Opinião

Mais novos vs. mais velhos: faz algum sentido?

Acima de tudo, o que importa perceber é que o conflito entre gerações não ajudará a resolver os problemas de fundo da economia europeia e portuguesa.

Ninguém poderia imaginar que um dos estudos mais importantes em Psicologia Social não envolve pessoas mas sim quadros de arte moderna. Nesta investigação clássica, realizada em 1970, pessoas que não se conheciam participaram num estudo no laboratório de Psicologia e quando chegavam era distribuídas de forma aleatória por dois grupos: o dos quadros do pintor Kadinsky e o dos quadros do pintor Klint. Nenhuma das pessoas era especialmente admiradora de nenhum dos pintores antes da experiência. Os resultados desta investigação foram muito surpreendentes e tiveram um grande impacto no estudo das relações entre os grupos. Este estudo mostrou, pela primeira vez, que bastava dividir as pessoas, colocar-lhes um nome de um grupo arbitrário e estas passavam a comportar-se como se fossem mesmo de grupos diferentes com tudo o que isso implica. Os comportamentos modificaram-se e o padrão mais relevante foi o de que as pessoas preferiram distribuir sempre mais recursos para o seu do que para o outro grupo, mesmo quando isso implicava que ganhassem objectivamente menos. Esta experiência foi replicada inúmeras vezes o que revela a robustez deste efeito.

A boa notícia neste tipo de estudos é a de que os conflitos normalmente podem ser resolvidos e a solução nem sempre é assim tão difícil: muitas vezes basta criar um objectivo comum aos dois grupos. Por exemplo, um outro estudo clássico mostrou como foi possível diminuir o conflito entre dois grupos de crianças após estas terem participado numa tarefa de salvamento de um camião atolado na lama. O esforço realizado através da ajuda mútua foi crucial para a construção dos laços de solidariedade entre as crianças dos diferentes grupos.  

Estas investigações são fulcrais porque mostram que não é difícil criar uma situação de conflito e que, por essa razão, é muito importante conhecer com profundidade os contextos sobre os quais debatemos.

A situação de envelhecimento demográfico a que assistimos em muitos países do mundo e, em particular em Portugal, exige reflexões profundas sobre as questões de justiça e de solidariedade entre as pessoas das diferentes gerações. Infelizmente, a tese que tem ganho mais destaque em alguns meios de comunicação social é a da ameaça do conflito entre gerações. Sobretudo em sistemas de redistribuição ou, em inglês, “pay-as-you-go”, as gerações mais jovens descontam agora para que sejam pagas, neste momento, as pensões das pessoas mais velhas. Este tipo de sistema assenta na ideia de que existe um contrato intergeracional e que, no futuro, os jovens que pagam agora serão os beneficiários. No entanto, pode pensar-se que este contrato será colocado em causa porque o número de pessoas idosas no futuro virá a ser muito superior ao número de jovens no activo. É esta situação que causa ansiedade e preocupação nas nossas sociedades e que pode estar na base da ideia de que irá haver inevitavelmente um choque e conflito entre gerações. A este respeito, um relatório do Pew Research Center em 2013 mostrava um elevado grau de preocupação face à ameaça do envelhecimento demográfico. Os países onde as pessoas estão mais preocupadas são o Japão, a Coreia, a Alemanha e a Espanha. Infelizmente Portugal não foi incluído neste estudo mas poderemos esperar valores semelhantes de ameaça percebida aos espanhóis.  

Tal como muitos estudos mostram, também nisto as pessoas não são irracionais quando pensam deste modo. De facto, as gerações mais jovens têm sido particularmente fustigadas em alguns países. Uma reportagem no website da CNN falava numa geração de jovens europeus de algum modo sacrificada: jovens, educados e desempregados. Com taxas de desemprego na eurozona que variam entre os 19% e os 25% nos últimos anos, muitos jovens em vários países europeus têm tido muita dificuldade em concretizar as suas aspirações. Portugal, como já é sobejamente conhecido, não foge a este destino. Apesar de ter vindo a diminuir, os dados indicam uma taxa de desemprego jovem no terceiro trimestre de 2017 de 24,7% o que é ainda um valor muito elevado e ainda preocupante. 

Os dados do European Social Survey realizado em 2008/2009 mostram que 35% das pessoas idosas acima dos 65 anos e 40,9% das pessoas jovens entre os 15 e os 24 anos dizem sentirem-se discriminadas justamente por serem “idosos” e “jovens”. Possivelmente por razões distintas estes dois grupos etários percebem que têm sido negligenciados nas nossas sociedades. 

No entanto, acima de tudo, o que importa perceber é que o conflito entre gerações não ajudará a resolver os problemas de fundo da economia europeia e portuguesa e, para além disso, nem parece ser natural. As relações entre gerações têm contornos que são distintos das outras relações entre grupos. Elas assentam em relações entre grupos sociais (a um nível mais macro), mas também ao nível familiar (a um nível mais micro). A análise destas ligações ao nível da família é fundamental para a compreensão da dinâmica entre as gerações e infelizmente não tem sido suficientemente destacada. Por exemplo, o estudo europeu “A prestação de cuidados pelos avós na Europa” de 2013 mostrava que Portugal é considerado um dos países em que os avós mais cuidam dos netos. Segundo o estudo, mais de 40% dos avós dos países europeus analisados prestam cuidados aos netos sem a presença dos pais, sendo que os países do sul da Europa – Portugal, Espanha e Itália– são os que apresentam uma maior percentagem de avós a cuidar dos netos a tempo inteiro. Estes laços filiais são fundamentais e estão na base da estrutura das nossas sociedades.  

É muito importante realçar que não existem evidências reais da existência de um discurso de ódio entre gerações. Pelo contrário, e repetindo as palavras proferidas recentemente numa reunião da House of Commons no parlamento inglês: “as gerações mais velhas reconhecem as pressões sentidas pelas gerações mais novas. Estão preocupados pelas perspectivas dos seus filhos e netos e providenciam o suporte que podem neste momento. Do mesmo modo, as pessoas mais jovens preocupam-se com o bem-estar dos seus pais e avós e querem garantir uma reforma decente no futuro...as recomendações vão no sentido de fortalecer o contrato entre as gerações central nas nossas sociedades”. Do mesmo modo, um estudo liderado pelo economista Jorge Miguel Bravo, com uma amostra representativa portuguesa, mostrava que a ideia de reciprocidade entre gerações está bem enraizada no nosso país.  

Em suma, ao contrário do que acontece noutras áreas, como na ambiental, onde gostávamos de diminuir o “aquecimento global”, quando pensamos nas nossas sociedades precisávamos era do oposto e que se apostasse na ideia de um “aquecimento social”: uma aposta nas pessoas e na solidariedade entre as gerações de modo a promover uma sociedade verdadeiramente justa para todas as idades.

CIDADANIA SOCIAL - Associação para a Intervenção e Reflexão de Políticas Sociais - www.cidadaniasocial.pt