Fotogaleria
Nelson Garrido
Fotogaleria
Emídio Carreiro é co-autor de dois outros livros de fotografia Nelson Garrido
Fotogaleria
Filipe Granja é licenciado em Design de Comunicação e mestre em Design de Imagem Nelson Garrido
Fotogaleria
Bella Phame assina uma das obras do Mural da Rua da Restauração Nelson Garrido

O que têm em comum um pediatra e um “writer”? Os murais do Porto

“Street Art & Graffiti”, de Emídio Carreiro, é uma visita guiada pelas paredes do Porto e de Matosinhos, verdadeiras galerias de arte de rua. Ao autor, juntaram-se “writers” como GodMess e mynameisnotSEM, para quem a validação das autarquias é fundamental para "desmistificar" esta expressão artística

Preservar e valorizar a arte urbana do Porto levou Emídio Carreiro, médico pediatra, a publicar aquele que é o primeiro livro inteiramente dedicado à arte urbana daquela cidade e também de Matosinhos. Street Art & Graffiti reúne 31 testemunhos e trabalhos de 45 artistas como mynameisnotSEM, GodMess, Costah, Mesk e Mariana PTKS. A recolha começou em 2017, quando Emídio Carreiro estava a braços com o livro Conheça o Nosso Porto e se deu conta que, de passeio em passeio, os graffities e stickers nos muros e paredes iam mudando ou desaparecendo. Numa tentativa de imortalizar as múltiplas expressões artísticas com que se deparava, começou a registar as obras antes que estas fossem removidas.

O interesse foi tanto que decidiu participar em workshops relacionados com o graffiti e contactar os artistas em espaços como o BECUH e o festival Desenlata. A improvável combinação da pediatria, fotografia e arte de rua saltou imediatamente à vista. O autor confessa que os artistas mostraram desde logo muito entusiasmo, mas também muita curiosidade quando perceberam que vinha de uma área que "não tem nada a ver nem com street art nem com fotografia".

Um desses artistas foi Filipe Granja – mynameisnotSEM, nas paredes –, que assina o prefácio do livro agora publicado e "KaleidoPorto", uma das criações que de momento decora o mural da Rua da Restauração. MynameisnotSEM e GodMess são, para Emídio Carreiro, "a âncora deste projecto", na medida em que tiveram um papel fundamental no contacto com outros artistas e na descoberta desta realidade.

PÚBLICO -
Foto
Filipe Granja é licenciado em Design de Comunicação e mestre em Design de Imagem Nelson Garrido

O livro, editado pela Fronteira do Caos, "não pretende ser um guia, mas permite guiar as pessoas" através de 16 mapas da arte urbana do Porto e de Matosinhos Ao longo de 200 páginas, os leitores são convidados a ler o que têm a dizer 31 writers e observar mais de 200 obras de 45 artistas. "Pensei que só com fotografias ia ficar um trabalho pobre e então propus aos artistas que me dessem algum testemunho sobre a street art e o graffiti", relata Emídio Carreira, de 62 anos. Para os mais leigos, Street Art & Graffiti inclui um glossário simples de alguns termos usados.

PÚBLICO -
Foto
Bella Phame assina uma das obras do Mural da Rua da Restauração Nelson Garrido

Para já, o autor tem sinalizados 12 outros artistas cujo trabalho também merece atenção e que vão entrar num segundo volume, desta vez dedicado a Vila Nova de Gaia, Gondomar e Maia, e que deverá ser editado em 2019. Emídio Carreiro e Filipe Granja estão ainda a preparar uma exposição para Fevereiro de 2019.

PÚBLICO -
Foto
Emídio Carreiro é co-autor de dois outros livros de fotografia Nelson Garrido

“Não faltam muros para colorir” no Porto

Em 2014, a Porto Lazer lançou o Programa Municipal de Arte Urbana do Porto com o Mural Colectivo da Restauração. Primeiro de seis em seis meses, agora de ano a ano, os artistas são convidados a ocupar 14 módulos de sustentação dos Jardins do Palácio de Cristal, estendidos ao longo de 70 metros da Rua da Restauração.

Filipe Granja, contudo, queixa-se da desarticulação entre o município do Porto e os locais que a própria cidade oferece. "Não faltam muros para colorir, mas este é o único espaço que nos cedem a título pontual. De resto, a Câmara do Porto não tem qualquer espaço para a prática de graffiti", lamenta. Segundo MynameisnotSEM, há mais de três anos que os artistas pedem apoio ao pelouro da Cultura e à Porto Lazer. Mas, desde a morte do antigo vereador da Cultura, Paulo Cunha Silva, a arte urbana da cidade foi "quase abandonada".

O writer de 28 anos acredita que a falta de investimento público e a dificuldade de interpretação contribui para que este género de expressão artística ainda seja visto como vandalismo. Filipe Granja reconhece que "a validação de uma instituição como a Câmara ajudaria a desmistificar" e aponta Lisboa como um bom exemplo da aposta na arte urbana. "Desde 2010 que em Lisboa se investe aos poucos, e tanto as pessoas como as empresas começam a perceber que isto é consumível e que podem adaptá-lo às suas casas, estabelecimentos, spots publicitários", explica o artista.

Emídio Carreiro é uma dessas pessoas e tem em casa vários trabalhos dos artistas que conheceu ao longo desta incursão pelo mundo da arte urbana - nomeadamente um mural na sala da autoria de MynameisnotSEM. "Os meus 'Mirós' e os meus 'Picassos' são artistas de street art", afirma o autor. O médico concorda que os murais permitidos e encomendados pela autarquia fazem com que as pessoas comecem a olhar para o graffiti com outros olhos.

Para o autor, "não é a varrer para debaixo do tapete" que se impede a arte de sair à rua. E muros como o da Restauração têm potencial para se tornarem focos de turismo "como acontece noutros países". "O que tem sido feito não chega para criar rebuliço e para que as pessoas sintam que a street art existe."