Crítica

La Luz: Hay banda!

Um disco habitado por sonhos, monstros, desejos de viagens interestelares, amores bizarros e brisas retemperadoras — as da Califórnia natal das La Luz.

Parada do riquixá
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Com as La Luz estamos no domínio da música como tradução directa de um desejo de sonho CHONA KASINGER

Arranca com a consciência de que não há segundas oportunidades para criar uma primeira impressão e, portanto, vai assim: guitarra feita alaúde, qual Turquia rock da década 1970, e órgão Vox, tremeluzente, a abrir caminho para libertar o carrossel rock’n’roll. O espectáculo ainda nem começou e já fomos conquistados. No instrumental que abre o terceiro longa-duração das La Luz, como resistir àquele animadíssimo diálogo entre órgão e guitarra? Não há forma de resistir, o que é uma constante ao longo deste Floating Features habitado por sonhos, monstros, desejos de viagens interestelares, amores bizarros e brisas retemperadoras — as da Califórnia natal da banda.

Três anos depois de editarem Weirdo Shrine, produzido por Ty Segall e fiel às raízes lo-fi da banda, Shana Cleveland (vocalista e guitarrista), Alice Sandahl (teclista), Lena Simon (baixista) e Marian Li Pino (baterista) trocaram a baixa definição por um hi-fi muito particular: o deste universo de reverberações surf-rock na guitarra, de vozes sussurradas e coros arrastados de girl-group dado às delícias do psicadelismo, de deliciosos mistérios e música envolta em eco.

A harmonização das vozes sugere, como em Cicada, uns Ladytron de altar posto ao garage-rock das compilações Nuggets e Pebbles — e talvez umas Lush à solta no carrossel multicolorido dos Growlers. A guitarra, essa, segue o caminho de um Dick Dale ou de um Link Wray cavalgando em western de Sergio Leone — já em canções como Mean dream ou My golden one há apropriações “do-it-yourself” do Wall of Sound de Phil Spector. Há isso mas, acima de tudo, uma certeza no gesto (precisão e bom gosto inatacável na interpretação) e uma forma peculiar de dar vida ao que estas canções escondem.

O território das La Luz é muito conhecido do rock’n’roll: estamos no domínio do sonho, ou melhor, do da música como tradução directa desse desejo. Da mesma forma, é nele recorrente a verdade que aqui cantam: a vida pode ser um aborrecimento e a fuga é desejo de sempre mas, felizmente, há formas infalíveis de escapar ao primeiro e de viver a segunda. “In the middle of the day/ I am in my room alone/ I don’t have much to say/ But I’ve got places I could go”, canta Shana Cleveland em Loose teeth. Sabemos para onde foi: está tudo aqui, no órgão irresistível em diálogo com a guitarra reverberante, está nas vozes de perfeição folk, está neste som de abandono rock’n’roll, delícias psicadélicas e inspiração (dream) pop.

Há em Floating Features uma Greed machine a bafejar-nos no pescoço a toda a hora, há versos em balada de amor imaculada que soam a beijo de morte (“What’s the use of being free/ If you’ll give your heart to me/ Falling in love, walking into the sun”). Ou seja, há vida a sério neste universo de cores eternamente garridas a iluminar o céu nocturno.

Encontramos em vários textos sobre a banda referências a Quentin Tarantino (porque estas canções, alega-se, poderiam ser incluídas nas suas bandas-sonoras) ou de David Lynch (porque, explica-se, há algo do seu imaginário vertido nesta música). Talvez seja excessiva a colagem dos dois cineastas à música das La Luz, mas uma coisa é certa. Neste caso, que não tenhamos dúvidas “hay” mesmo “banda” — e é daquelas irresistíveis.