Dance, (La) Horde
LAURENT PHILIPPE

Da Internet para o teatro, estes corpos frenéticos têm algo a dizer

Em To Da Bone, bailarinos autodidactas mostram aquilo que os une online e offline: o jumpstyle. Em palco, forma-se uma comunidade – e isso pode ter tanto de transformador como de assustador, dizem os (La) Horde, que chegam ao Rivoli este sábado para a recta final do Festival DDD – Dias da Dança.

Marine Brutti, Jonathan Debrouwer e Arthur Harel tiveram de passar muito tempo, demasiado tempo, na Internet para poderem reunir em palco o grupo de performers que vamos ver este sábado no Teatro Municipal Rivoli, no Porto, vestidos de bomber jackets com a frase “100% Hardcore”, a condizer com uma das músicas do espectáculo, Hardcore to the bone. Isto podia ser uma rave nos subúrbios da Holanda ou da Bélgica, onde nos anos 2000 surgiu o jumpstyle, um estilo de dança associado a um género de música electrónica derivado do gabber e do tecno-trance que se foi expandido pela Europa (e além dela), muito por causa de bailarinos autodidactas que se filmavam nos seus quartos a dançar, partilhando depois os vídeos na Internet com uma comunidade em crescendo.

São alguns dos representantes dessa comunidade que Marine, Jonathan e Arthur, do colectivo transdisciplinar francês (La) Horde, põem em palco em To Da Bone, espectáculo em estreia nacional no fim-de-semana de encerramento da terceira edição do Festival DDD – Dias da Dança. Foi por “passarem demasiado tempo na Internet” que os (La) Horde deram de caras com o jumpstyle, contam ao Ípsilon. “Quando trabalhas enquanto colectivo tens de partilhar referências. Lês os mesmos livros, vês os mesmos filmes, vês os mesmos espectáculos e, como existe a Internet, partilhas vídeos de que gostas ou não, de que queres falar sobre. Nessas pesquisas descobrimos o jumpstyle e começámos a pensar sobre como poderíamos pegar nisto.”

Até chegarem a To Da Bone houve “um processo longo”, com vários patamares. Começaram por criar Avant Les Gens Mouraient, uma peça em torno de danças hardstyle, incluindo o jumpstyle, com alunos finalistas da Escola de Dança Contemporânea de Montréal. No final, sentiram que não era bem aquilo que queriam realmente fazer. “Percebemos que precisávamos de conhecer a comunidade, os bailarinos que praticam mesmo estas danças há vários anos, que estão dentro desta cultura”, contam os (La) Horde, que têm no trabalho com danças não-canónicas ou na mistura de linguagens um interesse assumido (em 2016 fizeram uma performance-desfile de moda com o designer suíço Julian Zigerli protagonizada por jumpers, intérpretes de breakdancing e de ballet clássico e técnicos de cinema).

Regressados a Paris, passaram horas e horas no YouTube e no Facebook a tentar entrar em contacto com bailarinos franceses de jumpstyle – e foi quando finalmente conseguiram ter uma conversa via Skype com um deles, deitado na cama, ar desconfiado, a dizer que não tinha grandes ambições em entrar numa peça, que os (La) Horde perceberam que toda esta história ia ser muito diferente de tudo o que já tinham feito. Apesar das dificuldades, e graças a algumas operações de charme, lá conseguiram reunir um grupo para criar o projecto que pode ser considerado o prólogo de To Da Bone: Novaciéries, um cruzamento entre performance, cinema, instalação e vídeo caseiro que estará também no DDD, sábado à tarde, na Praça D. João I. O passo seguinte foi apresentar uma performance de dez minutos na competição Danse Élargie de 2017, no Théâtre de la Ville, em Paris, que viria a ser um dos co-produtores de To Da Bone (assim como o Teatro Municipal do Porto, entre muitas outras instituições). Ficaram em segundo lugar, naquela que foi para os intérpretes a “primeira vez a dançar num teatro”, conta um dos bailarinos no documentário que acompanha o processo de criação de To Da Bone. Então, também pela primeira vez, “perceberam que era possível o jumpstyle funcionar num palco”.

Ambivalências e mixed feelings

E assim começou To Da Bone. Com a ajuda dos bailarinos franceses, os (La) Horde recrutaram para o espectáculo praticantes de jumpstyle da Polónia, de Itália, da Hungria, da Ucrânia, do Canadá e da Alemanha (mais uma vez, tiveram de passar horas e horas a pesquisar na Internet). “Como nesse período se estava a discutir o Brexit, a crise da Europa e a ascensão da extrema-direita, quisemos fazer uma peça sobre como podes criar uma comunidade e sobre como isso pode ser uma coisa boa e má”, introduz o colectivo. “Pode ser revolucionário estarmos juntos na procura de algo importante, por exemplo na luta pelos direitos humanos, mas [os fenómenos colectivos] também podem ser tóxicos, como os grupos neo-fascistas ou o ódio contra pessoas LGBTI.” Essa “ambivalência”, esses “mixed feelings”, estão nas entrelinhas de To Da Bone: nesta coreografia frenética, velocista, arfante, onde entram outras danças hardstyle como o tekstyle e o hakken, tanto há momentos extáticos de uma adrenalina galvanizante como momentos intimidatórios e tensos, quase militarizados, de um hedonismo negro.

“Achamos que essa ambivalência do que pode ser um colectivo está também presente no próprio jumpstyle. É muito eufórico, enérgico, jovial, mas depois perguntas-te porque é que só estás a ver homens brancos cisgénero [quando a identidade de género de uma pessoa coincide com o sexo e o género que lhe foram atribuídos à nascença]”, observam Marine, Jonathan e Arthur, que para este espectáculo só conseguiram “encontrar uma rapariga”, a canadiana Camille Dubé Bouchard. “Eles explicaram-nos que o jumpstyle não existe só na Europa, mas também nos EUA, no México, nas Filipinas e noutras partes do mundo onde há mais população negra e latina. Também é dançado por corpos não-brancos e corpos trans. Quanto às raparigas, disseram-nos que há 15 anos havia ainda menos, que está a melhorar. Perceberam que isto pode ser apreendido como uma cultura muito masculina e branca, mas não concordam com isso. Eles têm contacto com outros bailarinos da Ásia, da América, de vários sítios.”

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O colectivo (La) Horde recrutou praticantes de jumpstyle vindos de França, da Polónia, de Itália, da Hungria, da Ucrânia, do Canadá e da Alemanha — que pela primeira vez dançaram num teatro LAURENT PHILIPPE

Metade da resposta à pergunta que incomodava os (La) Horde veio dos bailarinos, a outra metade veio deles próprios. “Dizendo isto de uma forma um pouco tosca, talvez a Europa tenha um problema em misturar pessoas, talvez haja aqui pouca diversidade”, considera o colectivo. O que eles levam a palco em To Da Bone “pode ser problemático” e é também essa reflexão, essa inquietação, que querem provocar nos espectadores. “Quando se vê ballet ou dança contemporânea muitas vezes não se questiona o facto de haver só pessoas brancas em palco, mas na nossa peça o público estava a reagir a isso por não serem bailarinos ditos profissionais, vindos das academias. É importante perceber que isto é um problema sempre”, assinalam os (La) Horde, acrescentando ainda que a “parte mais complicada” foi dirigir o espectáculo de forma a tentar instigar este debate nos públicos.

Para os bailarinos, talvez isso seja menos complicado do que parece – como diz um deles no documentário sobre o projecto, “o que as pessoas vão ver não é só jumpstyle, a dança pode transmitir mil e uma coisas”. Uma delas, acreditam os (La) Horde, é a ligação entre as comunidades de jumpstyle que se desenvolve online e o papel que as redes sociais podem ter na mobilização de movimentos de contestação e do activismo político. “Estamos a pensar, por exemplo, no caso da Primavera Árabe, em que a certa altura a Internet quase substituiu os protestos nas ruas e permitiu mostrar ao mundo o que se estava a passar. No jumpstyle é um processo parecido, mas com a dança”, examina o colectivo. “As pessoas criaram esta dança online e estenderam-na ao offline. Isto não é uma dança urbana: não aprendes nas ruas ou em espaços específicos, com amigos; é algo que descobres sozinho no teu quarto, em freestyle, e só depois encontras a tua comunidade.”

Esta “força do autodidactismo” é algo que os (La) Horde consideram valioso – e uma forma de pôr no teatro corpos menos formatados segundo padrões clássicos ou académicos, “re-investigando novas formas de representar corpos em palco”. “Quisemos fazer esta peça com os bailarinos desta cultura, não-profissionais, porque para nós ser artista é em grande parte conectarmo-nos com as várias inspirações e identidades que andam por aí”, afirmam Marine, Jonathan e Arthur. No caso de To Da Bone, isso implicou ter de lidar com os horários working class dos performers, vê-los a “questionarem constantemente” as hierarquias entre intérprete e criador no processo de concepção da coreografia (“o que acontece pouco com outros bailarinos”, referem), e respeitar o que eles têm no corpo. “Queríamos ter a comunidade a defender o que faz e a expressar-se em palco. Não queríamos entrar na lógica da apropriação cultural”, sublinham os (La) Horde. “Nós só trabalhámos com o que eles já tinham. Desenvolvemos coisas novas, demos novas ferramentas, mas a partir do que eles já sabiam.”

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Todo este modus operandi está em consonância com a postura dos (La) Horde: ficar no backstage, dar o protagonismo a outros. “É difícil conseguir chegar a um lugar em que as pessoas ouçam o que tens a dizer. Se tens essa oportunidade e só a usas a teu favor estás a cometer o mesmo erro que as pessoas que estão no poder”, declaram Marine, Jonathan e Arthur. Para eles, interessa partilhar – e isso significa ser mais livre. “Não conectamos o nosso trabalho às nossas pessoas, queremos um pensamento comum. É uma forma de estar mais impulsionada pela nossa geração. E quanto mais partilhas, mais podes progredir.”