Crónica

Dualidade de critérios — quando o futebol nos esmaga

Os clubes são importantes para a economia do país e desempenham uma função social importante. No entanto, não devem merecer tratamento diferenciado.

Declaração de interesses: gosto muito de futebol (aquele que se joga dentro do campo), mas não sou um fã incondicional, daqueles que tudo perdoam ao desporto-rei ou às suas figuras, sejam elas dirigentes, jogadores ou adeptos.

O futebol é hoje muito mais do que uma simples modalidade. É um negócio, com tudo o que de bom e de mau rodeia os grandes negócios, mas aqui o que me interessa mais é falar da diferença de tratamento dado (pelas autoridades e não só) ao comum cidadão e às gentes do futebol. Alguns exemplos verídicos, uns que presenciei, outros que me foram contados.

Um cidadão comum vai almoçar fora no seu automóvel e, depois de muito procurar, estaciona o carro num lugar com parquímetros. Usa a aplicação da empresa municipal de estacionamento para pagar a conta e vai tranquilamente à sua vida. Quando regressa ao automóvel, hora e meia depois, espera-o uma coima, atenciosamente colocada num envelope no pára-brisas. Afinal, o lugar onde estacionou era reservado a moradores daquela zona. Distracção do condutor ou errada colocação do sinal? Não interessa. Prevaricou, pagou. Não vale de nada telefonar a dizer que pagou o parquímetro.

Um adepto de futebol vai ao estádio ver um jogo da sua equipa. Depois de muito procurar, e à falta de lugares livres, estaciona em cima do passeio, em frente às escadas de acesso a um prédio e a bloquear duas garagens desse mesmo edifício. Indignado com aquele carro estacionado naquele sítio, e com outros estacionados em cima da relva do jardim e nos vários passeios da rua, um morador daquele prédio chama a polícia. Primeiro, vem um carro com dois agentes, mais tarde o reboque da polícia municipal. Mas só rebocam o carro se houver um denunciante. O morador queixoso diz sim, senhor: “Faço a queixa.” Eis que o agente da polícia responde que se rebocar aquele carro vai ter de multar vários outros que estão na rua, incluindo de moradores, porque tecnicamente estão mal estacionados. Esses veículos tecnicamente mal estacionados, numa praceta sem saída, não estavam em cima do passeio, nem a tapar garagens, nem cima da relva. Estavam somente estacionados em paralelo ao passeio, como há décadas se faz no local, sem incomodar ninguém. Mas para aquele agente tanto faz um carro em cima da relva, do passeio, a tapar garagens como aqueles outros veículos que nada nem ninguém incomodam. O queixoso, claro, não quer ver os justos a pagarem pelo pecador e desiste da queixa. Três horas depois, o dono do automóvel regressa e volta tranquilamente para casa. Zero euros de multa.

Um cidadão comum insulta outra pessoa, atira pedras ou parte uma montra. O que acontece? É detido, julgado e obrigado a pagar os estragos.

Certos adeptos de futebol, especialmente uns quantos com tratamento especial ao abrigo do eufemismo “membros da claque”, insultam pessoas e destroem bens. O que acontece? Nada. Continuam a ter direito à tontice-mor de serem conduzidos aos estádios dos adversários, com escolta adversária, como se fossem para uma batalha.

Os exemplos que dei são muito concretos e comezinhos. Mas significam algo. São um retrato da mesma diferença de tratamento que vemos quando os bancos perdoam dívidas aos clubes mas hipotecam a casa ao desempregado que não pode pagar.

Os clubes são importantes para a economia do país e desempenham uma função social importante. No entanto, não devem merecer tratamento diferenciado. Podem e devem ter apoios transparentes e, acima de tudo, dependentes de darem bons exemplos à sociedade. Os apelos à violência, a boçalidade, a falta de fair play deviam ser impeditivos de terem qualquer ajuda do Estado. Assim talvez o ar do nosso desporto ficasse um pouco menos poluído.