Entrevista

“‘A fama é uma forma falsa de sair à rua.’ Bonito, não é?”

Com a final da Eurovisão em Lisboa, fecha-se um ciclo para Salvador Sobral, marcado pela vitória no ano passado, a fama e a operação. Este sábado cantará com Caetano Veloso. “Vou desmaiar”, diz. Depois, em Outubro haverá álbum, com um poema de Gonçalo M. Tavares, que começa assim: “A fama é uma forma falsa de sair à rua.” “Bonito, não é? Espelha tudo o que é a fama”, afirma.

Fotogaleria
Miguel Manso
Fotogaleria
Miguel Manso
Fotogaleria
LUSA/SERGEY DOLZHENKO
Fotogaleria
Miguel Manso

Foi um ano inolvidável para Salvador Sobral. Há um ano, a canção Amar pelos dois, composta pela irmã, Luísa Sobral, e interpretada por si, haveria de ganhar o festival da Eurovisão, um feito nunca antes alcançado por um português. Mas foi mais do que isso, porque a singularidade da canção, naquele contexto, e o carisma do seu intérprete fizeram com o que o mundo, mesmo quem nunca ligou muito ao festival, se interessasse pelo cantor.

Depois teve de lidar com o sucesso. Algumas polémicas e também elogios. Encontros inesquecíveis e concertos, como a emocional despedida por tempo indeterminado no Estoril. E um transplante de coração em Dezembro do ano passado. Nos últimos meses voltou à música. Diz que a voz está diferente, mas regressará ao sítio. Em Outubro haverá álbum novo em nome próprio, mas até lá não quer perder de vista os outros projectos e os muitos concertos que se irão seguir, dentro e fora de portas.

Esta semana é o encerrar de um ciclo. Não é exagero dizer que o renovado interesse em torno da Eurovisão em Portugal a ele se deve. Da mesma forma que foi a sua vitória que obrigou à dispendiosa organização desta edição em Lisboa. No sábado, voltará a subir ao palco para cantar ao lado de Caetano Veloso. Desta vez não será coroado vencedor, mas alguém duvida de que será sobre ele que voltarão a incidir muitas das atenções?

Cumpre-se um ano sobre a sua vitória na Eurovisão. A realização em Portugal da nova edição, decorrente desse triunfo, é o culminar desse processo. Nesse contexto, olha para esta semana como sendo de celebração ou de libertação?
É uma boa pergunta. Parte de mim espera que sim, que essa libertação aconteça. Espero passar o testemunho e deixar de ser encarado como o vencedor do festival — porque vai haver um novo ganhador — e voltar a ser apenas o Salvador Sobral da música. Parte de mim tem esperança de que isso aconteça. O ideal seria que a Cláudia Pascoal e a Isaura ganhassem para Portugal, embora já não me livre de ter sido o primeiro a fazê-lo.

Acha mesmo possível que Portugal volte a ganhar?
É difícil pelas questões políticas e até práticas, porque não sei se teríamos dinheiro para voltar a receber um festival destes.

Assisti à final do ano passado em Londres e sentia-se que entre os ingleses reinava a ideia de que iriam ficar inevitavelmente mal classificados por causa do “Brexit”. A dimensão política acaba por ter peso no resultado final?
Tem peso, mas não diria que é decisivo. Agora há países que votam preferencialmente noutros, a partir dessas lógicas.

Ficou a ideia de que, independentemente dessas lógicas, ganhou em conjunto com a sua irmã no ano passado porque a canção era a melhor. Distinguia-se das outras, para além de haver a personalidade da sua interpretação e o carisma, que também conquistaram. Teve essa consciência na altura?
Tive a plena noção de que prevaleceu a aposta na diferença. É normal. Quando as pessoas comem todos os dias hambúrguer, de repente, um dia, comem, sei lá, um peixe grelhado, e aquilo faz-lhes sentido e gostam dessa mudança, trazendo as coisas outra vez para o simples e para o despojado. Aquela canção respirava no meio daquele foguetório, e as pessoas sentiram-no e valorizaram-no. Era uma canção rica harmonicamente, melódica e liricamente. E também emocionalmente. Tinha conteúdo. Era a melhor canção e não tenho vergonha de o dizer, só porque sou eu que a canto. É verdade. Era mesmo a melhor.

Quem já o viu em palco percebe que tem uma grande capacidade em encaixar-se nas canções, fazendo-as suas de imediato. Isso é qualquer coisa que lhe sai de forma intuitiva ou foi sendo trabalhado com afinco, ou um pouco das duas?
Uma psicóloga disse-me: “Tens muita sensibilidade para perceber as pessoas, e isso é bom porque consegues perceber o que estão a sentir, mas também é mau porque às vezes podes manipulá-las.” Por isso não sei muito bem responder. Parece-me que em mim se confunde aquilo que sai de forma espontânea com aquilo que pode ser também um mecanismo de chegar às pessoas com qualquer coisa que sinto que posso partilhar com elas para lhes agradar. Algures, entre aquilo que quero e o que as pessoas querem, deverá estar a verdade. Mas é totalmente genuína essa entrega. Quando estou contra alguma coisa, insurjo-me imenso. Ainda agora, numa entrevista a uma TV russa, disse de forma peremptória que não faria uma coisa que queriam que fizesse. Portanto, as coisas partem sempre de mim.

Procura talvez a empatia, mas existem opções que são nitidamente suas e reveladoras. Por exemplo, quando escolhe interpretar canções da Joni Mitchell perante uma multidão que, na sua grande maioria, nunca ouviu falar dela.
Sim, é verdade, sei que a maior parte daquelas pessoas não a conhece. Mas não é apenas aí que esticamos a corda. Fazemos imensos solos nos concertos de 20 minutos ou coisa que o valha. Ou seja, fazemos o que nos apetece, o que é óptimo. E as pessoas estão abertas. O mais incrível é isso. É perceber que estão disponíveis para serem surpreendidas. O problema é que a maior parte das rádios só lhes oferece porcaria.

Foi dizendo que tinha muita dificuldade em lidar com a fama. Um ano depois, como é que encara o que aconteceu?
Olho com mais tranquilidade. Antes bateu-me muito mal tudo aquilo, a fama completamente repentina. Se pensarmos, não deve haver muitos casos na história deste país de uma fama assim tão instantânea. Por norma, a coisa é gradual. Não foi o caso. De repente, num dia, por causa de uma canção, tornei-me conhecido. Não estava preparado. Quando cheguei a Portugal, depois da vitória, foi duro. Fartava-me de chorar. Dizia para mim próprio: “O que é que fui fazer?” Não podia sair à rua. Mas depois o tempo foi passando, estive todo aquele tempo no hospital por causa da operação e as pessoas foram percebendo, mais ou menos, como sou, e respeitam-me. Já perceberam que não gosto de tirar fotos, por exemplo. Dizem que gostam muito do meu trabalho e eu agradeço. É simples. Já estou mais em paz com isso, até porque a Eurovisão me trouxe muitas coisas boas. Fui tocar a festivais de jazz onde nunca sonharia tocar. Toquei por Espanha em teatros lindíssimos. Enfim, coisas que não imaginava e que devo à Eurovisão. Portanto, existe uma relação de amor-ódio, mas na balança do que esta experiência me trouxe, vislumbro mais coisas positivas do que negativas.

PÚBLICO -
Foto
Miguel Manso

Não era fácil, pela fama repentina ou pela saúde, gerir a sua persona pública. Houve polémicas e interpretações sobre afirmações suas, mas preservou-se, sem deixar de falar de coisas controversas, ou até íntimas. Foi muitas vezes desarmante, outras irónico ou mesmo cáustico, mas sempre íntegro. Pareceu-nos que acabou por lidar bem com a fama.
Obrigado. Fiz um esforço enorme para isso. A sério. Dava por mim a pensar, em diferentes contextos, o que é que posso dizer aqui? Ou o que é que deveria dizer aqui? O que é que posso acrescentar? Ao mesmo tempo, como é que posso manter a minha intimidade e privacidade? Como se faz? Foi um esforço meu e também da minha equipa, de perceber, dentro do que era possível, e por paradoxal que pareça, como ser o mais discreto possível, sem deixar de tentar ser pertinente de alguma forma.

Mesmo no concerto do Estoril, que antecedeu o internamento, onde existia uma forte componente emocional, com desejo de amparo do público, sentiu-se essa justeza.
Sim. Mesmo no hospital, as coisas poderiam ter resvalado, e isso não aconteceu. Existem sempre aquelas pessoas que escrevem e relatam as suas experiências nesses contextos, mas eu não sou essa pessoa. Nem sequer os meus amigos via no hospital. Era só a minha família. Sempre quis o máximo de tranquilidade e discrição. Nesse sentido, sim, é verdade, tudo o que aconteceu à minha volta poderia ter sido muito pior e não foi.

Uma das muitas coisas boas que lhe aconteceram foi ter conhecido Caetano Veloso, com quem vai cantar no sábado, na cerimónia final do festival. Como vai ser isso?
Porra! Sei lá! Acho que vou desmaiar. É pena, porque não estou a conseguir aproveitar por inteiro o momento. Estou muito nervoso, o que é uma chatice. Antes nunca ficava nervoso e agora não durmo nada. É surreal. Sempre ouvi o Caetano. É a minha maior referência. A seguir ao Chet Baker, que já não posso conhecer, o Caetano é o máximo. Depois conheci-o e ele é uma pessoa humilde, sem merdas, um tipo que adora música e que está uma noite inteira a tocar. Quando o fui ver ao Casino Estoril, depois do concerto, nos bastidores, ele vira-se para mim e diz: “Cara! Não cantei bem porque você estava no público!” Eu só me ria, a pensar, mentiroso, com 75 anos e continua a puxar pelos agudos e graves de uma forma que não dá para acreditar! Então, tudo isto é surreal. Naturalmente, cantar com estas pessoas que tanto admiro devo-o, sem dúvida, à Eurovisão.

O que é que vão cantar em conjunto?
Ainda não sei se vamos cantar o meu novo single, que se chama Mano a mano, e que vai sair agora, com letra da Maria do Rosário Pedreira e música do Júlio Resende. O que está certo é que vamos cantar o Amar pelos dois, com o Júlio ao piano. É uma raridade na Eurovisão, haver alguém a tocar mesmo um instrumento, porque a base instrumental é sempre em playback.

Ninguém faz nada acontecer sozinho, mas é inegável que o renovado interesse em Portugal à volta da Eurovisão, para além da organização desta semana, muito exigente do ponto de vista financeiro, a si se deve. Sente esse grande encargo?
Sim. Sabe o que penso muitas vezes? É horrível o que vou dizer, mas é verdade! Penso que se houver um ataque terrorista a culpa é minha! Em Lisboa, felizmente, nunca aconteceu nada do género, e dou por mim a ter esse tipo de pensamentos. É uma parvoíce, mas pronto. Mas, sim, tudo o que envolve esta semana é surreal. O turismo aumentou 40% em Maio, o que é uma brutalidade. Nunca pensei que tivesse esta dimensão. É uma verdadeira seita... [risos] Por estes dias, na rua, grupos de estrangeiros vêem-me e começam a chamar-me. É estranho. Duzentos milhões de pessoas vêem isto. É uma loucura. E agora a China e os EUA também vão transmitir, portanto vai crescer.

Como tem sido o regresso à música depois da operação?
Tenho tocado com diferentes bandas, em particular no espaço da Fábrica Braço de Prata, para treinar, porque a minha voz sofreu algumas alterações. Fazia retenção de líquidos, tinha uma barriga muito grande, e o diafragma estava alto. Agora, como é óbvio, perdi os líquidos, o diafragma desceu e a voz alterou-se. Desde Março — sem dizer nada a ninguém — que ando a tocar. Tenho agora uma banda que se chama Impro.Jazz e estamos a fazer coisas com o grupo de teatro Os Improváveis. Eles estão a actuar e nós (eu, o José Salgueiro e o Ruben Neves) a tocar, improvisando em conjunto. É giro. Depois tenho um grupo de música da América Latina, os Alma Nuestra, que apresenta boleros tocados em jazz com arranjos nossos. Depois existe também a minha banda, claro, e muitos ensaios também com o projecto Alexander Search. E é isso. Tocar.

Nomeou várias formações diferentes, o que não é inusitado no universo do jazz, mas suponho que à sua volta existam pessoas a aconselhá-lo para se concentrar apenas num só projecto, ou a assumir apenas o seu mais pessoal
Sim, completamente! Mas eu adoro tudo! Também levo na cabeça por conciliar o tocar em auditórios com o tocar na Fabrica Braço de Prata. Mas, por enquanto, ainda consigo aliar isso tudo. Gosto de demasiadas coisas e de muitos músicos, para só ter a minha banda. É como disse, é natural um músico de jazz tocar com várias formações. O que não invalida que tenha o meu projecto como Salvador Sobral. Em princípio vai haver um álbum em Outubro, mas agora quero é tocar. Vou muito ao cinema também. Ando a ler imenso. Vou muito a Paris passear e ler. É o que tenho feito. Em Paris sou totalmente anónimo, o que é óptimo.

Essa multiplicidade de projectos pode também levar a que as pessoas olhem para si mais como intérprete do que como compositor, ou isso para si não é sequer uma questão?
Cheguei a uma conclusão há pouco tempo: a minha capacidade como compositor está aquém da capacidade como intérprete. E estou em paz com isso. Claro que posso melhorar, mas no próximo disco não vou ter tantas composições minhas como no primeiro. O próximo disco só vai ter três ou quatro canções minhas. Pedi ao Gonçalo M. Tavares, que fez um poema incrível, e o Mário Laginha fez a música. Pedi também ao Miguel Esteves Cardoso, que disse logo que sim, mas está a demorar, e o Mário Laginha também irá musicar essa. Depois existem músicas do Júlio Resende, uma outra da minha irmã ou do Samuel Úria. Coisas diferentes que irei interpretar.

À boleia da sua vitória criou-se a ideia de que a música portuguesa estaria numa fase de grande efervescência, o que até será verdade do ponto de vista da qualidade e diversidade, mas a verdade é que continua a haver poucos criadores com uma vida economicamente sustentável.
Sim, é verdade. São tempos difíceis. Os CD não vendem. As editoras têm dificuldade em investir em artistas porque sentem que o retorno é difícil. Conheço músicos tão talentosos que não o conseguem. O meu amigo Diogo Picão, por exemplo, tem um disco pronto e aquilo não avança. Não há maneira. Claro que há muitas excepções, como a Ana Moura ou o António Zambujo, mas o panorama está longe de estar consolidado. Depois existe o mercado externo. Claro que a Eurovisão terá ajudado alguma coisa, mas a música portuguesa continua por descobrir lá fora, mas pode ser que isso mude. Afinal, estamos na moda.

A exportação será um dos seus principais objectivos?
Sim, agora sou representado por uma agência internacional. Para já vou fazer uma digressão por Espanha e também vamos à Polónia e Eslovénia, portanto existe esse desejo de me internacionalizar. Nesse campo em particular, como aqui, a Eurovisão abre algumas portas e fecha também outras. A luta é mostrar que sou mais do que a Eurovisão. É necessário perder essa etiqueta. Por exemplo, apetecia-me ir tocar a França, mas não queria que fosse algo circunscrito ao circuito dos emigrantes. Nada contra, mas não sou esse artista. Não quero ficar vinculado como o vencedor da Eurovisão, mas sim como o músico Salvador Sobral. Mas estou disponível para tudo. Se as pessoas ouvirem aquela canção e as outras dos discos, é bom na mesma. O disco que fiz em Dezembro, o Excuse Me, foi o mais vendido em Portugal e tem um solo de bateria de seis minutos. Fico feliz por isso. Sei que compraram o disco pelo Amar pelos dois, mas pelo menos ouviram aquele solo de bateria algumas vezes! E isso deixa-me feliz, poder levar o jazz às pessoas.

Apesar de a canção que lhe deu fama ser em português, não faltará quem pense que, para o propósito da exportação, seria melhor adoptar o inglês. Como se posiciona?
O disco que deverá sair em Outubro terá uma música em francês, outra em espanhol e uma outra em inglês. Portanto, no fim de contas, será o português a predominar. E é isso. O verdadeiro idioma é a música, não é a língua. Posso cantar em qualquer língua, se a canção for bonita e me fizer pleno sentido.

Tem facilidade em se colocar na pele das canções, mas ainda assim, dentro da paleta de emoções passíveis de representar, existem algumas que lhe serão mais difíceis de expor. Não se sente raiva, por exemplo, nas suas canções.
Não é bem. Faço isso muitas vezes. Se existem canções que pedem uma interpretação enraivecida, vou lá. No disco ao vivo, na canção Nada que esperar, no final começo aos gritos em espanhol a falar da fama. É um protesto contra a fama. No poema que o Gonçalo M. Tavares escreveu para o novo disco — vou revelar — o poema começa logo com uma frase que acho que diz tudo: “A fama é uma forma falsa de sair à rua.” Bonito, não é? Acho que espelha tudo o que é a fama. Em Portugal não vivo num mundo real. Saio à rua e as pessoas tratam-me demasiado bem, e por causa da minha saúde são muito protectoras. Se peço um hambúrguer, são capazes de me dizer: “Tem a certeza?” Já me aconteceu! Tive de dizer que eu é que sabia o que era bom para mim. Não vivo no mundo real, vivo no mundo dos famosos, que é muito mais simpático. Por isso é que adoro ir para Paris, ainda por cima eles lá são uns cabrões! Tratam-me mal e eu adoro... [risos] É a minha quota-parte de necessidade de ser maltratado.

Mas essa relação que as pessoas hoje em dia estabelecem consigo tenderá também a transformar-se.
Espero que sim. Provavelmente virei a ter saudades deste período. Agora entro num táxi e são capazes de me oferecer a corrida, como já me aconteceu, e dou por mim a pensar: agora que posso pagar é que me vêm com estas delicadezas, mas há dois anos, quando andava aí a cantar nos bares e não tinha dinheiro nenhum, népias! Mas nada a fazer. É assim.

O ciclo da sua vitória completa-se agora. Foi operado há meses. A sua vida mudou. Há um antes e um depois, ou não?
Acho que sim. Não tanto pelo festival em si, mas pelo simbolismo de várias outras coisas. O estar saudável é importante, claro. Logo a seguir ao festival, vou tocar aos Açores. Portanto, sim, o festival simboliza o fim deste ciclo, marcado pela vitória, pela fama exagerada e pela operação. Abra-se um novo ciclo!

Aquando da operação, o cenário que lhe era descrito como sendo o mais provável dava-lhe confiança ou predominava a incerteza sobre o que poderia acontecer?
Agora olho para trás e não me lembro de nada. A sério. A minha mente decidiu apagar quase tudo. Não sei como consegui viver ali quatro meses, naquele hospital, entre paredes. Antes de ir para o hospital, estava num quarto, às voltas, a ler. Mas, sim, obviamente que tive medo e existia incerteza. O momento logo a seguir à operação foi também difícil. O corpo fica maluco. Não percebes o que está a acontecer. É um corpo estranho que entra dentro do teu corpo. É uma loucura, com sintomas estranhos que vais tendo. Depois da operação foi complicado. Só agora é que a minha voz está a recuperar, portanto, sim, o festival representa o fim de um ciclo e o início de outro. Sai de cena o vencedor da Eurovisão e fica apenas o Salvador Sobral da música.

Ouviu as canções concorrentes à edição deste ano?
Não. Apenas conheço a canção portuguesa e a de Israel, porque o YouTube me obrigou a vê-la. Coisas da tecnologia. De repente, o YouTube achou que eu iria gostar da canção de Israel, e então abri aquilo e saiu-me de lá uma música horrível. Eu pensei: YouTube, muito obrigado, mas não é por aqui. Felizmente, este ano, não tenho de ouvir nada. Não creio que tenha mudado alguma coisa. No ano passado, as pessoas diziam: “Agora que ganhaste, isto vai mudar!” Não creio. Talvez no futuro.