Ala radical do Irão quer acender o rastilho deixado por Trump

Rouhani disse estar na disposição de falar com os signatários europeus para salvar o acordo nuclear. Mas, no Irão, enquanto se queimam bandeiras americanas, aumenta a pressão para abandonar o pacto.

Deputados iranianos queimara bandeira americana no Parlamento
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Deputados iranianos queimara bandeira americana no Parlamento LUSA/HANDOUT
Protestos em frente à antiga embaixada dos EUA em Teerão
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Protestos em frente à antiga embaixada dos EUA em Teerão LUSA/STR
Fabricado nos EUA
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No seu livro de memórias lançado em 2013, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Mohammad Javad Zarif, explicou que na diplomacia é preciso “sorrir sempre”. “Mas nunca se deve esquecer que estamos a falar com um inimigo”. A sua forma de fazer diplomacia assenta nesta lição, e a negociação do acordo sobre o nuclear assinado em 2015 não foi excepção. A ala mais radical iraniana fez sempre questão de lembrar a segunda parte da frase ao ministro. Agora, com a decisão de Donald Trump de retirar os Estados Unidos e que colocou o pacto em risco, este grupo de radicais já não se fica pelos avisos.  

Tanto Zarif como o Presidente Hassan Rouhani apressaram-se a dizer que qualquer decisão sobre a saída dos EUA do acordo sobre o nuclear iraniano (também conhecido com JCPOA, sigla em inglês para Plano de Acção Conjunto Global), iria ser tomada depois de consultar os signatários europeus (Reino Unido, França e Alemanha), que asseguraram a manutenção do compromisso.

Apesar desta esperança na salvação do acordo dada pelos europeus, e também pela Rússia e China, os conservadores iranianos e os mais acérrimos defensores da República Islâmica – onde se inclui a poderosa Guarda Revolucionária, aliada do ayatollah Ali Khamenei – acenam já com a derrota de Rouhani e reclamam vitória pelos alertas enviados antes: os EUA não são confiáveis e qualquer negociação com um dos principais inimigos do país é quase equiparada a uma traição.

“Morte à América”

No início de uma sessão parlamentar nesta quarta-feira, os deputados radicais fizeram questão de demonstrar em que posição se encontram relativamente à saída dos EUA: queimaram a bandeira americana e uma cópia do acordo enquanto gritavam “Morte à América”.

“A saída do acordo nuclear de Trump foi um espectáculo diplomático. O Irão não tem obrigação de honrar os compromissos na situação actual”, atirou o porta-voz do Parlamento iraniano, Ali Larijani.

Mais importante, o Líder Supremo do Irão, Khamenei, que é quem tem verdadeiramente o poder no Irão, também lançou os seus avisos nesta quarta-feira: “Não é lógico continuar a implementação do acordo sem receber garantias suficientes dos três países europeus. Agora diz-se que vamos continuar [o acordo] com os três países. Eu nem sequer confio nestes três países. Recebam garantias práticas deles. Se o conseguiram, tudo bem. Mas se não conseguirem obter uma garantia, não vai ser possível continuar a implementar o Barjam [acrónimo persa para o JCPOA].”

Ali Khorram, antigo embaixador do Irão na China e conselheiro da equipa que negociou o acordo nuclear, avisa, em declarações ao New York Times, que “Trump violou o acordo internacional do seu antecessor, Obama, sob as intrigas do primeiro-ministro israelita e do príncipe herdeiro saudita, Bin Salman”. “Agora, pôs-se nas mãos dos radicais no Irão”.

O Presidente norte-americano sustentou a sua decisão no argumento de que Teerão desrespeitou o JCPOA, com um programa nuclear secreto, e que a prová-lo estão as supostas provas que o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, apresentou na semana passada.

Do lado iraniano está o argumento de que os monitores da Agência Internacional de Energia Atómica não encontraram quaisquer provas de que o Irão violou o tratado. Assim, em Teerão, garante-se que quem está em incumprimento é Washington. Mais do que isso, existe a percepção de que esta violação foi provocada pelas manobras de Telaviv e de Riade, os principais adversários da República Islâmica na região.

Nesta quarta-feira, Trump enviou mais mensagens a Teerão: “Eu aconselho o Irão a não iniciar o seu programa nuclear”, disse aos jornalistas na Casa Branca. “Se eles o fizeram as consequências serão severas.”

Rouhani foi eleito Presidente do Irão em 2013 com uma imagem de moderação e promessas de abertura. Isto numa altura em que os iranianos já se tinham cansado do isolacionismo e radicalismo de Mahmoud Ahmadinejad, que foi alvo de intensas manifestações por suspeitas de fraude eleitoral e pelo declínio económico do país.

Grande parte destas dificuldades económicas deveu-se às sanções impostas pelos EUA, União Europeia e ONU em resposta ao programa nuclear militar de Teerão. Na sequência da assinatura do acordo, estas sanções foram levantadas e Rouhani prometia o fim da crise.

Apesar do alívio que o congelamento das sanções trouxe, alguns dos problemas económicos mantiveram-se e a população voltou a sair às ruas em Dezembro do ano passado, nas maiores manifestações desde as 2009 contra Ahmadinejad. Apesar de tudo, antes disso, em Maio, Rouhani voltou a ser eleito alcançando um resultado que surpreendeu muitos.

Com o regresso das sanções de Washington sobre a importação do petróleo e as transacções com o banco central iraniano, o alívio sentido antes pode perder algum do seu peso.

A pressão sobre Rouhani promete aumentar não só nos corredores políticos de Teerão mas também nas ruas.

“Historicamente, os presidentes iranianos são mais fracos nos seus segundos mandatos. Agora, com o acordo a colapsar, Rouhani vai ser ainda mais fraco”, diz à Reuters um diplomata iraniano que não se quis identificar. “Khamenei prefere um Presidente fraco. Rouhani vai cumprir o seu mandato, mas como um lame duck [expressão que se refere a um líder em funções mas sem autoridade política para a tomada de decisões].”

Rouhani e Zarif arriscaram o seu futuro político quando se sentaram à mesa com o Ocidente, na maior aproximação desde a Revolução Islâmica em 1979. A sua sobrevivência, e a do acordo, depende muito da gestão que fizerem da pressão que lhes chega um pouco por todo o lado: por um lado, conseguir satisfazer as insatisfações dos moderados e até aqui os seus principais apoiantes e, por outro, não ignorar a poderosa ala radical e aliada de Khamenei.

Europa pode dar garantias?

Para os europeus, agora, a prioridade é garantir que o acordo nuclear sobrevive. Apesar de todos os seus esforços, os líderes europeus - que tiveram no JCPOA uma das maiores conquistas diplomáticas das últimas décadas - não conseguiram evitar o afastamento dos EUA. Nas negociações dos próximos dias, farão tudo o que puderem para assegurar a Teerão que os termos acertados em 2015 podem continuar em vigor, uma vez que o bloco continental continua comprometido com a sua implementação.

O Presidente francês, Emmanuel Macron, já falou ao telefone com Rouhani, pedindo ao iraniano que se mantenha no acordo. Além disso, Paris anunciou que o ministro dos Negócios Estrangeiros, Jean-Yves Le Drien, vai encontrar-se com Zarif brevemente.

Da resposta de Hassan Rouhani depende a reacção europeia às medidas do Presidente americano: sem o respaldo do Presidente iraniano, e garantias concretas de que as operações de enriquecimento de urânio não serão retomadas, de pouco valerá aos europeus desafiar a Administração Trump em defesa do acordo.

Mas, por outro lado, e como já avisou Khomeini, se da Europa não chegarem garantias concretas que convençam o Irão a manter-se fiel ao acordado, o pacto tem os dias contados.

De acordo com a agência noticiosa iraniana ISNA, na conversa com Macron o Presidente iraniano disse que a Europa tem uma “oportunidade limitada” para salvar o acordo, e que tem de, “rapidamente, clarificar a sua posição e especificar e anunciar as suas intenções relativamente às suas obrigações”.

A questão, por isso, é a de saber se os europeus têm condições para assegurar apoio significativo na estabilidade da região - através da contenção da Arábia Saudita e, principalmente, de Israel - e garantias financeiras que se possam materializar na tão necessária estabilidade económica no Irão. Ambos os factores tinham, até aqui, nos EUA a sua principal base de sustento.