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João André criou o blogue Dar aulas em Inglaterra

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A raiz da felicidade

Porque se por um lado é possível ser-se feliz, a verdade é nem todos querermos ser felizes, de bom grado encostando-nos ao outro na esperança de que o outro nos resolva os problemas todos

Para passar a ser feliz, primeiro é preciso deixar de ser infeliz, assim nos diz Mo Gawdat, o engenheiro da felicidade. Parece um contra-senso, mas não é, ou não tivesse eu perdido a conta a quantos insistem em sair à rua todos os dias com uma nuvem em cima da cabeça sem nada fazer em relação à dita para além de se queixarem de como está sempre a chover. Porque se por um lado é possível ser-se feliz, a verdade é nem todos querermos ser felizes, de bom grado encostando-nos ao outro na esperança de que o outro nos resolva os problemas todos.

Meus amigos, não tenho paciência para choramingas, e quanto mais velho, menos paciência tenho diante de adultos capazes e tantas vezes mais velhos do que eu, como se fosse minha a responsabilidade de lhes ensinar para que lado é a vida quando tal dever, a existir, é seu, todo seu, fruto da experiência e dos anos, a mesma experiência da qual estamos à procura diante de quem por aqui anda há mais tempo.

E não, já a minha avó dizia, a vida não é feliz, mas tem momentos felizes, e é preciso aproveitá-los, e é urgente aproveitá-los, sorvê-los, bebê-los, para poder continuar a beber, a viver, à espera, à procura deste próximo momento de felicidade.

Se o dinheiro traz felicidade? Não, mas ajuda. Mais que tudo, o dinheiro dá-nos o poder de escolher, de tomar decisões, tantas vezes inalcançáveis, distantes, inacessíveis, e ao podermos optar somos mais livres e, por conseguinte, felizes.

E o que é que nos faz feliz? Ter as necessidades básicas satisfeitas, ao melhor estilo da pirâmide de Maslow, desde a alimentação ao descanso, da segurança ao amor, como se fôssemos animais, e somos, para então podermos pensar no que nos faz realmente feliz. Porque com fome, com sono, com medo, meus caros, ninguém é feliz. Porque sem trabalho, sem uma casa, um lugar para viver, sem uma fonte de sustento, de proveito, ninguém é feliz.

E assim ter a felicidade de escrever, o tempo de escrever, a liberdade de amar, a alegria de andar de bicicleta e conhecer o mundo sobre rodas, contigo, a dois, e escrever-te por inteiro em papel, para sempre.

O desemprego, a ausência de uma carreira, de um futuro, foi a minha nuvem em cima da cabeça. Saí do país para deixar de chover e não posso voltar, a nuvem ainda lá está, à minha espera. Porque a ausência de uma vida é uma nuvem a sério, transversal, social, universal. Tive de a resolver sozinho e não desejo tal sorte a mais ninguém. Porque quis ser feliz, porque quis ser teimoso, porque insisti e acreditei. Mas para ser feliz não basta querer, é preciso que nos deixem, e que nos deixem tentar.