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O historiador e comentador do Festival Eurovisão da Canção, Dean Vuletic MIGUEL MANSO

“As canções de Portugal na Eurovisão foram as mais políticas até hoje”

Dean Vuletic ainda era pequeno quando começou a assistir à Eurovisão, na Austrália. Acabou por juntar o interesse pelo festival com os conhecimentos sobre História Europeia que foi adquirindo ao longo de anos de estudo. Agora trabalha na Áustria, onde é conhecido como o “professor Festival da Canção”.

O historiador australiano Dean Vuletic não tem dúvidas: o festival da Eurovisão é político, sim, e não há nada de errado nisso, a música deve servir para pensar. Vuletic foi pioneiro a tratar o tema nas universidades e o primeiro a escrever um livro sobre a perspectiva histórica e política do festival (Postwar Europe and the Eurovision Song Contest, no original, algo como A Europa Pós-Guerra e o Festival Eurovisão da Canção), lançado este ano.

O seu currículo é longo: já estudou em Jerusalém, em Yale, em Camberra, e na Universidade de Columbia. Acabou por seguir o ramo do ensino — foi o primeiro a dar aulas sobre a história da Eurovisão — e da investigação académica. Começou por se interessar pela Eurovisão na “isolada cidade de Perth”, na Austrália, onde nasceu e onde cresceu com uma comunidade muito diversa: havia imigrantes portugueses, italianos, gregos e também croatas (como a sua família).

Depois de analisar todas as edições da Eurovisão e de estudar a forma como a política europeia permeia o festival e se reflecte no concurso, admite que Portugal é o que mais mensagens políticas levou para os palcos até hoje e é também um dos países que mais lutou para ter canções na sua própria língua. Este ano também há canções com mensagens sobre os refugiados, sobre a guerra e sobre a paz. Mas o facto de não haver polémica política acaba por ser um reflexo da "reputação internacional positiva" de Portugal, considera Vuletic. 

Sendo este um dos festivais mais duradouros, revela ligações interessantes entre os países, fazendo com que esta seja também “a maior eleição europeia”. A Eurovisão, diz o historiador de 40 anos, acaba por ser um palco onde se pode mostrar uma imagem diferente do país ao mundo e já foi utilizado para isso, por ditadores e drag queens. Para o australiano, os países mais pequenos não devem ser deixados à margem, seja por questões de financiamento ou de reconhecimento. Portugal é um “excelente exemplo” disso.

Comecemos por falar das ligações entre os países. Com base nas votações, há países que mostram uma clara afinidade ou conflito entre si. Estas ligações existem mesmo?
Claro que sim. E é normal que existam. Se olharmos para uma zona como a antiga Jugoslávia, estes são países que tiveram um Estado comum, que vivem o crescimento de uma indústria musical partilhada, as línguas são parecidas, portanto não é de estranhar que os seus cidadãos votem em artistas que já conheçam. Mas as alterações introduzidas em 2009 [com um júri especializado a juntar ao televoto] ajudaram a diminuir estas tendências de voto. O voto é mais cultural e linguístico. É mais político quando os países não votam uns nos outros.

Existem exemplos inesperados de países que não votam uns nos outros ou que votem entre si?
O exemplo clássico é o da Grécia e de Chipre, que votam um no outro. Mas na década de 1980 não tinham esta tendência porque não participavam de forma regular. A Grécia absteve-se de participar algumas vezes e Chipre só entrou em 1981. Da primeira vez que estiveram juntos no concurso, Chipre não deu muitos pontos à Grécia.

E como é que isso correu?
[risos] Não me parece que tenha corrido muito bem, porque na edição seguinte a Grécia pareceu retaliar e não deu nenhum ponto a Chipre, portanto não se via tanto essa tendência de voto. Mas é bem visível a partir da década de 1990.

Há mais exemplos?
A Arménia e o Azerbaijão são um exemplo de dois países que não votam entre si. E também a Grécia e Chipre, de um lado, e a Turquia, do outro lado, como um exemplo em que não há votos. Nestes casos, as relações de voto são bastante definidas pelas tensões políticas. Há outros exemplos interessantes: nas décadas de 1960 e 1970, há muitos países do Mediterrâneo que votam entre si, ainda que os países não tivessem relações diplomáticas. É o caso de Portugal e de Espanha, por um lado, e da Jugoslávia, porque estas ditaduras eram veementemente anticomunistas e não tinham relações diplomáticas com a Jugoslávia, mas ainda assim trocavam votos entre eles [na Eurovisão].

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E por que é que isso acontecia?
Penso que surge de uma afinidade comum quanto à música, assim como uma relação com o Mediterrâneo como ponto em comum. Também se vê esta relação com Israel e países que não tinham relações diplomáticas com Israel na altura, que incluía não só a Espanha mas também a Irlanda, acredite-se ou não. Isto é interessante porque se trata do voto do júri e não do voto público. E significa que o júri não estava sob influência política.

Portanto as votações vão além da música? O que leva, então, os países a votarem uns nos outros?
Afinidades musicais à parte, existem as questões linguísticas. Nos primeiros anos da Eurovisão, verificou-se que os países nórdicos formavam um bloco de votação, e até têm a sua própria suborganização paralela à União Europeia de Radiodifusão (UER), chamada NordVision. Depois depende das canções a concurso. E se um país tem uma boa imagem a nível internacional, pode beneficiar disso. A Suécia é um excelente exemplo. Tende a ficar bem posicionada porque a música popular sueca é tão bem-sucedida internacionalmente, mas também porque a Suécia tem uma reputação internacional muito positiva.

Existem outras razões?
A interpretação tem de ser memorável. Há tantas actuações na Eurovisão… Este é outro ano-recorde, com 43 países, a canção tem de sobressair. A do ano passado [Amar pelos dois, de Salvador Sobral] deu nas vistas. Porque não era em inglês, porque era minimalista e isto é algo de que as pessoas se lembram, assim como a parte emocional. E era uma canção muito bonita. Também pode ser por causa dos efeitos em palco, há sempre alguma coisa. A participação da ucraniana Jamala [vencedora de 2016] também foi memorável pela história que contou e pelo contexto político. A mensagem importa, ainda que nesse ano a mensagem tenha sido interpretada erroneamente, como sendo entre a Rússia e a Ucrânia. Na verdade era sobre a deportação dos tártaros da Crimeia durante a II Guerra Mundial. Quando se olha com atenção, apercebemo-nos que a mensagem era mais importante para outro contexto político contemporâneo, nomeadamente a ligação política entre os Estados europeus e o mundo muçulmano, mais do que era sobre a Rússia e a Ucrânia. E essa mensagem ficou pelo caminho, infelizmente.

O historial de votações evidencia a história da Europa...
Exacto.

Que tendências de voto encontramos com base na língua?
Se recuarmos à Guerra Fria, quando só participavam países da Europa Ocidental, mais Israel e Marrocos que participou uma vez, as tendências de voto eram sobretudo visíveis na zona francófona, altura em que tínhamos cinco Estados que falavam francês na Eurovisão: a França, a Bélgica, a Suíça, o Luxemburgo e o Mónaco. Mas o que é interessante é que, à excepção da França e do Mónaco, todos os outros três países tinham outras línguas também como sua língua oficial. Mas o francês era a língua mais falada nestes países e tinha relevo na cultura internacional. Muitas das canções vencedoras nas décadas de 1950 e 1960 eram cantadas em francês. Foi só a meio da década de 1970 que o inglês ganhou popularidade, só no final da década de 1960 é que pela primeira vez uma canção em inglês ganhou o concurso [Puppet on a string, Sandie Shaw, 1967]. 

É curioso porque hoje muitas das canções são cantadas em inglês. 
O inglês tornou-se uma língua franca a nível mundial. Fala-se tanto de diversidade na Eurovisão e na Europa, mas quando toca à diversidade linguística… Tenho de elogiar Portugal porque foi muitas vezes um dos poucos países que insistiu em ter canções na sua própria língua. Eu vi todos os concursos da Eurovisão e estudei todas as canções, mais de 500, analisei todas as biografias dos intérpretes e dos compositores para encontrar referências políticas, e foi assim que me apercebi que as canções de Portugal na Eurovisão foram as mais políticas até hoje.

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Em relação a todos os anos e comparando com toda a Europa?
Sim. Só Portugal pode reivindicar ter uma letra como a da canção de 1976, Uma flor de verde pinho, escrita por Manuel Alegre, político que viria a ser candidato presidencial. Ary dos Santos era comunista e escreveu muitas das letras portuguesas a concurso das décadas de 1960 e 1970. Eram letras muito políticas e ele foi também o primeiro artista assumidamente homossexual na Eurovisão. Portugal tem as canções em torno da Revolução dos Cravos de 1974: E depois do adeus, de Paulo de Carvalho, a ser utilizada como sinal na revolução e uma outra cantada por um capitão de Abril. Tem também muitas canções sobre o império português. As canções portuguesas têm sido despudoradamente políticas e isso é maravilhoso porque mostra o papel da música popular enquanto força sociopolítica. Isto é algo que as outras culturas europeias não entendem. O Reino Unido e a Suécia defendem que a Eurovisão não devia ser sobre política, devia ser sobre canções, porque eles têm uma grande indústria de música popular comercial para exportação, portanto vêem a Eurovisão como um sítio para produzir algo que possam depois vender. Essa não é a visão das sociedades da Europa do Sul, onde a música acaba por funcionar mais como…

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O livro de Dean Vuletic, publicado este ano DR

Expressão popular.
E produção folclórica. Não é estranho que as pessoas se juntem e cantem ou toquem uma canção. A relação com a música é diferente. É por isso que a relação com a Eurovisão tem sido diferente da parte de Portugal. Vocês trouxeram interesse para o desenvolvimento político do concurso que só agora está a ser redescoberto.

Se olharmos para os votos, durante muitos anos Portugal não teve grande reconhecimento na Eurovisão. Os outros países não entendiam a nossa mensagem?
As canções eram em português e as pessoas não entendiam as nuances da mensagem, apesar de as letras serem traduzidas. Na era pré-Internet não era fácil encontrarem-se as traduções das letras das músicas de cada um dos países. Historicamente, muitas das mensagens ficaram perdidas, infelizmente. Agora estão a ser redescobertas.