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Joana Correia Pires, estudante do Curso de Licenciatura em Enfermagem

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Dia Internacional do Enfermeiro: por uma saúde para todos

Se o Dia Internacional do Enfermeiro visa relembrar a importância destes profissionais de saúde e da prestação de cuidados por parte destes, por outro também deveria dar visibilidade às atribulações diárias e aos desafios que nos são colocados em Portugal

Com a chegada do Dia Internacional do Enfermeiro, 12 de Maio, parece-me importante relevar a importância deste dia no contexto actual dos nossos serviços de saúde e das nossas equipas de enfermagem.

O desgaste físico e psicológico, a retirada de direitos fundamentais, a não revisão das carreiras e do salário, a não mudança dos planos de estudo e a não integração do mestrado nos quatro anos, que agora são só de licenciatura de base, são algumas das angústias sentidas por esta classe profissional.

A luta dos enfermeiros pelo Contrato Individual de Trabalho (CIT), da passagem, finalmente, às 35 horas semanais, parece ser ainda um sonho, dado que na prática — e a menos de dois meses de acontecer — continuamos com uma realidade hospitalar sem condições de contratação e a não efectivar entradas de enfermeiros, balizadas pelo mote “Somos Todos Centeno”, que vem impedindo a admissão e diferindo os pedidos através do Ministério da Saúde.

Pois se o Dia Internacional do Enfermeiro visa relembrar a importância destes profissionais de saúde e da prestação de cuidados por parte destes, por outro também deveria dar visibilidade às atribulações diárias e aos desafios que nos são colocados em Portugal, como falta de recursos (materiais e humanos), de tempo (dado o número de utentes), de disponibilidade para o desenvolvimento de projectos e investigação nos serviços, e com equipas sobrecarregadas.

Convém exaltar que o investimento em saúde, disposto em sede própria do orçamento, sendo por si só altamente deficitário, também tem canalização de fins que reincidem em parcerias público-privadas (PPP), dinheiros de Meios Complementares de Diagnóstico e Terapêutica (MCDT) para os grupos privados, deixando o Serviço Nacional de Saúde cada vez mais debilitado.

O Conselho Internacional de Enfermagem (ICN) estabeleceu o mote para o Dia Internacional do Enfermeiro de 2018: “Saúde é um Direito Humano”. Sendo o direito à saúde uma conquista social de Abril, não chega efectivamente a todos. E com exemplos como o dos enfermeiros, a qualidade e excelência dos cuidados é colocada em causa porque o acesso aos mesmos vai progressivamente caindo em saco roto, quando a proliferação dos cuidados de saúde não é assegurada nas suas dotações — sendo que os mínimos acabam por traçar os planos diários.

Enquanto estudante do quarto ano de Enfermagem, a realidade mostra-nos o que é, hoje em dia, a profissão. Os desafios dos actuais e futuros profissionais, como eu, passam pela luta por um caminho diferente. As políticas actuais, a ordem e os sindicatos têm-se, essencialmente, centrado no sectarismo, centralismo e interesses de alguns. E, assim, a profissão continua à deriva num mar balizado pelo orçamento e pelo negócio que têm feito com a saúde.

O ICN, também este ano, promoveu a luta dos enfermeiros e a necessidade de afirmação dos mesmos. Os hashtags #VoiceToLead e #IND2018 marcavam as iniciativas e a discussão de mudança, inclusive de um ponto de vista internacional, das mudanças necessárias e panoramas novos na profissão.

Parece-me que a comemoração do Dia Internacional do Enfermeiro necessita também de revelar quais as barreiras e as desigualdades em saúde — e como nós, enfermeiros, somos afectados por elas.

Por uma saúde para todos: onde a promoção da saúde não é um mito, os centros de saúde deixam de ser os parentes pobres, onde a carreira, a contratação, o salário e o plano de estudos são revistos, a investigação e os projectos nos serviços têm equipas destinadas, e onde a saúde é um direito e não uma fachada de inimizade que gera mais negócios. Estes são alguns dos desafios deixados aos actores sociais. Cabe aos enfermeiros lutar por eles diariamente.