Crítica

Em busca do tesouro

A memória da paisagem romântica está na obra mais recente de Pedro Vaz.

O resultado do processo aqui usado por Pedro  Vaz, embora reconhecível e identificável — uma montanha é uma montanha, um vale é um vale —, acaba por se dar a ver como uma ruína do conceito de pintura de paisagem
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O resultado do processo aqui usado por Pedro Vaz, embora reconhecível e identificável — uma montanha é uma montanha, um vale é um vale —, acaba por se dar a ver como uma ruína do conceito de pintura de paisagem

Pedro Vaz (n. 1977) tem desenvolvido um corpo de trabalho centrado no desenho — e, mais recentemente, no filme e no vídeo — que trabalha o conceito contemporâneo de paisagem e a sua relação com a História. Em Azimute, a exposição recentemente inaugurada em Lisboa, com curadoria de Sérgio Fazenda Rodrigues, acrescenta um novo capítulo ao seu percurso. Como já sucedeu noutras ocasiões, o lugar escolhido para trabalhar foi fulcral e nada indiferente para o desenvolvimento do projecto. Desta vez, a Serra da Estrela, pela via de vários locais geograficamente bem definidos, dominou as pesquisas do artista, reveladas, no espaço da galeria, num conjunto de desenhos de paisagem, desenhos técnicos e objectos a que se junta ainda um filme.

No texto que redigiu para prefaciar a exposição, Fazenda Rodrigues fala da interrogação muito contemporânea sobre a paisagem, da sua pertinência (e até mesmo da sua existência) depois do tratamento exaustivo do tema pelo Romantismo a partir de meados do século XVIII. Embora a paisagem, primeiro como cenário de uma estória pintada, mais tarde como género de pleno direito na hierarquia estabelecida pelas academias desde o século XVII, tenha uma história bem anterior a essa data, é com esse conceito romântico, e com o choque operado entre ele a moderna ciência que Vaz se debate aqui. A exposição introduz-nos num espaço recoberto com grandes pinturas sobre papel de paisagens montanhosas, pinturas que, no dizer do curador, são obtidas através de um processo de lavagem do suporte antes da completa secagem da tinta. O resultado, embora reconhecível e identificável — uma montanha é uma montanha, um vale é um vale —, acaba por se dar a ver como uma ruína do conceito de pintura de paisagem. Estamos perante o que hoje resta da imagem inicial, uma imagem literalmente lavada, limpa de todos os resíduos, quase um arquétipo, um esqueleto, uma ideia de paisagem sem lugar.

A estas imagens, que vão pontuando o percurso do espectador pelas duas salas da Galeria 111, juntam-se mapas, um objecto transparente que lembra um cristal de rocha, e, mais adiante, um dispositivo albertiano para quadricular o visível. Os mapas, no fundo, servem o mesmo propósito que o dispositivo, já que reduzem esse visível a um conjunto de linhas e coordenadas que eliminam qualquer apreciação estética. Como sempre sucede com as ciências exactas, tudo o que é do domínio do subjectivo (como o gosto ou o belo) tende a ser descartado, menorizado, eliminado.

Ora, num espaço recolhido e escurecido, um filme tende a negar esta tranquila confiança na ciência (através da geografia, da mineralogia e da geometria) que essas peças referiam. De facto, neste filme, mostrado no chão num écrã deitado, colamo-nos aos passos de um vedor que, sobre um campo nevado, procura com duas varetas a nascente de um rio. Trata-se na realidade do próprio artista, que, através de uma câmara colocada na testa, consegue operar esta estranha identificação entre o seu olhar e o nosso. Já não estamos no domínio da ciência, mas no da magia, da incerteza, e no fundo na apropriação de uma paisagem que se tenta agora descobrir no seu mais íntimo, no que lhe subjaz de riqueza aquosa, de tesouro escondido e nunca revelado. Porque quem caminha, alguém de quem apenas vemos os pés, não sabe nunca se de facto encontra a nascente do rio. Este, tapado pela neve, é invisível, permanece escondido, sem que se saiba, de facto, se as varetas, nas suas vibrações misteriosas, designam algo de real, visível, representável.

Pedro Vaz retoma neste filme a antiga tradição romântica da viagem pela montanha, a mesma que permitia descobrir no horror e na magnificência da natureza montanhosa o eco do sentimento do sublime que Edmund Burke referiu há quase três séculos. Mas este é um sentimento mediado, que perde a possibilidade da surpresa, por o artista nunca nos permitir olhar para o alto, para o cume, ou para as nuvens que o cortam. Pelo contrário, força-nos a manter os olhos no chão, no lugar desse tesouro líquido escondido que procura incessantemente, em loop. Das alturas, só temos ecos nos desenhos de quase miragens, nas abstracções geográficas ou até no dispositivo de reproduzir o real que, aqui, apenas tem valor plástico.

Sérgio Fazenda Rodrigues refere, e bem, as práticas de apropriação da paisagem que diferentes artistas e movimentos se deram por objectivo a partir da década de 50 do século XX. A estas acrescentemos todos os relatos de viagens pela montanha, de ascensões arriscadas, na procura de um lugar que favorecesse a plenitude espiritual pela procura do ponto de vista ideal, quase sempre imortalizado através da fotografia. Azimute, o nome da exposição, é para além de um complicado ponto geométrico no espaço, um sinónimo de rota, de caminho. É disso que aqui se trata.