Crítica

Coimbra menina e moça também à mesa

Pequeno e despojado de aspecto, mas requintado naquilo que é a sua essência. Com restaurantes como o Sete se renova e alegra a Baixa.

Café
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Restaurante, Banquete
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Nelson Garrido

“Igreja de Santa cruz / feita de pedra morena / dentro de ti vão chorar / dois olhos que me dão pena.” A quadra, de um dos mais conhecidos fados dos estudantes, permanece eterna, mas Coimbra está mudada e, hoje, à volta da Igreja de Santa Cruz a velha cidade está remoçada, enche-se de alegria e ganha vida nova por todos os poros.

A rima melancólica e fatalista do fado coimbrão já só faz sentido como cartaz turístico, que a azáfama de visitantes, o fervilhar de gente e actividade, fazem com que a Baixa da cidade se insinue de novo como atraente menina e moça, depois de um longo período de letargia e quase abandono.

Uma renovação e refrescamento que se vê também na gastronomia e restauração. E, mesmo que não seja ainda o mundo das sete maravilhas, há já pelo menos um Sete de bom prenúncio.

Ora, é precisamente na lateral do histórico café e da velha igreja e Santa Cruz — onde repousam os túmulos de D. Afonso Henriques e D. Sancho I, os dois primeiros reis de Portugal — que está esse Sete, um restaurante pequeno e despojado de aspecto, mas requintado naquilo que é a sua essência: cozinha competente e rigorosa, produtos de qualidade, serviço amigo e competente.

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Nelson Garrido

Número da perfeição para Pitágoras, sete são também os pecados capitais e as maravilhas do mundo, mas presume-se que sem quaisquer influências à mesa. E, mesmo que em nada possa ajudar, no caso deste ainda recente restaurante de Coimbra — pouco mais de um ano de porta aberta — o número dá o tom na apresentação da lista. Não que esteja fechada a sete chaves — muda por temporada ou novos produtos — mas é em torno dele que se organiza: “Sete inícios possíveis”; “Sete maneiras de continuar”; “Sete sugestões vegetarianas”; e “Sete tentações” para sobremesa com “Sete propostas de vinhos para harmonização”.

Septetos que na semana em por lá passámos eram acrescidos com uma ementa especial da “Semana do Bacalhau/Gadus morhua”, pelos vistos aderindo a uma iniciativa dos comerciantes da Baixa de Coimbra e da empresa Lugrade, na sua sexta edição. 

E é mesmo preciso entrar e perceber o contexto para se ver que este Sete representa um conceito novo e diferenciador. A sala acanhada, o ar modesto e mesas com individuais em papel pardo estão longe de denunciar o ambiente gastronómico, a cozinha cuidada e competente, o serviço sabedor e acolhedor.

Fundada na cozinha tradicional e produtos regionais, a receita do Sete sai enriquecida com técnica e conhecimento contemporâneos, alguma criatividade e cuidado na apresentação, oferta de vinhos adequada e serviço a condizer. Tudo simples, informal e funcional.

Receitas nalguns casos já quase esquecidas, como o arroz de sardinhas ou as ervilhas com chouriço e ovo escalfado. Outrora receitas de gente pobre, hoje ricas preciosidades do nosso património gastronómico.

Entre os “inícios possíveis”, começou-se pela “salada de sete sabores com uvas, frutos secos e gelatina de moscatel” (7,80€), com a frescura e aroma da gelatina a funcionar como elemento agregador da diversidade de sabores e texturas, onde se junta queijo, nozes, presunto salgado e verduras.

Seguiu-se a “salada de bacalhau com molho de azeitonas” (6,90€), uma versão contemporânea da punheta/carpaccio do dito, impecável e bem apresentada. Tiras de bacalhau esfiado e a saber à peça, azeite, cebola, alfaces frescas e pasta de azeitona. Muito bem!

Para fim dos inícios, o “ovo escalfado, ervilhas e chouriço de Arganil” (6,50), num estufadinho com tomate de sabor e texturas em perfeita afinação.

Nas “sete maneiras de continuar” chama logo a atenção o arroz de sardinhas, uma proposta que remete para a tradição das comunidades piscatórias e hoje infelizmente já rara. A versão é, mais uma vez, contemporânea, mas de resultado saboroso e convincente. Confeccionado como um risotto, o arroz arbóreo envolve-se com pimento vermelho e pedaços de lombo de sardinha com aroma e sabor fumado. Acompanha com lombos de sardinha (de conserva), cuja crocância é dada pela massa filo em que são envolvidos com um molho de tomate picante.

Um interessante e saboroso exercício, mas a pergunta era óbvia: e se fosse com um arroz carolino do Mondego e um belo polme com os lombos de sardinha? Claro que sim, mas desde que o cheiro a fritos não acabe por inundar a sala. E como quando quem não tem cão e mesmo assim tem que caçar, já todos sabem qual é a solução. Mesmo assim, uma boa ideia e um prato que vale mesmo a pena provar.

O que já não poderá saborear é o “bacalhau confitado ao alho, puré de aipo com amêijoas e legumes de Primavera” (15,80€), que fazia parte das propostas da “semana do bacalhau” mas que bem merece entrar na carta em permanência. Posta de lombo alta, de textura firme e macia e a desmontar-se em lascas gelatinosas. Chegou à mesa numa cama de puré de batata-doce com amêijoas e acompanhado por brócolos, cenoura, cebola, tomate e salicórnia. Que volte depressa, que a clientela há-de aprovar.

Aprovada — e com distinção — foi a “vazia de novilho, batata Agria recheada com queijo Rabaçal” (15,80€). Naco saboroso e suculento, a mostrar o ponto correcto de calor, gordura amarela e saborosa. A par da batata recheada com queijo, curgete, cebola e pimento salteados.

Não é fácil resistir entre as “sete tentações” propostas, mas há que distinguir a versão caseira do “pudim abade com molho de laranja e amêndoas salgadas” (5,50), que parece divergir da célebre versão do clérigo de Priscos porque é cozido em azeite. É mesmo pecado, mas divinal!

São, como é bom de ver, bem mais de sete as virtudes deste pequeno restaurante que também faz com que Coimbra volte aos tempos apetitosos de menina e moça. Mesmo que o espaço não seja o mais atraente e convidativo, a cozinha de perfil contemporâneo, a escolha e valorização de produtos regionais e o serviço esclarecido bem justificam a visita à remoçada Baixa de Coimbra.