O cenário é uma reunião de professores dum liceu no subúrbio parisiense, ela queixa-se da indisciplina dos alunos e da incapacidade de manter a ordem nas aulas, e os colegas, em vez de a consolarem, repreendem-na. Duma forma muito resumida, a história de Madame Hyde é a de como esta mulher aprenderá a ser “figura de autoridade”, para os seus alunos como para os seus pares. História de uma transformação, portanto, que tem centro absoluto no físico de Isabelle Huppert, em mais um papel discretamente prodigioso a trabalhar todas as nuances, da fraqueza à força, que um corpo e uma voz podem projectar.

Dizendo de outra maneira, é a história da sra. Géquil (nome da personagem) e da sua passagem a sra. Hyde, numa adaptação muito livre – libérrima – do clássico de Stevenson sobre uma personalidade contrapolarmente desdobrada. Bozon, que é um super-cinéfilo e um dos mais interessantes realizadores franceses da actualidade (e que, aleluia!, finalmente chega, com o quinto filme, ao circuito comercial português), sabe muito bem que essa história também tem um pedigree de burlesco – a cena da primeira transformação acidental de Huppert, sozinha no seu laboratório com um efeito especial de cartoon, parece uma vénia a Jerry Lewis e ao seu As Noites Loucas do Dr. Jerryl (1963), e, já que andamos por aqui, um dos coadjuvantes (o director da escola, o burocrata-clown interpretado por Romain Duris) tem os esgares e os movimentos desengonçados do Jean-Louis Barrault de O Testamento do Dr. Cordelier (1959), a variação de Renoir sobre o tema.

Mas, ao mesmo tempo, isto é pouco, o filme é muito mais do que um jogo cinéfilo. É, primordialmente, uma abordagem ao realismo, ao “realismo social”, fazendo-o existir num plano atravessado pelo fantástico e pelo irracional, que habitam a narrativa no seu interior (não há como livrar-nos disso, não há como livrarmo-nos dos planos de Huppert, feita literalmente uma mulher em chamas, cruzando a noite do subúrbio, deixando um rasto de bancos de jardim, ou um ocasional cadáver, carbonizados) tanto quanto se constituem em olhar exterior e em comentário “poético” sobre a acção (e aqui, nesta confluência do realismo e do fantástico, Madame Hyde lembra efectivamente um filme de Brisseau que Bozon cita como inspiração: De Bruit et de Fureur).

E, nesse contexto, é um filme muito humanista, muito democrata, sobre a educação, sobre a educação como veículo de emancipação e de inclusão (toda a diversidade cultural da sociedade francesa é dada naqueles planos filmados do fundo da sala de aula, onde as camisas de equipas de futebol vestidas pelos alunos, e obviamente não falta uma vermelha com o número 7 de Cristiano Ronaldo, traduzem as suas diferentes, chamemos-lhe, “fidelidades”). São talvez as melhores cenas, aquelas em que Bozon filma a educação “em acção”, quer dizer, um pensamento a ser conduzido até ao ponto em que se torna autónomo: os planos do quadro da sala a toda a largura do ecrã, as vozes e as mãos da professora e do aluno, um problema de geometria a ser exposto, e os planos a durarem o tempo necessário para que a solução seja achada (faz lembrar uma versão liceal de certos momentos de “pedagogia” godardiana, frequentemente exposta através da geometria e da matemática…).

Um filme duma inteligência discreta, riquíssima, que também é um exemplo de como pegar numa “questão social”, em pleno, sem a transformar na declinação dum sermão, e sem a desligar duma dimensão mental, irracional, plena de mistérios e curto-circuitos incendiários. Realmente incendiários.