Paulo de Carvalho, Festival da Canção, Festival Eurovisão da Canção 1974
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Paulo de Carvalho, vencedor do Festival da Canção de 1974 com E depois do adeus ARQUIVO RTP
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Eduardo Nascimento vencedor do Festival da Canção de 1967 com a canção O vento mudou ARQUIVO RTP
Janela, preto m
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Fernando Tordo foi o vencedor do Festival da Canção de 1973 com a canção Tourada ARQUIVO RTP
Músico, Black M, Microfone
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Tonicha, vencedora do Festival da Canção de 1971 com a canção Menina do alto da serra, ao lado os autores da canção Ary dos Santos e Nuno Nazareth Fernandes ARQUIVO RTP
Madalena Iglésias, António Calvário, Carlos Mendes, Festival da Canção, Simone de Oliveira, Eduardo Nascimento
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Carlos Mendes, Simone de Oliveira, António Calvário, Madalena Iglesias e Eduardo Nascimento no Festival da Canção de 1969 ARQUIVO RTP
Salvador Sobral, Portugal
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Salvador Sobral venceu a Eurovisão de 2017 e trouxe o troféu pela primeira vez para Portugal Reuters/GLEB GARANICH
Cláudia Pascoal
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Cláudia Pascoal é a intérprete deste ano, com O Jardim Reuters/RAFAEL MARCHANTE

É a França que mais vota em nós. Mas nem sempre foi assim

As participações portuguesas “foram as mais políticas até hoje” e receberam sobretudo votos de França, de Espanha e da Suíça. O historial de votações desde 1975 evidencia as relações entre os países, não só a nível político, mas também cultural. A final da 63.ª edição acontece na noite deste sábado.

Poucas semanas antes do 25 de Abril de 1974, Portugal levava a concurso a canção E depois do adeus, na voz de Paulo de Carvalho. Apesar da importância cultural do tema, a canção ficou em último lugar na final da Eurovisão. Na verdade, a participação portuguesa no festival europeu nunca foi particularmente bem sucedida, ainda que muitas das canções ficassem no imaginário português: é o caso da Desfolhada (1969), de Simone de Oliveira, e de Play-back (1981), de Carlos Paião.

Grande parte do reconhecimento das actuações portuguesas chegava de França, Espanha e Suíça. Nas 31 finais da Eurovisão em que Portugal esteve presente, entre 1975 e 2017, foram estes os países que mais votaram em nós, com base na análise feita pelo PÚBLICO ao historial de votações entre os participantes da Eurovisão. Ao todo, França deu 160 pontos, Espanha 141 e a Suíça deu 90.

Mas o voto não é inteiramente recíproco: durante esse período, Portugal votou mais na Itália, na Alemanha e em Espanha. Mais do que a vizinhança, aspectos como a proximidade cultural, as semelhanças linguísticas e os fluxos migratórios ajudam a explicar estas tendências, diz em conversa com o PÚBLICO o historiador australiano e especialista no festival, Dean Vuletic. Faz sentido que Portugal receba mais votos de países como a Espanha, França e Suíça, “onde o efeito da diáspora tem um papel importantíssimo”.

Além disso, reforça o historiador, os votos não têm de ser mútuos. Nestes casos serão os emigrantes portugueses que votam em Portugal, e não os portugueses que votam nesses países. E mais: a Alemanha e a Itália também têm grandes comunidades de imigrantes, cujos países de origem “levam uma grande fatia dos votos desses países”.

E esta tendência de voto nem sempre é visível. Em 1996, por exemplo, o segundo melhor ano de Portugal nesta competição, a pontuação máxima veio da Noruega e do Chipre. A Suíça, a Islândia e a Croácia deram dez pontos. Outro caso aconteceu em 1975, quando a Turquia ofereceu 12 dos 16 pontos que a Madrugada, de Duarte Mendes, arrecadou.  

Também foi de França que vieram pontuações máximas com mais frequência — quatro vezes no total. De Espanha foram três e da Holanda duas. Outros sete países, como Israel e a Lituânia, deram-nos a pontuação máxima uma vez. Já Portugal deu a pontuação máxima por seis vezes a Itália e a Espanha. E quatro ao Reino Unido.

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Afinidades à parte, a canção também conta para os resultados das votações, claro. Assim como a mensagem que transmite e a performance do intérprete, que deve ser “memorável”. Também ajuda se o país “tiver uma imagem positiva”.

Tensões políticas definem o voto (ou a falta dele)

O voto também é político, mas ainda o é mais “quando os países não votam uns nos outros”, garante Vuletic, dando como exemplo o caso da Arménia e do Azerbaijão, por causa dos conflitos de Nagorno-Karabakh. Mesmo assim, a Arménia deu um único ponto ao Azerbaijão em 2009 — gesto que nunca foi retribuído. Também não muito amigável é a relação da Grécia e do Chipre com a Turquia. A Turquia só recebeu votos destes dois países em quatro ocasiões (e todas depois de 2000). Mas retribuiu por 12 vezes. São casos em que “as relações de voto são bastante definidas pelas tensões políticas”.

Mas há outros exemplos interessantes nas votações, anteriores a 1975: durante as ditaduras de Salazar e Franco, Portugal e Espanha trocavam votos com a Jugoslávia (e vice-versa), ainda que os governos não tivessem relações diplomáticas — isto, esclarece Dean Vuletic, “significa que o júri não estava sob influência política”.

Há ainda tendências de voto nos países nórdicos e também já houve entre países francófonos (como a França, a Bélgica, o Luxemburgo e a Suíça), numa altura em que o inglês ainda não era a língua predominante do concurso. E, ainda que o exemplo da Grécia e do Chipre seja dado como o exemplo clássico de dois países que votam sempre entre si, nem sempre foi assim: na primeira vez em que competiram juntos, o Chipre não deu muitos pontos à Grécia, apesar de os gregos terem dado a pontuação máxima aos cipriotas.

“Não me parece que tenha corrido muito bem, na edição seguinte a Grécia pareceu retaliar e também não deu nenhum ponto ao Chipre”, explica Dean Vuletic. Essa tendência de voto só assentou a partir da década de 1990, por estarem “tão ligados do ponto de vista cultural”. Tanto assentou que, desde 1975, a Grécia deu a pontuação máxima ao Chipre 14 vezes. Já os cipriotas fizeram-no em 22 ocasiões.

“No final de contas, não me parece que isto altere o resultado e penso que é interessante ter estas relações quanto aos votos, porque dizem-nos muito sobre as relações internacionais na Europa”, resume o historiador.

A mensagem portuguesa perde-se na tradução

Portugal não é um dos países mais assíduos. De todas as 63 edições, marcámos presença em 49. Já Marrocos, só pisou o palco da Eurovisão uma vez, em 1980.

Quanto à performance portuguesa ao longo das últimas décadas, à excepção da edição de 2017 — em que Salvador Sobral recebeu 758 pontos e trouxe para Portugal a primeira vitória no festival —, a melhor participação tinha sido a de Lúcia Moniz, que conseguiu um modesto sexto lugar, em 1996. Antes disso, Sara Tavares, em 1994, e José Cid, em 1980, conseguiram o oitavo e o sétimo lugar, respectivamente.

Para trás ficam ainda prestações não tão gloriosas, como a de 1997, em que Célia Lawson cantou Antes do adeus e não arrecadou um único ponto. Ou a de 1978, quando os Gemini cantaram Dai-li-dou, mas só receberam cinco pontos.

Quanto às pontuações de Portugal, o historiador australiano (que foi o primeiro a estudar a Eurovisão de um ponto de vista académico) pensa que os resultados baixos podem ser explicados pelas nuances que se perdem nas mensagens cantadas em português (mas garante que cantar na própria língua é importante para assegurar “a diversidade linguística”) — e só agora é que o país está a ser “redescoberto”. Além disso, “os países mais pequenos são muitas vezes esquecidos” quando na verdade têm “um papel muito importante”.

Depois de estudar todas as 62 edições da Eurovisão, todas as canções a concurso e as biografias dos intérpretes e compositores, Dean Vuletic não tem dúvidas de que “as participações de Portugal foram as mais políticas até hoje”: há canções sobre a ditadura, a liberdade, o império português. Em 1975, o intérprete Duarte Mendes era também capitão de Abril; há compositores políticos como Manuel Alegre (que viria a ser candidato presidencial socialista) e Ary dos Santos (comunista), há a canção E depois do adeus que viria a servir de senha para o início da Revolução dos Cravos. “As canções portuguesas têm sido despudoradamente políticas e eu acho que isso é maravilhoso porque mostra o papel da música popular enquanto força sociopolítica”, considera. E, afinal, a música “não deve ser inócua, deve fazer pensar”.