Roman Polanski ameaça processar a Academia por expulsão e “hipocrisia” MeToo

A sua vítima, Samantha Geimer, considera que decisão do organismo que atribui os Óscares "apenas serve as aparências”.

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GUILLAUME HORCAJUELO/EPA

O cineasta Roman Polanski ameaça processar a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que já lhe deu o Óscar de Melhor Realizador em 2002, por o ter expulso sem lhe ter dado a oportunidade de ser ouvido. Polanski foi expulso com Bill Cosby na semana passada e já disse que a decisão da Academia, fruto de um novo código de conduta na esteira do momento #MeToo, é fruto de “histeria de massas” e constitui “hipocrisia”.

Condenado pela violação de uma rapariga de 13 anos em 1977 (pela qual cumpriu 49 dias de prisão e depois abandonou os EUA, pendendo sobre ele um mandado de captura no país ao qual não pôde mais voltar), Polanski era um dos nomes mais discutidos quando, na sequência das acusações de dezenas de mulheres contra o produtor Harvey Weinstein, ele foi expulso da Academia. O código de conduta da organização cujo acto mais visível é a atribuição anual dos Óscares foi aprovado em Janeiro e imediatamente se especulou o que significaria para nomes como Polanski, mas também Woody Allen (nunca condenado por qualquer crime sexual, mas acusado pela filha de abusos quando criança) ou Bill Cosby, que na semana passada foi condenado por agressão sexual. O realizador de Chinatown seria expulso da Academia na mesma penada que o comediante Cosby, dias depois da sentença sobre o protagonista de The Cosby Show.

Agora, numa carta enviada ao presidente da Academia a que a Hollywood Reporter teve acesso, o advogado de Roman Polanski disse que o realizador “tem o direito de ir a tribunal e pedir que a sua organização siga os seus próprios procedimentos, bem como a lei da Califórnia”. Harland Braun reclama uma “audiência justa” para o realizador e diz que a missiva vista “evitar litigação desnecessária”. Pede que a Academia “rescinda a expulsão ilegal do sr. Polanski e siga os seus próprios Padrões de Conduta, dando ao sr. Polanski um aviso legal das acusações contra ele e uma audiência justa para apresentar a sua posição”. O advogado diz não contestar “os méritos da decisão de expulsão” mas sim o facto de não terem sido seguidos os procedimentos legais para a mesma. A revista cita fontes próximas da Academia que indicam que nem todas as decisões de expulsão têm direito a recurso.

Entretanto, Samantha Geimer, a vítima de Polanski na sessão fotográfica de 1977 com quem o realizador, no papel de fotógrafo, manteve relações sexuais, veio a público lamentar a decisão da Academia. Autora de um livro em que explica o sucedido mas também a sua vitimização pela imprensa e pelo sistema judicial, Geimer já disse publicamente ter ultrapassado e perdoado Polanski e considerado que ele já foi punido pelo acto. Agora, considerou, citada pela AFP, que esta decisão “é um acto feio e cruel que apenas serve as aparências”.

Polanski, por seu turno, citado por outro dos seus advogados mas também pela Newsweek Polska (numa entrevista antes da sua expulsão da Academia), classificou a expulsão como “o cúmulo da hipocrisia” e o momento #MeToo de denúncia de assédio e abuso sexual em várias indústrias como “uma espécie de histeria de massas que ocorre de tempos a tempos na sociedade. Às vezes é muito dramática, como a Revolução Francesa ou o massacre do dia de São Bartolomeu em França, ou às vezes é menos sangrento, como em 1968 na Polónia ou o McCarthyismo nos EUA. Toda a gente está a tentar apoiar este movimento, sobretudo por medo… acho que é uma completa hipocrisia”.

Roman Polanski é um reputado cineasta, nomeado para seis Óscares e premiado com o de Melhor Realizador por O Pianista (2002). A sua carreira foi desde cedo envolta em casos sombrios como a sua tragédia pessoal do assassinato da actriz e sua mulher grávida Sharon Tate às mãos do culto da Família Manson em 1969, e, depois, pela violação de Geimer e sua fuga e impossibilidade de regressar aos EUA, alvo de alguns pedidos de extradição ao longo dos anos.