O "faraó" da Malásia regressou ao poder aos 92 anos

Mahathir Mohamad liderou o país entre 1981 e 2003 à frente do histórico Barisan Nasional, da direita. Esta semana, derrotou o seu antigo partido à frente de uma coligação de centro-esquerda.

Mahathir Bin Mohamad
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Mahathir (ao centro) tem 92 anos e foi primeiro-ministro durante 22 anos Reuters/LAI SENG SIN
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Depois de ter governado a Malásia com mão de ferro durante 22 anos, Mahathir Mohamad, um político conhecido pelo seu sarcasmo, que aconselha toda a gente a escrever a palavra "faraó" antes ou depois do seu nome, regressou ao poder com grande estrondo. Aos 92 anos, mudou de campo e levou uma coligação de centro-esquerda a derrotar o seu partido de sempre, da direita, que governava o país há mais de 60 anos.

"Sim, sim, ainda estou vivo", disse Mohamad no início da conferência de imprensa onde viria a agradecer o voto dos eleitores e a garantir que vai mesmo cumprir as suas promessas rotuladas de populistas, que estão a assustar as agências de rating e os mercados financeiros.

O novo primeiro-ministro da Malásia, que já tomou posse esta quinta-feira, é conhecido pelo seu sarcasmo, e nos últimos anos tem brincado com a sua idade avançada. Já este ano, em Janeiro, aconselhou toda a gente a referir-se a ele como "faraó" – uma designação que o acompanha há décadas numa referência aos seus tiques autoritários.

Mas a história do regresso ao poder de Mohamad, e da sua tomada de posse, esta quinta-feira, como o governante eleito democraticamente mais idoso de sempre em todo o mundo, é também a história da derrota do primeiro-ministro Najib Razak, que governava o país desde 2009.

O Barisan Nasional, de Razak, já tinha sido penalizado nas eleições de 2013, quando a sua representação no Parlamento desceu de 140 para 133 lugares. Foi, na altura, o pior resultado de sempre da coligação de direita desde que se instalou no poder, em 1955, ainda sob domínio britânico e com a designação de Partido da Aliança.

Mas poucos anteviram o descalabro das eleições desta quarta-feira: o Barisan Nasional conquistou apenas 79 lugares, contra os 113 da lista de partidos do centro-esquerda liderada por Mahathir Mohamad, um resultado suficiente para governar em maioria num Parlamento com 222 deputados.

Anti-corrupção

A figura principal das eleições foi mesmo Mohamad, o homem que governou o país com mão de ferro entre 1981 e 2003, aos comandos do Barisan Nasional, e que regressou à política activa ao fim de 15 anos para liderar uma coligação de partidos do centro-esquerda chamada Pakatan Harapan (Aliança da Esperança).

A derrota histórica do Barisan Nasional dificilmente teria acontecido se Mohamad não fosse a figura da oposição. Foi o seu regresso à política activa que deu um rosto ao descontentamento da maioria dos eleitores com o primeiro-ministro Najib Razak, que está a ser investigado em seis países por suspeitas de ter embolsado cerca de 700 milhões de dólares (590 milhões de euros) de um banco de investimento estatal criado pelo seu governo – Razak nega essas acusações e o Ministério Público malaio ilibou-o de quaisquer suspeitas.

Mas a derrota histórica e pesada nas eleições é um indicador de que nem o primeiro-ministro se livrou da sombra da corrupção, nem o seu governo escapou às críticas contra a aprovação de medidas impopulares, como o aumento de impostos – isto apesar de a economia da Malásia continuar a recuperar e de estar em melhor forma do que as dos seus parceiros regionais, a Indonésia e as Filipinas.

A derrota do Barisan Nasional está também a ser vista como um indicador de que o nacionalismo malaio não foi suficiente para travar o descontentamento popular com as suspeitas de corrupção e o aumento de impostos, já que a histórica coligação de direita, e o primeiro-ministro Najib Razak em particular, iam muitas vezes ao encontro das exigências da maioria étnica do país.

"Estas eleições provaram que nós ultrapassámos a política racial. O que aconteceu foi a manifestação do poder do povo através do voto", disse à BBC Khoo Ying Hooi, professora de Estudos Internacionais e Estratégicos na Universidade de Malaya.

Saída em 2020?

Para além da popularidade que tem na Malásia, Mohamad reforçou as suas hipóteses de vitória nas eleições unindo-se a um dos seus antigos rivais, que passou entretanto a ser também um dos maiores rivais do primeiro-ministro Najib Razak – Anwar Ibrahim, preso em 1999 por sodomia depois de ter sido afastado do cargo de vice-primeiro-ministro por Mohamad, e preso outra vez em 2015, novamente por sodomia, durante o governo de Razak, quando já estava na oposição.

O sexo entre pessoas do mesmo género é criminalizado na Malásia, onde as autoridades lançaram um concurso de ideias, no ano passado, para "prevenir" a homossexualidade e o movimento transgénero.

Durante a campanha, Mahathir Mohamad disse que a sua intenção é governar durante dois anos e depois passar o poder para as mãos de Anwar Ibrahim.

O regresso ao poder de Mohamad está a assustar os mercados financeiros, que acusam o novo primeiro-ministro malaio de ter um programa populista. Em particular, a promessa de revogar um imposto sobre bens e serviços, de restaurar os subsídios do Estado aos combustíveis e ao açúcar e de renegociar os acordos comerciais com a China. Antecipando uma descida na reabertura da bolsa de valores, na segunda-feira, a analista Aninda Mitra disse à Reuters que a vitória de Mahathir Mohamad "está ao nível do 'Brexit' e da eleição de Trump".

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