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João André criou o blogue Dar aulas em Inglaterra

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Deixem-nos morrer em paz

Quatro projectos sobre a morte medicamente assistida serão debatidos na AR no final do mês. Para que a morte seja medicamente assistida, primeiro é preciso ter os médicos do nosso lado

Não pedimos mais. Deixem-nos morrer em paz, sem medo de que o outro, o que nos assiste, por amor, dedicação, profissionalismo, acabe nos tribunais e na prisão, pois assim é viver, assim é morrer, tudo o que começa um dia acaba, e se nos deixam decidir como tudo começa, por favor deixem-nos decidir como tudo acaba.

O medo da eutanásia, o medo da morte, o medo de matar, o medo de deixar morrer, de deixar partir, não é senão o medo do castigo divino, um dos sete pecados mortais, não matarás e, no entanto, matamos e, no entanto, olhem para o céu, nada acontece, quando muito chove, de tristeza, quem sabe, mas pouco mais, nada mais.

Se tivermos um animal doente, por quem temos amor, este amor, levamo-lo ao veterinário nos braços, o nosso cão, a nossa companhia dos últimos 21 anos, já cego, pouco mais que paralítico, esfomeado, incapaz de comer e, ao mesmo tempo, incapaz de morrer, porque é tão difícil morrer, e um corpo não morre assim, mas o sofrimento está lá. E por se tratar de um animal todos temos pena, coitadinho do bicho, coitadinho do cão, vinha sempre aqui ao café, e ninguém julga, víamo-lo todos os dias na praia, e ninguém condena e todos concordam com a dignidade de uma despedida sem morte, sem dor, um sono profundo e um corpo que nunca mais acorda. Sozinho, tinha-lhe tanto amor, custou-me tanto dizer-lhe adeus, não tive coragem de o levar para casa e dizer adeus outra vez.

Nunca mais o vi.

Esquecemo-nos dos direitos das pessoas, recusando-lhes, recusando-nos, o que há muito está garantido a qualquer animal: o direito a uma morte assistida livre de quaisquer consequências legais e penais.

Porque os médicos juram, e juraram, na hipocrisia de Hipócrates, garantir a integridade da vida, a todo o custo, a qualquer preço, e, portanto, se calhar o melhor é deixarem de jurar, pelo menos deixar de jurar este juramento, ao invés dedicando as suas vidas à própria vida, acompanhando-nos do nascimento à morte tendo como único fito a dignidade do paciente, sem juízos, sem julgamentos, cuidando para além de tratar.

E se calhar o problema é esse, esta negação da morte por parte dos médicos, como se a morte fosse um problema irresolúvel, e é, sempre à procura de uma solução, sempre a dizer que não, e no processo esquecendo-se das pessoas, esquecendo-se de nós, sem cuidados, sem uma mão que possamos agarrar, sem uma mão para abraçar até ao fim: um dia chegará a tua vez.

Quatro projectos sobre a morte medicamente assistida serão debatidos na Assembleia da República no final de Maio. Para que a morte seja medicamente assistida, primeiro é preciso ter os médicos do nosso lado.

Nesse dia, meus caros, quando esse dia chegar e o sol nascer, pela última vez, dourado, glorioso, que espectáculo, para nos vir buscar, o dia estende-nos a mão e nós também, nesse dia podemos morrer em paz.