Morreu o encenador João Silva, fundador do Grupo de Teatro Terapêutico do Júlio de Matos

A estreia do GTT e de João Silva, como encenador, ocorreu em Dezembro de 1968, com uma peça de Eugene O'Neill, Óleo.

Cena da peça <i>Torcicolo</i>, estreada em Fevereiro de 2017
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Cena da peça Torcicolo, estreada em Fevereiro de 2017 Joana Saboeiro

O dramaturgo e encenador João Silva, fundador do Grupo de Teatro Terapêutico do Hospital Júlio de Matos, morreu esta segunda-feira, em Lisboa, anunciou esta estrutura na sua página no Facebook.

"É com pesar que comunicamos a todos os nossos amigos o desaparecimento do nosso encenador, João Silva. Iremos prestar as condolências, na Igreja da Nossa Senhora de Fátima", em Lisboa, lê-se na mensagem do Grupo de Teatro Terapêutico (GTT), que adianta a realização do funeral, esta quarta-feira, às 14h00, no Cemitério dos Olivais, onde será feita a cremação.

João Silva nasceu em Lisboa, iniciou a carreira teatral na Casa da Comédia, onde se estreou como actor em 1964, na peça de Gil Vicente Farsa de Inês Pereira, e de onde partiu para criar o Grupo de Teatro Terapêutico do Hospital Júlio de Matos, em 1968, há 50 anos, por convite de um grupo de médicos e de doentes da instituição.

Quando questionado sobre a idade, a sua resposta era imediata: "Esquece lá isso".

A estreia do GTT e de João Silva, como encenador, ocorreu em Dezembro de 1968, com Óleo, do dramaturgo Eugene O'Neill, a que se seguiu, poucos meses depois, Torno, de Luigi Pirandello.

Foi o início de uma colaboração que se manteve até à morte de João Silva, uma colaboração quase exclusiva, segundo a Base de Dados do Centro de Estudo de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e que teve o último acto na estreia de Casulo, no passado mês de Abril, uma "leitura-análise" de discussões e conversas dos utentes do GTT, concebida pelo encenador.

Depois da estreia dos dois primeiros espectáculos, a companhia sobreviveu com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, que permitiu, em 1970, a montagem de Caleidoscópio, de Eduardo Gama.

Seguiram-se, em 1972, A Traição do Padre Martinho, de Bernardo Santareno, projecto suspenso pela censura da ditadura, e, em 1973, a adaptação de Calígula, de Albert Camus, que só após o 25 de Abril de 1974 seria levada a cena, na versão integral.

Médico à Força, de Molière, que João Silva interpretara na Casa da Comédia, deu continuidade ao GTT, em 1976, antes de O Principezinho, em 1978, a primeira produção sem apoios externos ao Hospital Júlio de Matos, que assinala igualmente a estreia da companhia em palcos exteriores à instituição, com a representação no Teatro da Comuna, segundo a cronologia do grupo.

Perseguição e Assassinato de Jean Paul Marat, de Peter Weiss, abriu a década de 1980, que contou com Murmúrios do Capuchinho Vermelho, texto de João Silva inspirado no conto tradicional, As Sete Notas Mágicas e Neblina, apresentada em 1988, no Teatro Maria Matos, a partir de Frei Luis de Sousa, de Almeida Garrett, e Carmen em Tragicomédia no Luna Parque, sobre Prosper Merimée.

Em 1991-92, João Silva concebe As Magnólias, projecto levado à cena em diferentes instituições e salas de espectáculo, cujo texto, da sua autoria, resultou por inteiro de sessões de grupo.

O processo teve continuidade com Memórias de Bichos e Gente, peça estreada na Culturgest, em 1994, Tolerar os Tolos (1997), A Muralha (2001), Sonhos sem Freud (2002), Tordos à Deriva (2004), A Borralhona (2005), A Nossa Quinta (2006), No Cais (2008), Noturnos (2013), Torcicolo (2017) e, por fim, o já citado Casulo.

Em 2009, Limiar – sobre o limiar da doença e da loucura – levou o GTT e João Silva, pela primeira vez, ao palco do Teatro Nacional D. Maria II.

Em Abril, o GTT contava 18 elementos, metade homens e metade mulheres, entre os 22 e os 60 anos de idade, pessoas em regime de internamento ou de tratamento ambulatório, no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, e ex-doentes da unidade hospitalar.

"Cada peça de teatro é trabalhada em criatividade e em idêntico profissionalismo como as demais", mas sem nunca descurar o lado terapêutico, disse então João Silva à agência Lusa. O projecto "é simultaneamente uma terapia e uma libertação pela arte, o teatro".

O realizador Rui Simões dirigiu o documentário Teatro de Sonhos, sobre João Silva e o trabalho do grupo.

Em 2016, João Silva publicou a peça Vigilantes, na editora Cavalo de Ferro.

Esta quarta-feira, os actores ofereceram a João Silva "50 rosas que celebram este projecto", uma por cada ano do GTT, do qual foi fundador e líder. "Estamos todos aqui, unidos, para dar continuidade ao seu trabalho exemplar", lê-se na mensagem.