Candidata a directora da CIA promete desobedecer a "ordens imorais" de Trump

Gina Haspel está debaixo de fogo no Senado por causa da sua participação no programa de tortura sobre suspeitos de terrorismo.

Haspel está na CIA há 33 anos e esteve quase sempre no terreno
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Haspel está na CIA há 33 anos e esteve quase sempre no terreno Reuters/AARON P. BERNSTEIN

Gina Haspel, a mulher que o Presidente norte-americano quer ver na liderança da CIA, afirmou esta quarta-feira, durante uma audição pública no Senado, que não cumprirá "ordens imorais" da Casa Branca, "mesmo que sejam tecnicamente legais". Haspel, que geriu um centro de detenção na Tailândia onde um suspeito da Al-Qaeda foi torturado, em 2002, garantiu que sob o seu comando a CIA não voltará a ter um programa de interrogatórios brutais.

Estas declarações de Gina Haspel surgiram em resposta a perguntas do senador Mark Warner, do Partido Democrata, e servem para ilustrar a principal questão à volta deste processo de nomeação.

Enquanto a Casa Branca e o Partido Republicano preferem elogiar a competência e a lealdade de Gina Haspel ao longo dos seus 33 anos na CIA como agente no terreno, o Partido Democrata põe o foco no seu envolvimento no programa de tortura de suspeitos de terrorismo criado pela Administração Bush a seguir aos atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001.

À semelhança do que aconteceu na audição de Mike Pompeo para secretário de Estado, em Abril, os senadores do Partido Democrata não estão apenas interessados em saber se as pessoas escolhidas por Trump têm um passado que põe em causa as suas nomeações – mais do que isso, estão interessados em saber se Gina Haspel admite bater o pé ao Presidente Trump se vier a ser confirmada como directora da CIA.

Esta questão é particularmente importante no caso de Haspel, que geriu um centro de detenção na Tailândia onde um suspeito de ligações à Al-Qaeda foi torturado, em 2002, e que participou na destruição das gravações em vídeo desses interrogatórios, em 2005.

Esse programa de "técnicas avançadas de interrogatório" da CIA, que arrancou logo após os atentados do 11 de Setembro, foi travado pelo Presidente Barack Obama em Janeiro de 2009, mas Donald Trump tem prometido revalidar "o waterboarding e coisas muito piores" em interrogatórios a suspeitos de terrorismo. Para além disso, o actual Presidente norte-americano defende que a tortura "funciona" – uma opinião contrariada no relatório do Senado sobre a prática de tortura pela CIA, divulgado parcialmente em Dezembro de 2014, onde se afirma que a tortura de prisioneiros não levou à revelação de informações relevantes, nem para deter outros suspeitos importantes, nem para travar planos de atentados terroristas.

Esta quarta-feira, perante a Comissão de Serviços Secretos do Senado, Gina Haspel passou metade do tempo a responder a uma grande questão, que deu origem a inúmeras perguntas: se uma determinada prática que ela considere ser "imoral" for ordenada ou autorizada pelo Presidente Trump, estará ela disposta a pagar o preço de dizer não ao Presidente?

"Não permitiria que a CIA levasse a cabo uma actividade que é imoral, mesmo que fosse tecnicamente legal", respondeu Haspel, acrescentando: "Acredito que a CIA deve levar a cabo actividades que sejam consistentes com os valores americanos."

Mas, apesar de afastar um regresso das "técnicas avançadas de interrogatório" na sua liderança, Gina Haspel descolou-se pouco das questões legais. Questionada várias vezes se considera que essas técnicas foram "imorais", Haspel foi repetindo que "a CIA cumpre a lei, no passado como no presente".

No seu entendimento, o programa de tortura autorizado pela Administração Bush foi encerrado porque o Congresso e a sociedade dos EUA "tiveram tempo para reflectir" sobre o passado, e o país tem de responder agora perante "um código moral mais rigoroso" – mas nunca disse se considera, pessoalmente, que essas técnicas foram imorais.

Essa e outras respostas poderão ser dadas à porta fechada, na segunda audição perante a Comissão de Serviços Secretos do Senado, também esta quarta-feira. Os senadores do Partido Democrata estão também interessados em conhecer mais pormenores sobre as operações de espionagem em que Gina Haspel participou ao longo de três décadas na CIA – os mais indecisos dizem que precisam de ter essa informação para perceberem se Haspel é uma boa escolha para directora da CIA, uma posição em que terá de decidir sobre denúncias de práticas questionáveis por parte dos seus agentes.

Espera-se que a Comissão de Serviços Secretos do Senado, onde o Partido Republicano está em maioria, vote na próxima semana sobre a nomeação de Haspel. Depois disso, ficará a faltar o passo mais importante: a aprovação por uma maioria simples na votação final dos 100 senadores.

Mas a curta maioria republicana no Senado (51-49) pode não ser suficiente para pôr Haspel na liderança da CIA. O senador John McCain deverá faltar à votação, devido a doença, e o senador Rand Paul garante que vai votar contra a escolha do Presidente Trump. Nesse cenário, e se todos os senadores do Partido Democrata votarem contra, Haspel e a Casa Branca não podem perder nem mais um voto entre os restantes 49 senadores do Partido Republicano.