Há milhares de anos o vírus da hepatite B alastrava pela Eurásia

Duas equipas de cientistas analisaram centenas de genomas de indivíduos que viveram na Eurásia desde a Idade do Bronze até à Idade Média. Descobriram que 25 deles já tinham sido infectados pelo vírus da hepatite B.

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Vírus da hepatite B Centros para o Controlo das Doenças dos EUA

Os genomas são uma boa forma de desvendar o que aconteceu em tempos remotos. Por isso, em dois artigos científicos na revista Nature desta semana, duas equipas internacionais de cientistas – ambas lideradas pelo geneticista Eske Willerslev, da Universidade de Copenhaga (Dinamarca) – usaram a sequenciação de genomas de 304 indivíduos, que viveram no Centro e no Oeste da Eurásia entre há 7000 e 200 anos, para saber mais pormenores sobre esses tempos. Num primeiro artigo, fez-se um modelo da diversidade genética antiga e actual da Ásia Central. No outro, revela-se que há milhares de anos os humanos na Eurásia já eram infectados pelo vírus da hepatite B.

As estepes euro-asiáticas estendem-se por oito mil quilómetros desde a Hungria e a Roménia até à Mongólia e à China e, durante milhares de anos, foram um grande centro de migrações e mudanças culturais. “Estas regiões foram dominadas, nos últimos quatro ou cinco milénios, primeiro por falantes de iraniano e depois por grupos nómadas falantes de turcomano e mongólico compostos por pastores e guerreiros”, conta-se no artigo científico.

Para saber mais sobre as mudanças linguísticas e culturais das populações das estepes, uma equipa de cientistas sequenciou 137 genomas da Europa até à Mongólia e dos Montes Altai até às montanhas de Tian Shan (Ásia Central) entre os anos 2500 a.C. e 1500. Ou seja, esses genomas cobrem um período de quatro mil anos. Também tiveram em conta o perfil genético de 502 indivíduos actuais de 16 etnias da Ásia Central, dos Montes Altai, da Sibéria e do Cáucaso.

Conseguiu-se assim modelar a diversidade genética antiga e actual (que se conhece) da Ásia Central através dos seus principais grupos ancestrais, como os hunos ou os xiongnu (povo nómada criador de gado dessa região). Também se traçaram os principais eventos migratórios dos pastores das estepes desde 3000 a.C. até ao presente. 

E o que estava escondido na genética? Percebeu-se que a genética dos grupos de citas (nómadas que migraram do Ocidente para a Ásia Central e dominaram as estepes na Idade do Ferro) era “altamente estruturada” e teve origens nos pastores do final da Idade do Bronze, nos agricultores europeus e nos caçadores do Sul da Sibéria. “Mais tarde, os citas misturaram-se com os nómadas das estepes de Leste que eram formadas pelas confederações de xiongnu, e movimentaram-se para Oeste por volta do século II e III a.C., constituindo os tradicionais hunos no século IV ou V, e levando com eles a praga que está na base da peste de Justiniano [doença contagiosa que, entre os anos de 541 e 750, matou mais de metade da população europeia]”, lê-se no artigo. Na Idade Média, esses nómadas ainda se misturaram com grupos do Leste da Ásia.

Por tudo isso, concluiu-se no artigo: “A história genómica das estepes euro-asiáticas é a história de uma transição gradual desde os pastores da Idade do Bronze com ascendência no Oeste da Eurásia até aos guerreiros de ascendência da Ásia de Leste.”

Origem incerta

no segundo artigo científico, os cientistas analisaram, ao todo, 304 genomas de indivíduos do Oeste e do Centro da Ásia Central (juntaram aos 137 genomas do primeiro trabalho mais 167 genomas) desde há 7000 anos até há 200 anos. Entre esses genomas, descobriram que 25 indivíduos tinham sido infectados pelo vírus da hepatite desde a Idade do Bronze até à Idade Média. “Mostrámos que os humanos através da Eurásia foram consideravelmente infectados com o vírus da hepatite B durante milhares de anos”, refere-se no artigo.

Conseguiu-se ainda recuperar completa ou parcialmente 12 genomas do vírus da hepatite B (incluindo, pelo menos, um genótipo extinto). Depois, analisaram-nos, juntamente com genomas de vírus da hepatite B de primatas não humanos, bem como de humanos actuais. “As localizações geográficas de alguns genótipos de vírus antigos não correspondem à distribuição dos genótipos de hoje em dia”, considera-se no artigo. Esses genótipos pertenciam a indivíduos da Ásia Central, por exemplo.

Actualmente, cerca de 257 milhões de pessoas estão cronicamente infectadas com o vírus da hepatite B e, em 2015, cerca de 887 mil pessoas morreram com complicações associadas a este vírus. A predominância deste vírus no mundo é de 3,6% (desde 0,01% no Reino Unido até 22,38% no Sudão do Sul).

Contudo, os cientistas alertam que a origem e a evolução do vírus têm permanecido incertas. “Estes dados revelam uma evolução complexa do vírus da hepatite B que não é evidente quando se consideram as sequências [genéticas] modernas só por si”, referem. Portanto, a descoberta de mais genomas antigos deste vírus poderá esclarecer-nos quanto à sua verdadeira origem e evolução, assim como ajudar-nos a compreender os contributos das mudanças culturais e naturais na mortalidade e disseminação da hepatite B.