A Coreia do Norte parece recuar, mas pode querer apenas ganhar mais balanço

Ao cancelar um encontro com representantes da Coreia do Sul e lançar dúvidas sobre a cimeira com Trump, Kim quer reforçar o seu poder à mesa de negociações. Os EUA responderam com cautela.

Kim Jong-un
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Kim Jong-un KCNA/REUTERS

Por mais imprevisíveis que sejam os líderes da Coreia do Norte, há pelo menos um comportamento que tem sido repetido ao longo das últimas décadas: antes da realização de uma cimeira importante, Pyongyang dispara um tiro de aviso para dizer ao mundo que só negoceia numa posição de força, e também para perceber até que ponto o outro lado da mesa está interessado no acordo.

E é isso que muitos analistas dizem que aconteceu terça-feira quando os norte-coreanos cancelaram de forma abrupta um encontro com representantes da Coreia do Sul que eles próprios tinham marcado um dia antes. E quando, logo em seguida, deram a entender que a histórica cimeira entre Kim Jong-un e Donald Trump afinal pode nem sair do papel.

Apesar de ninguém saber o que irá acontecer nos próximos dias ou semanas por mais análises que se façam, a correspondente da BBC em Seul, Laura Bicker, defende uma postura menos alarmista sobre o futuro do encontro entre Kim e Trump. Para Bicker, o que a Coreia do Norte fez foi "levantar dúvidas", e não indicar que está mesmo a pensar em cancelar a cimeira.

"A Coreia do Norte quer que o mundo saiba que vai chegar à mesa de negociações numa posição de força. Pode estar a sentir que é a única a fazer concessões", disse  no site da BBC. Só nos últimos dois meses, lembrou, Kim Jong-un anunciou a suspensão dos testes com mísseis e o desmantelamento de um local de testes nucleares, assinou uma declaração histórica com o Presidente sul-coreano e libertou três norte-americanos.

Tudo contra Bolton

Do lado dos EUA, só há "declarações descontroladas e provocatórias", acusou o ministro dos Negócios Estrangeiros da Coreia do Norte, Kim Kye Gwan, num comunicado publicado esta quarta-feira na agência estatal norte-coreana, a KCNA.

Em particular, os norte-coreanos apontam o dedo a John Bolton, o homem que o Presidente Trump escolheu para seu conselheiro de Segurança Nacional e para acompanhar de perto as negociações com a Coreia do Norte.

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Os norte-coreanos criticam directamente John Bolton, conselheiro de Segurança Nacional de Trump Joshua Roberts/REUTERS

Para além de ter afirmado em várias ocasiões, quando fez parte da Administração de George W. Bush, que o regime da Coreia do Norte só podia ser vergado pela força, Bolton disse algo nas últimas semanas que Kim não gostou de ouvir. Em várias entrevistas a canais de televisão norte-americanos, o conselheiro de Trump disse que os EUA querem da Coreia do Norte o mesmo que exigiram à Líbia em 2004 – ou seja, para se pensar num levantamento de sanções, é preciso que Pyongyang ponha fim ao seu programa nuclear sem condições e que destrua todas as armas e locais de testes sob supervisão internacional.

"Isto não expressa a intenção de lidar com o assunto através do diálogo", disse o ministro norte-coreano no comunicado, deixando subentendido que a Coreia do Norte tem bem presente o fim que o ditador Muammar Khadafi teve em 2011, depois de ter abdicado do seu programa nuclear e os EUA se terem posto do lado dos rebeldes, que derrubaram o regime e o mataram: "O mundo sabe que o nosso país não é nem a Líbia nem o Iraque, países que tiveram destinos miseráveis. É perfeitamente absurdo comparar a República Popular Democrática da Coreia, um Estado com armas nucleares, à Líbia, que estava numa fase prematura do seu desenvolvimento nuclear."

Por outras palavras, a Coreia do Norte quer dizer aos EUA que se a intenção da Administração Trump é tirar-lhe o armamento para depois derrubar o regime, então a resposta norte-coreana será violenta e terá consequências para todo o mundo – um cenário muito diferente do que representava a Líbia de Khadafi.

Trump cauteoso

E é por isso que Trump aparece no comunicado do ministro norte-coreano como um líder que arrisca transformar-se "num Presidente menos bem-sucedido e mais trágico do que os seus antecessores, muito longe da sua ambição inicial de ter um sucesso sem precedentes" – é isso que acontecerá, diz a Coreia do Norte, se o Presidente norte-americano "seguir os passos dos seus antecessores".

Mas, como sublinhou a correspondente da BBC em Seul, as palavras escolhidas pelo Governo norte-coreano não fecham a porta a nada. Tudo depende da forma como os responsáveis norte-americanos, especialmente John Bolton, continuarem a discutir em público o que a Coreia do Norte tem ou não tem de fazer.

"Se a Administração Trump abordar a cimeira com sinceridade, no sentido de melhorar as relações entre os dois países, terá uma resposta adequada da nossa parte", disse Kim Kye Gwan. "No entanto, se os EUA estiverem a tentar empurrar-nos para um canto para nos forçarem a um abandono unilateral do nuclear, não continuaremos interessados nesse diálogo e reconsideraremos a nossa participação na cimeira", afirmou.

O Presidente Donald Trump manteve as suas opiniões sobre o novo cenário fora do Twitter. O assunto mereceu apenas sóbrios e contidos comentários da porta-voz do Departamento de Estado, Heather Nauert, e da porta-voz da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders. Para dizerem que os EUA não foram notificados de nenhuma mudança nas intenções da Coreia do Norte e que vão "continuar a coordenar-se com os aliados".

Trump respondeu de forma breve a perguntas lançadas pelos jornalistas na Sala Oval da Casa Branca, mas nem por isso descolou do discurso cauteloso. "Temos de ver", "ainda não fomos notificados, não vimos nada, não ouvimos nada", disse Trump. Ainda assim, adiantou que não vai deixar de exigir a desnuclearização da península coreana.

Ninguém sabe se o Presidente Trump conseguirá manter a calma, mas se tudo dependesse do analista Mintaro Oba, antigo diplomata do Departamento de Estado e especialista na Península Coreana, o silêncio seria mesmo a melhor estratégia.

"Se eu pudesse dar um conselho ao Presidente Trump sobre a melhor forma de lidar com a ameaça norte-coreana de cancelar a cimeira, seria este: mantenha a calma e continue no seu caminho. Clarifique as intenções da Coreia do Norte através dos canais diplomáticos, mas não caia na armadilha deles ao agravar a situação", disse Mintaro Oba no Twitter.

O caso Max Thunder

Mas a viragem inesperada de Pyongyang em relação às certezas que iam sendo repetidas nos EUA e na Coreia do Sul sobre a cimeira entre Kim e Trump não foi o único tiro de aviso disparado pela Coreia do Norte entre terça e quarta-feira.

Antes do comunicado do ministro dos Negócios Estrangeiros norte-coreano, Pyongyang já tinha feito saber que não iria estar presente numa reunião com representantes da Coreia do Sul, esta quarta-feira, na zona desmilitarizada de Panmunjeom. Uma reunião que tinha sido pedida por Pyongyang no início da semana.

Neste caso, as queixas norte-coreanas centram-se no exercício militar conjunto Max Thunder, que a Coreia do Sul e os EUA iniciaram na sexta-feira e que realizam todos os anos por esta altura – um gigantesco exercício com uma centena de aviões de guerra, incluindo os bombardeiros B-52, que a Coreia do Norte diz ser um "ensaio para um ataque" e que os dois aliados dizem ser "puramente defensivo" para treinar a defesa da Coreia do Sul em caso de ataque.

Em causa está o que a Coreia do Norte diz ser uma violação da Declaração de Panmunjom, assinada a 27 de Abril entre Kim Jong-un e o Presidente sul-coreano, Moon Jae-in.

"O Norte e o Sul declararam solenemente nessa declaração que tinha chegado uma nova era de paz e concordaram em fazer esforços conjuntos para acalmar as tensões militares na península e reduzir bastante o perigo de guerra, o que os EUA apoiaram totalmente", lê-se num comunicado do Governo norte-coreano transmitido pela agência KCNA.

"No entanto, quando a tinta da histórica declaração de 27 de Abril ainda nem sequer tinha secado, as autoridades sul-coreanas e norte-americanas iniciaram um exercício contra a República Democrática Popular da Coreia, reagindo com uma provocação rude e perversa aos esforços pela paz e às boas intenções demonstradas", acusa a Coreia do Norte.

Esta reacção norte-coreana sugere que o regime quer levar para a mesa de negociações com Trump a questão dos testes militares conjuntos entre os EUA e a Coreia do Sul. Em Abril, a Coreia do Sul disse que a Coreia do Norte "compreende" a realização desses exercícios, mas alguns analistas dizem que Kim Jong-un estava a referir-se apenas aos exercícios que decorreram durante o encontro com o Presidente sul-coreano, a 27 de Abril – e que essa compreensão não se estendia ao exercício Max Thunder.

Para Victor Cha, um especialista em política coreana em quem o Presidente Trump chegou a pensar para embaixador em Seul, as queixas sobre o exercício Max Thunder têm apenas um objectivo: "Serve para estabelecer que os exercícios militares estarão em cima da mesa de negociações."

A ideia de que esta aparente viragem abrupta no caminho para a cimeira será apenas um percalço é também defendida por Adam Mount, da Federação de Cientistas Americanos, a organização criada em 1945 por cientistas que fizeram parte do Projecto Manhattan para desenvolver as primeiras bombas atómicas.

"Os norte-coreanos sabem como fazer uma ameaça explícita", disse Mount ao New York Times. "Pelos seus padrões, esta é muito moderada. Pode muito bem ser uma estratégia para ganharem mais margem de manobra ou para verem como é que a equipa de Trump reage."