Clara Menéres (1943-2018), uma escultora fora do lugar-comum

Via-se como uma artista de vanguarda, tendo marcado várias correntes ao longo das décadas, desde a arte feminista e erótica nos anos 1960 e 1970, à arte religiosa nos últimos anos.

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Clara Menéres fotografada em 2002 Luís Branco
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Obra Jaz morto e arrefece, de 1973 Raquel Esperança
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Monumento a Camões, em Paris Rui Gaudêncio
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Escultura no Santuário do Sameiro, Braga Nelson Garrido

Clara Menéres, escultora (e professora) com uma obra desassombrada e fora do comum, morreu esta quinta-feira, ao princípio da noite, num hospital de Lisboa, aos 74 anos. A artista estava internada há uns dias em tratamento após uma cirurgia, disse ao PÚBLICO um dos seus filhos.

Autora de uma obra de difícil classificação, Clara Menéres via-se como uma artista de vanguarda, tendo marcado várias correntes ao longo das décadas, desde a arte feminista e erótica nos anos 1960 e 1970, à arte religiosa nos últimos anos, tendo trabalhado em pedra, plástico, metal, néon e bordados, entre muitos outros materiais.

Ao PÚBLICO, José Pedro Croft classifica-a como “uma artista desassombrada, possuidora de uma enorme coragem”. “Há 50 anos, abordou temas fortes, que hoje estão na agenda e que ela antecipou: a sexualidade, a guerra, a violência”, nota o escultor, acrescentando que Clara Menéres sempre foi “uma pessoa muito livre, mesmo nas mudanças que assumiu na sua vida”.

Essa liberdade é também realçada pela crítica Luísa Soares de Oliveira: “Sempre séria, pouco loquaz, de uma irrepreensível ética sem desvios, Clara Menéres  que nos últimos anos não dispensava vistosos chapéus sempre que aparecia em público  não alterou nunca o seu nível de exigência plástica a partir do momento em que se converteu ao catolicismo, pela década de 80”, realça a crítica do PÚBLICO. E cita momentos marcantes da criação da artista, como Jaz morto e arrefece, mas especialmente a peça Mulher – Terra – Mãe, que apresentou na marcante exposição de Ernesto de Sousa Alternativa Zero, em Lisboa, em 1977, e que “é hoje considerada unanimemente uma obra fundamental nas diversas linguagens artísticas que, em Portugal, se reclamam do feminismo”.

Na sua produção mais recente, Clara Menéres privilegiou a temática religiosa – ela que, como Ernesto de Sousa, recorda o historiador de arte Vítor Serrão na sua página de Facebook, sempre defendeu que “toda a arte é sacra” –, e assinou criações para o santuário de Fátima (a jovem pastora Jacinta, em 2000, ou O Anjo da Paz, que em 2016 foi incluído no programa de celebração do centenário das aparições) e também para o Santuário do Sameiro, em Braga, uma obra que está ainda por acabar. 

Ao longo de uma carreira de meio século, Clara Menéres criou “uma obra de forte carácter inventivo, em crescente tónus espiritual”, como lembrou esta sexta-feira Vítor Serrão.

"Ela teve uma espécie de conversão, e a religião passou a ocupar um lugar forte na sua arte, mantendo a mesma marca humanista", nota ao PÚBLICO Ana Vasconcelos, co-curadora, com Patrícia Rosas, de uma exposição em que Clara Menéres está fortemente representada, Pós-Pop. Fora do lugar-comum (Desvios da ‘pop’ em Portugal e Inglaterra, 1965-75), patente até 10 de Setembro na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Ali podem ser vistos três núcleos de peças da artista, que incluem a polémica escultura Jaz morto e arrefece, com que representou, em 1973, a figura de um soldado português morto na Guerra Colonial; seis criações do tempo do grupo ACRE (1974-76), que integrou com Lima de Carvalho e Alfredo Queirós Ribeiro; e uma série de bordados em cambraia de carácter erótico, datados de 1972.

“A sua obra não estava tão lembrada como merece”, lamenta Ana Vasconcelos, sublinhando que a artista "desenvolveu uma obra pioneira, arrojada, provocadora mesmo, com a pedra, com o bronze, e com a luz”.

Para lá das peças actualmente em exposição na mostra Pós-Pop. Fora do lugar-comum, Clara Menéres está também bem representada na própria Colecção Gulbenkian – entre outras, fez o retrato do seu presidente, José de Azeredo Perdigão (1896-1993), e tem nos jardins da fundação as peças Papisa e Coincidentia oppositorum (1983).

Está ainda presente em várias outras colecções de museus e tem obras de arte pública em várias cidades: no Porto, é autora do monumento dedicado ao ex-chanceler alemão Willy Brandt, na Avenida Marechal Gomes da Costa; e em Paris co-assinou, com Rui Ramos, uma escultura em pedra dedicada a Luís de Camões.

Do Minho a Paris e aos EUA

Clara Menéres nasceu em Braga, a 22 de Agosto de 1943. Formou-se em Escultura na Escola Superior de Belas Artes do Porto, em 1968, onde foi aluna de Barata Feyo, Lagoa Henriques, Heitor Cramez e Júlio Resende.

Começou a expor nas exposições magnas da escola portuense; individualmente, a sua primeira mostra, de cerâmica, teve lugar em Aveiro, na Galeria Borges.

Na década de 70, foi bolseira da Gulbenkian em França, onde em 1981 se doutorou em Etnologia na Universidade Paris VII – defendeu a tese L'horloge et le concept de temps en Occident, sob orientação do psicólogo social romeno Serge Moscovici. 

Menéres fez depois investigação no MIT (Massachusetts Institute of Technology), nos Estados Unidos, com uma bolsa da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD). Leccionou na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (1971-96), onde chegou a presidente do conselho directivo; e na Universidade de Évora (1996-2007), onde atingiu o grau de professora catedrática.

O corpo da artista será colocado em câmara ardente, pelas 17h30 desta sexta-feira, na capela mortuária n.º 1 da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa, onde será velado. Haverá missa na capela às 19h15. Segundo informação prestada pela família, o funeral realiza-se no sábado, com missa de corpo presente às 9h, naquela igreja, seguindo depois para a localidade de Barrosas, no concelho de Lousada, onde Clara Menéres será sepultada no cemitério local.

Com Bárbara Reis

Notícia corrigida: Clara Menéres participou no concurso para a estátua dedicada a Catarina de Bragança em Queens, Nova Iorque, mas não foi a vencedora; de resto, o projecto escolhido, de autoria de Audrey Flack, não chegou a ser construído.