Crítica

A ideia sem filme

O autor de Truman Show e Gattaca assina um film noir futurista com uma extraordinária ideia de partida à qual nunca faz genuinamente justiça.

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Uma jovem sem identificação (Amanda Seyfried) numa sociedade que impede o anonimato ,
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Clive Owen, Anon, Sal Frieland
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Amanda Seyfried, Anon
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Na sua procura de realizar um cinema de género que pense e tenha ideias, o neo-zelandês Andrew Niccol é uma espécie de Christopher Nolan a quem a crítica e a bilheteira não sorriram — continua a ser mais recordado pelos seus dois primeiros títulos, The Truman Show (1997), que escreveu para Peter Weir, e Gattaca (1997), que escreveu e dirigiu, do que pela carreira indistinta que se lhe seguiu, que incluiu ainda assim filmes como Simone (2001), Senhor da Guerra (2005) ou Sem Tempo (2011). Que a ficção científica de Niccol é fria, glacial, geométrica, já sabíamos desde Gattaca e Sem Tempo, ambos ambientados em mundos futuros, “perfeitos”, onde persiste no entanto uma divisão social.

Anon prolonga essa lógica de futurismo cerebral: é, mais do que um filme, uma experiência filosófica, um quebra-cabeças mental em tom de film noir virtual, que projecta uma sociedade inteiramente “ligada à rede”, em que a privacidade não existe e tudo é público e transparente. Tudo? Nem tudo, como descobre um detective da polícia (Clive Owen) ao investigar um assassínio cujo perpetrador se “escondeu” da vigilância, e ao cruzar-se com uma jovem sem identificação (Amanda Seyfried) numa sociedade que impede o anonimato. Niccol evoca aqui formalmente coisas como o Alfaville de Godard, o THX-1138 de Lucas, o Fahrenheit 451 de Ray Bradbury ou um Blade Runner austero, mas nunca consegue encontrar o filme que faça justiça à sua ideia. É melhor do que a maior parte da produção corrente, mas é frustrante que se limite a ser apenas isso.