Filme mostra como a infecção por VIH acontece por via sexual

Vários vídeos de poucos segundos revelam como o VIH passa a mucosa genital para atingir o sistema imunitário de um novo hospedeiro. Agora que se observou toda a sequência num tecido vivo, o próximo passo será desenvolver uma “vacina da mucosa”.

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Célula infectada com VIH espalha o vírus disparando raios para a mucosa Fernando Real et al

Uma equipa de investigadores em França construiu um modelo in vitro da camada mucosa da uretra para observar todos os detalhes do momento do primeiro contacto, por via sexual, entre um linfócito T infectado com o VIH e um novo hospedeiro. O resultado deste trabalho é um vídeo que mostra uma impressionante e nítida sequência dos vários passos da estratégia de ataque na chegada do VIH a um novo organismo. Nas imagens vemos, por exemplo, a formação de uma bolsa quando o linfócito T infectado chega até às células epiteliais, e os raios verde fluorescente que o vírus da sida dispara para a mucosa, funcionando como se estivesse munido de uma arma laser. O filme da invasão do VIH foi agora publicado (ou exibido) na revista Cell Reports.

“Tínhamos uma ideia geral da forma como o VIH infecta este tecido, mas seguir algo ao vivo é completamente diferente. Conseguimos definir a sequência exacta dos eventos e ficámos muito surpreendidos”, refere Morgane Bomsel, investigadora do Instituto Cochin, da Universidade Paris Descartes, em França, que liderou este projecto, no comunicado publicado pelo grupo da revista Cell sobre o estudo. Numa resposta por e-mail ao PÚBLICO, Fernando Real, investigador brasileiro que trabalha no laboratório dirigido por Morgane Bomsel e primeiro autor do artigo, explica que neste projecto conseguiram “registar, em tecidos vivos, o momento em que células infectadas pelo VIH interagem e espalham o vírus pelas células epiteliais que revestem e protegem a mucosa genital”. O processo, adianta o cientista, dura cerca de uma hora e simula o que acontece durante a transmissão sexual do VIH.

“Os vírus transmitidos dessa forma atravessam a barreira de células epiteliais e alcançam importantes células do sistema imunitário presentes na mucosa genital, os macrófagos, nos quais o VIH se estabelece de forma latente e duradoura”, esclarece Fernando Real. O mecanismo usado pelo vírus da sida neste momento da infecção era conhecido, mas, ainda assim, os investigadores ficaram surpreendidos com o que observaram no tecido vivo.

“Foi surpreendente e impressionante observarmos que as células infectadas espalhavam vírus em jactos direccionados às células epiteliais, pulverizando VIH pela mucosa genital durante minutos. O fenómeno era claramente distinto das transmissões de VIH entre células isoladas in vitro descritas anteriormente na literatura científica”, confirma Fernando Real. As imagens são, de facto, impressionantes e permitem acompanhar a estratégia de invasão deste vírus, marcado a verde fluorescente, no tecido da camada mucosa da uretra. “Reproduzimos in vitro o momento em que células infectadas de um indivíduo HIV-positivo entram em contacto com a mucosa genital de um indivíduo sadio durante o acto sexual. Esse contacto desencadeia a transferência maciça de partículas virais da célula infectada directamente para a barreira de células epiteliais que revestem a mucosa genital”, resume o investigador.

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A formação de uma bolsa quando o linfócito T infectado chega até às células epiteliais Fernando Real et al

Assim, nos vídeos vemos um linfócito T infectado com o VIH a entrar em contacto com uma célula epitelial formando uma espécie de bolsa, chamada sinapse virológica, numa acção que estimula a produção do vírus que pode ser identificado nos pontos verdes fluorescentes. Segue-se uma das mais incríveis cenas do filme produzido e realizado em laboratório quando vemos claramente esta célula a disparar raios verdes para as outras células epiteliais. Parece ficção científica mas é uma emissão inteiramente baseada em factos reais. No comunicado sobre o estudo, sublinha-se que, nesta altura, “a célula epitelial não está infectada: o vírus simplesmente viaja através da célula via transcitose”, um processo celular de transporte. “Uma vez transferidos, os vírus atravessam a barreira epitelial e infectam outras células-alvo dentro da mucosa genital, como os macrófagos”, completa Fernando Real. É aqui que tudo se complica uma vez que os macrófagos são células de defesa do organismo e que actuam no sistema imunitário.

Uma vacina da mucosa

De acordo com o comunicado, uma das descobertas surpreendentes neste projecto foi perceber que os linfócitos T infectados pareciam atingir as células epiteliais que se encontram mesmo por cima dos macrófagos. “O macrófago fica parado, pronto para receber o vírus quando ele escapa das células epiteliais. Mas essa observação dinâmica permitiu que víssemos que a sinapse [virológica] é sempre formada em células epiteliais que estão logo acima dos macrófagos, sugerindo que temos de facto uma interacção entre os macrófagos e o epitélio. Não poderíamos imaginar isto antes destas imagens”, diz Morgane Bomsel.

“O macrófago é uma das células-alvo do VIH nas quais o vírus se esconde do sistema imunitário e se mantém latente ou dormente durante a terapia anti-retroviral. Uma vez interrompida a terapia, o vírus retoma a multiplicação no organismo, impedindo assim a cura definitiva”, nota o investigador. Por isso, além do desenvolvimento de vacinas das mucosas, que impediriam a infecção dos macrófagos da mucosa genital ainda durante o acto sexual, este grupo de investigadores está também a investigar “como será possível limpar ou expurgar o vírus dormente de dentro dos macrófagos na mucosa infectada”.

O desenvolvimento de uma vacina da mucosa contra o VIH é uma das linhas de investigação deste grupo de cientistas que integra o laboratório dedicado à área da entrada na mucosa do VIH e imunidade das mucosas, refere Fernando Real quando o questionamos sobre o próximo passo deste projecto. “Vacinas que estimulem precisamente o sistema imunitário de mucosas, também chamadas de vacinas de mucosa, podem ser eficazes em impedir a transmissão do VIH no local da interacção entre a célula infectada e a mucosa genital durante um contacto sexual de risco.”

Mas, será que o filme captado agora permite identificar o momento ideal para agir com uma vacina das mucosas? “Essas vacinas poderiam bloquear uma ou mais etapas de transmissão reportadas no nosso trabalho: a interacção de células infectadas com a mucosa genital, a passagem do vírus pela barreira epitelial e a infecção de outras células-alvo em regiões mais internas da mucosa”, responde o investigador.

Uma vacina da mucosa poderia criar uma barreira ao VIH, antes de ele se instalar confortavelmente e para sempre em reservatórios no organismo da pessoa infectada. Morgane Bomsel e o seu grupo estão a tentar encontrar formas de limpar o reservatório, mas a cientista reforça que era importante agir ainda mais cedo sobre a infecção para evitar a formação desse reservatório. “É por isso que uma vacina activa na mucosa é o que precisamos. Porque não podemos esperar.”