Colégio Militar suspende 19 alunos do 12.º ano em vésperas de exames

Finalistas autodesgraduaram-se em protesto contra punições consideradas injustas, num gesto inédito em 215 anos de escola.

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Tensão volta às fileiras do Colégio Militar Nelson Garrido

O Colégio Militar do Exército suspendeu 19 alunos do 12.º ano que se tinham autodesgraduado em protesto contra atitudes e sanções disciplinares impostas por oficiais, avança o Diário de Notícias. A medida disciplinar foi decidida a um mês dos exames e não só os impediu de frequentar o colégio entre 26 de Abril e 1 de Maio como interditou o seu acesso às instalações do Corpo de Alunos, obrigando-os a regressar a casa todos os dias, mesmo os que não vivem em Lisboa.

A instabilidade naquela instituição foi confirmada ao DN pelo Exército, que informou estarem em curso “averiguações sobre comportamentos potencialmente perturbadores do normal funcionamento das actividades escolares”, pelo que as suspensões aplicadas são ainda preventivas.

Contactado pelo PÚBLICO, o tenente-coronel Vicente Pereira, porta-voz do Exército, diz que "o processo de averiguação destina-se a apurar o que se passou" pelo que serão ouvidos todos, alunos e não alunos. Mas desvaloriza: é um "inquérito escolar, não tem o peso que está a ser dado". De resto, só depois dos exames deverá haver resultados para não criar mais perturbação em época de provas, afirma, confirmando ainda que os alunos "que decidiram retirar a si póprios as graduações estão a ir às aulas, como alunos externos".

Segundo fontes citadas pelo DN, na origem desta situação estiveram as punições aplicadas aos comandantes da 3.ª e 4.ª companhias, alunos do 12.º ano, por terem violado a proibição de entrar em instalações dos oficiais do Exército – a sala dos oficiais. Foram desgraduados, uma pena considerada excessiva e humilhante, imposta a poucas semanas do fim do seu último ano lectivo, até porque os impedia de participar no seu último desfile do Colégio Militar na Avenida da Liberdade.

Muitos outros alunos contestaram aquilo que consideraram uma desproporção entre o acto e as penas, até porque alegavam que noutros casos idênticos tinha havido sanções diferentes, e o mal-estar agravou-se nas semanas seguintes, mesmo depois de os dois alunos desgraduados terem sido autorizados a participar no desfile como escolta à bandeira nacional.

Para essa escalada contribuiu a ausência dos oficiais a uma cerimónia tradicional dos estudantes, a 17 de Abril, episódio que levou a que os graduados do 12.º ano, considerando tratar-se de uma falta de respeito dos militares, a retirarem as graduações na manhã seguinte. À tarde, os 13 graduados do 11.º ano fizeram o mesmo, mas depois aceitaram rever a sua posição perante a posição maioritária dos alunos.

De acordo com o regulamento interno do colégio, aos alunos graduados cabe participar "no processo educativo dos alunos mais novos" e "ao mesmo tempo, obter o sucesso escolar necessário à progressão académica num futuro próximo".

Esta situação de tensão entre oficiais e alunos graduados em vésperas de exames preocupa os familiares ouvidos pelo DN, mas deverá também preocupar o Exército. Ainda há dois anos, declarações de um responsável do Colégio Militar sobre homossexualidade acabaram por conduzir a uma crise que culminou com a demissão do chefe do Estado Maior do Exército.