Um Picasso de milhões e Manet e Matisse recordistas na primeira noite do “leilão do século”

Importante Colecção Rockefeller começou a ser vendida em Nova Iorque e já fez vendas de 544,6 milhões de euros – as receitas revertem a favor de museus, universidades e outras instituições.

Pablo Picasso, Gertrude Stein
Fotogaleria
Fillette à la corbeille fleurie (1905), de Pablo Picasso TOLGA AKMEN/EPA
Pintura, Lírios De Água, Cidade De Nova York, Artista
Fotogaleria
Nymphéas en fleur (1914-17), de Monet ALBA VIGARAY
Henri Matisse, Odalisque, Christie's
Fotogaleria
Odalisque couchée aux magnolias (1923), de Henri Matisse TOLGA AKMEN
Gare Saint-Lazare, Museu de arte, Claude Monet, Pintura, La Gare Saint-Lazare, Museu d'Orsay, Artista, Pintura a óleo
Fotogaleria
Exterieur de la gare Saint-Lazare, effet de soleil , de Claude Monet TOLGA AKMEN
Eugène Delacroix, Pintura, Museu De Arte, Cidade De Nova York, Arte
Fotogaleria
Tigre jouant avec une tortue, de Eugene Delacroix TOLGA AKMEN/EPA

A primeira fase da venda da colecção Rockefeller começou em Nova Iorque e concretizou a força da expectativa que a rodeava. A venda da Christie’s já bateu recordes de preços de sete artistas e a pintura Fillette à la corbeille fleurie (1905), de Pablo Picasso, foi arrematada por 97 milhões de euros, bem acima da estimativa, mas sem bater recordes para o pintor espanhol. Um dos maiores leilões de sempre de uma colecção privada, esta será a mais valiosa venda pública com fins beneficentes e rendeu 544,6 milhões de euros só na sua noite inaugural.

No final de 2017, as estimativas em torno da importante venda do leilão da Collection of Peggy and David Rockefeller orçavam os 590 milhões de euros (700 milhões de dólares); agora, a expectativa é já de que o leilão chegue aos mil milhões de dólares, ou 843 milhões de euros. A força do nome Rockefeller, milionários, filantropos e coleccionadores de arte e nomes incontornáveis da Nova Iorque e da América do século XX, impulsiona o que é já um leilão de nomes-chave da arte moderna: Claude Monet e Henri Matisse, que bateram recordes na venda de terça-feira à noite, mas também Georges Seurat, Juan Gris, Paul Signac, Edouard Manet, Paul Gauguin, Jean-Baptiste-Camille Corot, Georgia O’Keeffe ou Edward Hopper. A importância do acervo tinha já motivado o epíteto de “leilão do século”.

A estrela da noite foi Fillette à la corbeille fleurie (1905), uma verdadeira jóia e um exemplo do período rosa de Picasso, mas também um exemplar de pintura figurativa do autor cubista. Nem sempre esteve nas mãos dos Rockefeller, tendo sido comprada pelos irmãos Leo e Gertrude Stein, o crítico de arte e coleccionador e a escritora e dramaturga, directamente ao pintor espanhol. Ficou depois nas mãos da sua companheira, a escritora Alice B. Toklas, e foi vendida a David Rockefeller.

A estimativa de venda era, em Novembro, de 70 milhões de dólares, mas já tinha subido para os 100 milhões nos últimos tempos – foi vendida por 115 milhões de dólares (com as taxas da leiloeira incluídas), ou 97 milhões de euros, com o The New York Times a dizer que o preço pode ter sido condicionado pelo facto de ser uma obra figurativa, mas também por retratar uma menina nua “no momento cultural #MeToo”. O seu comprador não é conhecido. O recorde de um Picasso em leilão pertence a Femmes d'Alger, vendido por 151 milhões de euros em 2015.   

Outra das estrelas do leilão era Odalisque couchée aux magnolias (1923), de Henri Matisse, que foi vendido por 68 milhões de euros, acima das estimativas de 60 milhões. A odalisca de Matisse era classificada pela leiloeira como “a mais importante obra de Matisse a ir ao mercado numa geração” e era a pintura mais relevante do autor ainda nas mãos de coleccionadores privados – a licitação decorreu entre a sala e o telefone e também não é conhecida a identidade do comprador, embora entre os muitos compradores da noite (44 obras vendidas) existam instituições que poderão ser identificadas no futuro.

Foi assim batido um recorde para um Matisse em leilão, e o mesmo aconteceu com Nymphéas en fleur (1914-17), de Claude Monet, adquirido pelos Rockefeller em 1956 e que tinha uma estimativa de venda de 35 milhões (30 milhões de euros). Um exemplar da série de nenúfares de Monet, a pintura foi amplamente disputada e vendida por 84,7 milhões de dólares (preço-recorde que inclui as taxas da leiloeira), 71,4 milhões de euros.

O leilão, que continua esta quarta e quinta-feira em Nova Iorque, tinha sido antecedido por uma digressão de algumas das obras principais – entre elas peças nunca expostas em público – em Hong Kong, Londres, Los Angeles e Nova Iorque. Esta quarta-feira vão à praça pinturas de Willem de Kooning, Diego Rivera, Edward Hopper ou Georgia O’Keeffe e escultura, por exemplo, de Alexander Calder. Quinta-feira será a vez de pinturas de Toulouse-Lautrec, Degas, Paul Klee ou Manet e cerâmica de Marc Chagall, além de outras peças de mobiliário, cerâmica oriental ou porcelanas.

David Rockefeller, o último neto do barão do petróleo John D. Rockefeller, morreu aos 101 anos em Março do ano passado. David e Peggy Rockefeller acumularam uma histórica colecção composta por mais de 4500 obras de arte e, aquando da morte de David Rockefeller, o seu testamento definiu que algumas seriam doadas a museus e instituições ligadas às artes e que outra parte seria levada a leilão, com receitas a reverter a favor de museus como o Museum of Modern Art (MoMA), a Universidade de Harvard ou organizações dedicadas à conservação da natureza como o Maine Coast Heritage Trust.