Livros

O Sr. Solitário descobriu o amor (e partilhou-o)

“Na casa n.º 89 da pequena vila das 3 colinas vivia um senhor. Os vizinhos chamavam-lhe o ‘Sr. Solitário’.” Assim começa o livro A Incrível História do Sr. Solitário, que o autor e ilustrador, Elias Gato, contou de viva voz no estúdio do PÚBLICO, em mais um Livro para Escutar do Letra Pequena. Como facilmente se depreende pelo nome, aquele homem morava sozinho. Em rigor, vivia com a sua paixão, “coleccionar coisas”. Das mais insignificantes às mais incríveis. Mas um dia sentiu-se “aprisionado na sua colecção” e resolveu empacotar tudo, por tamanhos. Apercebeu-se depois de que algo pequenino tinha ficado esquecido numa prateleira. Algo de que não se lembrava de quando teria usado pela última vez. Tentou empacotá-lo, mas ele cresceu, cresceu e expulsou-o de casa. “Na manhã seguinte, o Sr. Solitário acordou a pensar no que tinha acontecido. Se não conseguia viver com um amor tão grande, tinha de fazer uma coisa: partilhar.”

Sempre em mudanças

O autor diz não saber ao certo como lhe surgiu este homem solitário: “Penso que na altura (na faculdade) me surgiu esta ideia de caixa como forma de empacotar coisas/memórias. Acontecia muito comigo, por ser um estudante deslocado e estar sempre a mudar de poiso”, descreve ao PÚBLICO.

E prossegue: “Uma noite, uma pessoa pediu-me que lhe contasse uma história antes de adormecer, e eu comecei a improvisar uma história que se tornaria mais tarde em A Incrível História do Sr. Solitário. Lembro-me de estar a contar a história e ao mesmo tempo sentir um êxtase tremendo por tudo aquilo estar a fazer sentido e poder sair dali algo em que poderia trabalhar. Nessa altura não sabia nada sobre ilustração infantil, paginação, impressão, etc. Na minha ingenuidade, comecei esta odisseia de criar o meu primeiro livro ilustrado.” Fez bem. O livro tem graça.

Uma livraria dentro de casa

Sobre a sua infância, Elias conta, numa mensagem enviada por email ao PÚBLICO depois de gravada a leitura do Sr. Solitário. “Em pequeno carregava nos erres, rabiscava e brincava nas ruas de Castro Marim. Nunca fui um leitor afincado, apesar de o meu pai ter uma livraria dentro de casa. Mas nunca deixei de imaginar. Queriam-me arquitecto, mas o que eu queria era Pintura.” Foi para Lisboa e fez “o que tinha a fazer”. Diz que a Pintura lhe “deu as bases de que precisava, dando depois lugar à ilustração e à educação”. Hoje, luta por ser um “gato livre” e descreve: “Aqui Há Gato foi como chamei à minha microeditora fictícia, através da qual comunico com o resto da vizinhança, entre livros, ilustrações e escrita. Há dias em que sou só ilustrador, noutros dias sou também escritor, noutros arrisco-me a ser designer, noutros acordo editor, noutros ainda visto a pele de impressor e, nalguns dias, chego mesmo a fazer as encomendas e a distribuição. Dá trabalho? Sim. É difícil? Sim. Mas nada que faça melindrar quem tem paixão e, claro, sete vidas!”

Material antigo e novo

Quisemos saber que técnicas e materiais usou para dar vida ao Sr. Solitário. Eis a explicação: “As ilustrações foram feitas em técnica mista sobre papel, principalmente com recurso à colagem, ao frottage e aos materiais riscadores. Grande parte do material utilizado para a colagem já o tinha comigo: revistas, cadernos quadriculados e pautados, posters, etc; aos que acrescentei: guardanapos, papel de mesa e papel de rolo de máquina.”

O resultado pode ser adquirido por correio postal ou por entrega em mão (para quem estiver em Lisboa ou no Sotavento Algarvio), sendo as encomendas feitas através do email de Elias Gato, [email protected], ou da página de Facebook: https://www.facebook.com/eliasrgato.

Cabe numa caixa, mas também pode ser partilhado.

 

A Incrível História do Sr. Solitário
Texto e ilustrações: Elias Gato
Revisão: Rui Bastos
Edição: autor
44 págs., 10€+despesas de envio (encomendas através de  [email protected] e https://www.facebook.com/eliasrgato)