Crítica

O arco-íris desenhado por DJ Koze

Uma jornada contagiante, que sintetiza boa parte da música dos últimos anos para a colocar num novo lugar.

É como se DJ Koze nos convidasse a imergir na sua ilha paradisíaca feita de melodias fatais
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É como se DJ Koze nos convidasse a imergir na sua ilha paradisíaca feita de melodias fatais

Está longe de ser singular, mas o alemão Stefan Kozalia, 45 anos, mais conhecido por DJ Koze, é talvez um dos casos mais emblemáticos do DJ que ao fim-de-semana faz dançar multidões e durante a semana, em estúdio, cria música que pouco tem a ver com esse contexto. Natural de Hamburgo, Alemanha, habita parte do ano numa pequena localidade espanhola, o seu refúgio quando não se encontra em sessões DJ pelos quatro cantos do mundo.

Começou por dar nas vistas na alvorada dos anos 2000, no campo do tecno e do house da editora Kompakt, embora os seus primórdios estivessem ligados ao hip-hop. Lançou até agora três álbuns de originais, inúmeros singles, remisturas e registos de temas misturados. Não é portanto um desconhecido. Longe disso. Mas dir-se-ia que o seu novo álbum tem um alcance e uma possibilidade de abrangência que não se lhe reconheciam até agora.

É verdade que a sua obra anterior, Amygdala (2013), já expunha os elementos que agora se evidenciam, mas ainda assim o novo álbum é outra coisa. É uma daquelas obras raras que parecem ter um poder de sincretismo sobre parte da música dos últimos anos (house, disco, hip-hop, pop, soul, folk), para a colocar num novo patamar. Como tantos outros produtores das electrónicas, DJ Koze rodeou-se de inúmeros convidados vocais (José González, Róisín Murphy, Kurt Wagner dos Lambchop, Sophie Kennedy, Bon Iver ou Speech dos Arrested Development) para criar a sua própria fantasia, nesse movimento parecendo recriar outro álbum com 20 anos — When The Funk Hits The Fan, do americano King Britt — que era outra admirável utopia sincrética em torno da música negra.

Nada de equívocos. Quem quiser encontrar aqui o DJ e produtor das electrónicas de dança que é capaz de compor temas com adrenalina e fixação física irá deparar-se com ele em Pick up, Bonfire (com a voz resgatada de Bon Iver), Moving in a liquid ou Illumination, com os ritmos disco-house a rodearem a voz de Róisín Murphy. Mas esta é essencialmente obra de desfrute doméstico, com os ritmos distendidos do hip-hop trabalhados em Lord knows e Colors of autumn, peças de puro embalo ambiental de travo folk como Music on my teeth (com voz de José Gonzales) e Muddy funster, ou temas de envolvimento soul como This is my rock ou Baby. Dir-se-á que também não existe propriamente nada de novo nesta estratégia, apesar de nos últimos tempos poucos o terem tentado, pelo menos com sucesso total.

É verdade. Muitos outros trataram de compor álbuns sólidos a partir de uma grande diversidade de elementos, como faz agora o produtor alemão. E no entanto existe por aqui um sentido de devaneio — como se ele nos convidasse a imergir na sua ilha paradisíaca, feita de melodias fatais, ritmos a velocidades variáveis e vozes perfeitamente integradas nos cenários compostos — que se revela um convite irrecusável. Esta é uma jornada contagiante, com espírito de dança, sensibilidade pop e técnicas resgatadas ao hip-hop. E seja lá qual for a forma que os temas adoptam, todos correspondem a uma evidente afirmação de vida, uma espécie de arco-íris que sabemos que se dissolverá, mas que apetece expandir para sempre. Tão simples, tão bom quanto isso.