A embaixada dos EUA em Jerusalém foi abençoada por pregadores messiânicos

Robert Jeffress já defendeu que os judeus tinham o inferno reservado. John C. Hagee afirmou que o Holocausto era um plano de Deus para que o povo de Deus regressasse a Israel. Têm o ouvido de Trump.

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Ivanka Trump, Jared Kushner e o secretário do Tesouro dos EUA, Steve Mnuchin, na cerimónia de inauguração Amir Cohen/REUTERS
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Robert Jeffress já insultou várias religiões, incluindo o judaísmo, mas é próximo de Trump Yuri Gripas/REUTERS

O início e o final da cerimónia de inauguração da embaixada norte-americana em Jerusalém foram marcados por orações conduzidas por dois evangélicos norte-americanos que no passado geraram controvérsia por afirmações sobre outras religiões. Incluindo sobre o judaísmo, que como todas as religiões do livro tem como cidade santa Jerusalém.

Robert Jeffress é pastor da igreja baptista de Dallas (Texas), com 13 mil membros, e apresenta um programa televisivo transmitido em 28 países, e um programa radiofónico. É próximo de Donald Trump, e integra a equipa de conselheiros evangélicos do Presidente norte-americano. Coube-lhe a oração que abriu a cerimónia de inauguração da nova embaixada dos EUA em Israel.

Porém, se se tiver em conta afirmações que Jeffress – que tem uma interpretação literal da Bíblia - fez no passado, é aparentemente contraditório que o pastor marcasse sequer presença na cerimónia em Jerusalém. “Judaísmo? Não se pode ser salvo se se for judeu. Sabe quem disse isso, já agora? Os três maiores judeus no Novo Testamento: Pedro, Paulo e Jesus Cristo”, disse numa entrevista em 2010 à Trinity Broadcasting Network, e agora lembrada pelo New York Times.

Porém, as críticas estendem-se a outras religiões: “O islão é errado. É uma heresia do fundo do inferno. O mormonismo é errado. É uma heresia do fundo do inferno”, disse na mesma entrevista.

Em 2008 falou no tema para dizer que “não apenas religiões como o Mormonismo, islamismo, judaísmo, hinduísmo, afastam as pessoas do verdadeiro Deus, como levam as pessoas para uma eternidade no Inferno separados de Deus”.

No seu programa de televisão, em 2010, recorda o Washington Post, Jeffress dedicou-se ao catolicismo para dizer que esta religião é “um instrumento do Satã”.

Em 2011 voltou ao catolicismo, para dizer que é um “tipo de culto” e uma “religião pagã”. Além disso, afirmou que é um produto da corrupção e que “infectou a Igreja original”.

Uma das figuras que criticou a presença de Jeffress em Jerusalém foi o antigo candidato presidencial republicano e actual candidato a senador, Mitt Romney, que é mórmon e que foi já alvo de afirmações do pastor.

“Robert Jeffress diz que ‘tu não podes ser salvo por seres judeu’ e ‘mormonismo é uma heresia do fundo do inferno’. Ele diz o mesmo do Islamismo. Tal intolerante religioso não deveria rezar a oração que abre a embaixada dos Estados Unidos em Jerusalém”, escreveu Romney no Twitter.

Jeffress acabou por pedir desculpa pelas declarações que proferiu sobre o catolicismo. Mas tem sido uma das figuras conservadoras que mais tem criticado a forma tímida como a Igreja e os cristãos conservadores têm condenado a supremacia branca, o racismo e a segregação nos EUA.

Mas o pastor de Dallas não foi a única personalidade controversa a intervir na cerimónia de segunda-feira. Coube a John C. Hagee abençoar o edifício da nova embaixada norte-americana, no final da festa. Além de ter também os seus programas de televisão e rádio, Hagee, pastor da Igreja de Cornerstone, em San Antonio, no Texas, traz consigo uma sombra de polémica.

Interpreta a Bíblia de forma literal e é fundador da organização cristiano-sionista Cristãos Unidos por Israel. A sua proximidade com Israel vem de trás, ao contrário de Jeffress.

Numa entrevista à rádio pública norte-americana NPR, em 2006, disse que o furacão Katrina, que provocou, no ano anterior, a morte de mais de 1200 pessoas em Nova Orleães, foi “um castigo de Deus”: “Nova Orleães tinha um nível de pecado que era ofensivo a Deus, e eles foram alvo do julgamento de Deus por isso”. “O furacão Katrina foi, na verdade, o julgamento de Deus contra a cidade de Nova Orleães”.

Apesar de ser um defensor do Estado de Israel, argumentando que os judeus serão salvos na segunda descida à Terra de Jesus, Hagee tem a teoria de que o Holocausto fazia parte de um plano de Deus para fazer regressar os judeus a Israel. “Como é que aconteceu [o Holocausto]? Porque Deus permitiu que acontecesse”, disse num sermão durante os anos 1990, citado pelo New York Times. “Porque é que aconteceu? Porque Deus disse que a sua principal prioridade para o povo judeu era levá-lo de regresso ao território de Israel”.

O jornalista do Haaretz Chemi Shalev escreve que a “participação dos pastores John Hagee e Robert Jeffress na cerimónia acentua este novo eixo de fundamentalismo, elementos de adoração messiânica do fim dos tempos que cada vez mais dominam os laçoes entre os dois países (EUA e Israel)”.