A emancipação do corpo feminino de Aurora Pinho

Até sábado, Aurora Pinho apresenta na Ruadasgaivotas6, em Lisboa, Aurora de Areia, performance-concerto que documenta o seu percurso pessoal: de homem para mulher, da prisão para a liberdade.

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ALÍPIO PADILHA

Aurora de Areia começa com Aurora Pinho parcialmente enterrada na areia. Poderia ser uma Winnie, dos Dias Felizes de Samuel Beckett, mas não há no peso dos dias de Aurora a mesma conformação. A areia que lhe prende os gestos, ao contrário de se avolumar, serve aqui para vincar a metamorfose de Aurora, que, levantando-se, afirma a liberdade de movimentos e a emancipação do corpo que lhe calhou na lotaria cromossómica.

Pouco depois, numa projecção em fundo, vemos Aurora ainda como homem, a rapar o cabelo numa metade do ecrã, enquanto na outra metade, filmada minutos depois, já não lhe resta cabelo algum e está entregue a um choro de desorientação e frustração. Aurora de Areia,  que a artista apresenta na Ruadasgaivotas6, em Lisboa, desta quinta-feira até sábado, é mais do que uma performance-concerto: é o documento do percurso de uma pessoa que foi à procura do corpo em que se sentia inteira.

A artista partiu da ideia de "um trabalho autobiográfico", conta ao PÚBLICO. "Fui registando coisas a nível de fotografia, auto-retrato, escrevi e pintei imenso. Depois juntou-se o processo de mudança de sexo e tudo isso está aqui.” Até porque os auto-retratos começaram, a partir de um determinado ponto, a registar as suas transformações físicas. Interessada em trabalhar a intimidade segundo uma perspectiva de “naturalização”, expondo a sua história em vez de a esconder, Aurora Pinho pode neste espectáculo reviver e renovar a sua libertação.

“Depois deste trabalho o peso será diferente, porque sempre me senti muito pesada com toda esta informação”, diz. “Era muito solitária, fechava-me imenso e neste momento interessa-me mostrar esta verdade ao público, porque quando as pessoas entenderem a naturalidade do que aqui está vão olhar de outra forma. Não há ficção. É cru, é duro e é isto.” Sendo esta uma história pessoal que Aurora sabe poder servir de inspiração a quem passe pelo mesmo processo, a artista quer que este relato, que parte também de uma situação depressiva, possa encontrar eco num público tão vasto quanto possível.

Até porque se não ignora que a comunidade LGBT não terá dificuldade em aceitá-la, a sua proposta de naturalização passa, precisamente, por deitar abaixo as barreiras existentes junto daqueles que, à partida, não demonstrarão tanta empatia pela sua história. “O que me interessa é chegar a um público que rejeita tudo isto”, reforça. “Quero mostrar que não sou uma aberração aos olhos de muitos, que sou apenas uma pessoa que nasceu no corpo errado.” Daí que recuse qualquer intenção de chocar, afirmando que lhe interessa precisamente expor a sua intimidade apenas para a banalizar.

Uma semana fechada

Claro que ao usar na performance uma sex tape registada há dois anos – que diz já não lhe despertar qualquer emoção especial, razão pela qual a expõe em público, uma vez que as imagens ganharam o valor de “um objecto” –, Aurora admite o choque como uma possibilidade de reacção. Por muito que lhe custe perceber como é que um vídeo de sexo (“dois corpos a fazerem o que toda a gente faz”, resume) pode encontrar resistência em quem assiste. Ainda assim, garante, as portas da sala estarão sempre abertas para quem as queira transpor em definitivo e abandonar a sessão.

Não é, no entanto, difícil de perceber que, neste novo espectáculo de um dos 18 nomes que o Ípsilon lançou em Março como obrigatórios a acompanhar nas artes portuguesas durante os próximos anos, aquilo que há de mais invasivo para Aurora Pinho é, na verdade, a cena em que rapa o cabelo: “É uma coisa que ainda hoje quando estou a ver me incomoda, tenho de olhar para o lado, porque é mesmo muito forte”. De facto, só três anos após a gravação é que Aurora foi capaz de olhá-la e perceber que tinha lugar entre os vários materiais que recolheu e montou durante uma residência no Espaço do Tempo, em Montemor-o-Novo.

Durante uma semana, Aurora entregou-se a algo inteiramente novo na sua vida: fechou-se numa black box, contactando apenas com quem que lhe levava comida, e entrou num processo tão intenso de construção do espectáculo que saiu de Montemor-o-Novo com Aurora de Areia quase concluída. Foi a fase final da emancipação que, por estes dias, se completa em cena. Na esperança de que também os espectadores se emancipem dos seus lugares tradicionais de seres bem comportados, treinados para observar, aplaudir e ir à sua vida. Aurora quer mais do que isso. Quer que a sua vida, de alguma maneira, os acompanhe.