BlackRock

A empresa que está a mudar o capitalismo

Depois da crise de 2008, uma empresa norte-americana quase desconhecida cresceu até dominar a economia mundial. Chama-se BlackRock e foi criada em 1988 por Larry Fink. É hoje um centro de poder global que controla os principais bancos e indústrias e aconselha os governos e os líderes mais poderosos. O seu enorme crescimento põe em risco uma das ideias básicas da economia moderna: a concorrência.

Lawrence Daniel Fink tem 65 anos e pode ser um exemplo perfeito do “sonho americano”. É um dos homens mais poderosos do mundo. Com a sua gravata violeta, com finas riscas pretas, e o seu fato cinzento-escuro, foi o convidado de honra para a abertura do novo ano da bolsa de valores alemã, no dia 16 de Janeiro de 2017.

O que disse nesse momento ajuda-nos a perceber o que aconteceu depois. Tinha uma mensagem clara que expôs num longo discurso aplaudido pela nata dos empresários alemães: “Os sistemas de pensões têm falhado em preparar os trabalhadores para o futuro.” “Os trabalhadores tendem a ser demasiado dependentes das pensões estatais”, observou.

Há uma razão para esta mensagem ter sido transmitida ali, em Frankfurt, o grande centro financeiro da Europa, depois do “Brexit”: Fink é o CEO da maior empresa financeira do mundo, a BlackRock. Ele é o principal estratego de um fundo que vale 5,2 biliões de euros (6,3 triliões de dólares), ou seja, Fink tem o poder de dispor de mais dinheiro do que o PIB da Alemanha e do Reino Unido somados. Por isso tão depressa está na bolsa alemã como no Palácio do Eliseu, em França, para um encontro com o Presidente, Emanuel Macron. Ou na Casa Branca, como conselheiro económico do Presidente dos EUA, Donald Trump.

Ou ainda em Lisboa – apesar de a empresa não ter sequer uma sede em Portugal – como um dos maiores patrões da bolsa portuguesa, detendo quotas significativas da EDP, da Jerónimo Martins, da Galp, do Millennium BCP e da Nos. E participações em várias outras, como a Sonae (sociedade que é dona do PÚBLICO), Navigator, CTT e REN.

A BlackRock é dona de partes importantes de 17 mil empresas no mundo – da Micrososft à Apple (tecnologia), da Bayer (farmacêutica e química) à Monsanto (agricultura e biotecnologia). Com isso, o sistema económico, tal como o conhecíamos, está em acelerada mudança. José Azar, professor de Economia na Universidade de Navarra, tem estudado o assunto nos últimos anos. “O problema é que se tantas empresas têm o mesmo dono, então essas empresas funcionam como uma só. E isso é um novo monopólio à escala mundial.”

Por seu lado, Daniela Gabor, professora de Economia na Universidade de Bristol, explica-nos que “a BlackRock é o exemplo de uma empresa que cresce em importância sistémica e isso traduz-se numa mudança estrutural”. Michael Theurer, eurodeputado alemão do partido liberal FDP alerta: “Só o tamanho da BlackRock cria um poder nos mercados que nenhum Estado pode controlar.”

“Larry”, como é conhecido desde que nasceu em Van Nuys, Los Angeles, Califórnia – o mesmo tratamento informal que recebe nos encontros com chefes de Estado, ou na conservadora bolsa nos arredores de Frankfurt –, acaba por ser o grande beneficiário de um mundo pós-bancocracia. Logo ele, que fez a sua carreira profissional como especialista nos produtos financeiros que a crise de 2008 veio a renegar. Filho de uma professora de Inglês e do dono de uma sapataria, Fink formou-se em Ciência Política e depois especializou-se no negócio do imobiliário.

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Larry Fink fundou a BlackRock em 1988 Roman Talaje/Corbis via Getty

Hoje, Larry Fink é influente ao ponto de esbater a linha que separa o interesse público do privado. E é o rosto mais exacto daquela expressão que tanto usamos sem a humanizar, “os mercados”.  Ao mesmo tempo, é o gestor a quem os governos recorrem para traçar e definir políticas, dar conselhos em momentos de crise, resolver problemas.

A BlackRock cresceu muito desde que foi fundada por Fink há menos de 30 anos. “Em 1988 começámos com oito pessoas numa única sala", lembra a apresentação oficial. Neste momento, a empresa tem 13.900 funcionários, a trabalhar em 70 escritórios de 30 países. O negócio das pensões nos EUA ajuda a explicar este crescimento pouco comum. Um bilião de dólares, dos seis que a BlackRock hoje gere, é dos fundos privados de reformas dos trabalhadores americanos. Do lado de cá do Atlântico, na União Europeia, esse negócio não existe. Ainda.

As palavras de Fink não costumam ser ignoradas. Há um padrão, nos últimos anos, que mostra como as sugestões da BlackRock se tornam, rapidamente, em decisões políticas.

Seis meses depois do CEO da BlackRock ter apelado a um novo sistema de pensões privado na Europa, o vice-presidente da Comissão Europeia, Valdis Dombrovskis, anunciou, em Junho do ano passado, um novo Plano Pessoal Pan-Europeu de Pensões (PEPP), que deve entrar em vigor já em 2019. A medida pode afectar 240 milhões de europeus e é a criação à escala europeia de um sistema privado de pensões de reforma, que dá a possibilidade aos cidadãos europeus de descontar – com impostos reduzidos – para um fundo comum, gerido por empresas privadas.

A BlackRock já gere uma espécie de projecto-piloto de pensões privadas europeias, o Reseaver, que foi criado para juntar os descontos de um sector profissional específico, o dos investigadores.

Em Espanha, a BlackRock usou um método semelhante. No dia 26 de Fevereiro de 2012, Larry Fink deu uma entrevista ao El País, em Madrid. Apontou aquele que, na sua opinião, era o problema decisivo para a estagnação da economia espanhola: o valor excessivo do imobiliário nos bancos. Explicou que era preciso desvalorizar esse valor e, com isso, reactivar o mercado. Menos de dois meses depois, em Abril, a BlackRock já estava a trabalhar com o Governo e o Banco de Espanha numa forma de resolver o problema apontado por Fink. Com a consultora Oliver Wyman, a BlackRock criou as bases do que viria a ser o “banco mau” espanhol, o SAREB, que absorveria os activos imobiliários que pesavam nas contas da banca. Hoje, seis anos depois da visita de Larry Fink a Madrid, e da participação da sua empresa na criação do “banco mau”, a BlackRock é accionista dos cinco principais bancos espanhóis: Caixabank, Santander, BBVA, Bankinter e Sabadell. E começou também a investir fortemente no sector imobiliário (depois de uma significativa baixa do seu valor, pela acção do "banco mau").

Nem génio, nem lâmpada mágica

Este poder da BlackRock é o resultado de uma “magia” moderna. A empresa criou o mais reconhecido programa informático de gestão do risco de investimento. Chamou-lhe Aladdin (supostamente um acrónimo para Asset, Liability, Debt and Derivative Investment Network), como o personagem das Mil e Uma Noites. Com a diferença de que nesta história não há um génio, nem uma lâmpada mágica. Mas a BlackRock tem pedidos a fazer...

Não é só aos governos que a BlackRock molda o futuro. No dia 12 de Janeiro último, a caixa de correio electrónico de António Mexia, da EDP, como as de milhares de outros CEO de empresas em que a BlackRock é dona de capital, recebeu um mail de Larry Fink.

De Park Avenue, em Nova York, Fink deixou um recado: “Desde a crise financeira, aqueles que detêm capital colheram enormes benefícios”, diz, logo no segundo parágrafo. Isso aconteceu, explica, enquanto muitos cidadãos vivem com um “baixo crescimento salarial e sistemas inadequados de reforma”. Essa, continua Fink, é uma das principais causas de turbulência e polarização em todo o mundo. Do populismo, também. Como os governos em muitos países não conseguem lidar com a pressão, explica, o sector privado deve arregaçar as mangas e ter um "propósito social”.

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Vários analistas apontaram a novidade: Larry Fink, a falar de cima, aos poderosos dirigentes empresariais.

Tendo em conta o poder que detém, não deixa de ser impressionante que o nome do empresário, ou até o da empresa que criou, sejam tão pouco familiares para a maioria dos cidadãos. Fink e a BlackRock não são celebridades. E há apenas dez anos, na véspera da crise que fez tremer Wall Street, eram totalmente desconhecidos.

O mundo financeiro estava assente em montanhas de títulos invendáveis que valiam várias centenas de biliões de dólares e quase ninguém sabia como lidar com eles. Esta foi uma oportunidade para Fink e a sua equipa. Nessa altura, eles estavam a desenvolver um programa de computador para a análise de risco de grandes carteiras, o Aladdin. Isso permitiu-lhes criar estratégias para lidar com as carteiras “tóxicas” das contas dos bancos. Os então gigantes, como a JP Morgan, a suíça UBS, a seguradora AIG – uma casa de dinheiro atrás da outra – contrataram a BlackRock. Em 18 de Março de 2008 chegou o mais proeminente de todos os clientes: a Reserva Federal Americana. Durante a noite, a Fed assumiu todos os títulos “tóxicos” do banco de investimentos insolvente Bear Stearns, e Timothy Geithner, então chefe da supervisão e depois ministro das Finanças de Obama, contratou a BlackRock para os negociar.

Desde então, os especialistas de Fink elaboraram o plano para o fundo de resgate TARP (Troubled Asset Relief Program) em nome do Ministério das Finanças, administraram os títulos ameaçados do Citibank e da AIG e reviram a carteira de biliões de dólares das seguradoras estatais Fannie Mae e Freddie Mac. A BlackRock tornou-se, de facto, no departamento operacional do Governo americano para gerir a crise de 2008.

Um ano depois, surgiu o maior negócio. O banco britânico Barclays estava em dificuldades e teve de vender a sua divisão de fundos de investimento. A BlackRock adquiriu o bem-sucedido Barclays Investment Group (BIG) em Junho de 2009 por quse 10 mil milhões de euros (o equivalente ao valor disponibilizado pela troika para ajudar os bancos portugueses) – um negócio com uma escala impressionante. Os activos sob gestão da BlackRock duplicaram. Ao mesmo tempo, a empresa tornou-se na principal fornecedora do produto financeiro mais importante do futuro: “iShares”, fundos de índices negociados em bolsa, ETF (de Exchange Trade Funds).

A ideia é simples. Com uma compra, os investidores adquirem indirectamente todas as acções listadas num índice, como o português PSI 20, o alemão DAX 30, ou o americano S&P 500. O valor dessas unidades de fundo segue o valor do índice. Se o PSI 20 sobe, o mesmo acontece com o valor do fundo correspondente; se cair, os investidores também perdem. Este investimento é fácil de executar e, talvez mais importante, é barato. Não são necessários especialistas bem pagos, todos os processos são automatizados. Quem quiser vender as suas acções pode fazê-lo através de um qualquer dispositivo ligado à internet. Os compradores normalmente têm que pagar à BlackRock apenas 0,2% do valor em taxas de gestão por esse investimento “passivo”, como lhe chama o jargão financeiro.

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Brendan McDermid/Reuters

O conceito tem décadas, mas só se tornou muito popular após o crash de Wall Street, em 2008, quando o mundo estava à procura de investimentos simples e pouco arriscados. Todas as principais instituições financeiras têm oferecido esses fundos há muito tempo, mas nenhuma é tão bem-sucedida quanto a BlackRock. Só no fundo iShare já foram investidos 1,8 biliões de dólares. Milhões de cidadãos são clientes da Blackrock sem saberem que o são. Quase 40% de todas as acções em todo o mundo já estão registadas em fundos “passivos” – um desenvolvimento que, de acordo com especialistas do mercado e algumas autoridades supervisoras, está a colocar em perigo o sistema financeiro. Os analistas da Sanford C. Bernstein & Co chegaram a acusar os fundos “passivos” de serem "piores que o marxismo”, pelo risco que colocam à organização económica.

Os três grandes"

A vice-presidente da BlackRock, Barbara Novick, parceira de negócios de Larry Fink desde o início, prefere descrever esse sucesso como uma “democratização” do investimento de capital, porque permite a qualquer pessoa investir pequenas quantias.

Mas o problema pode ser outro... Além da BlackRock, as empresas financeiras americanas Vanguard e State Street já administram biliões de dólares. “Os três grandes”, como são chamados na indústria, gerem os seus activos em nome dos seus clientes. Mas isso é acompanhado pelo direito associado de votar como accionista – um poder potencial sem precedentes.

De acordo com cálculos da equipa de pesquisa Corpnet da Universidade de Amesterdão, os “três grandes” já são o maior accionista em 88% das 500 maiores empresas americanas do índice S & P 500. O mesmo acontece na Europa. Segundo a base de dados Thomson-One, consultada pelo Investigate Europe, a BlackRock é dona de acções em 14 das maiores empresas portuguesas cotadas no PSI 20. O valor desse investimento é de 1,8 mil milhões de euros. Quase metade concentra-se na EDP (ver infografia).

Desta forma, a BlackRock não é apenas uma proprietária significativa de empresas individuais, mas de sectores inteiros da economia. Seja na indústria aeroespacial ou de computadores, na distribuição farmacêutica ou em eletrodomésticos. Os cinco principais bancos dos EUA também estão indirectamente sob o controle dos novos gigantes do dinheiro. Na indústria química, por exemplo, a BlackRock domina nos dois lados do Atlântico. Bayer e Monsanto, BASF e DuPont, a produtora de gás Linde e sua concorrente norte-americana, a Praxair – a empresa de Fink é a principal accionista em todas estas indústrias gigantes.

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Investigação com milho geneticamente modificado, na sede da Monsanto em St. Louis, Missouri, EUA Brent Stirton/Getty Images
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Sede da BASF, a maior fábrica de produtos químicos do mundo, em Ludwigshafen, Alemanha OED/Ullstein Bild/Getty Images

No entanto, isto não foi encarado como um potencial problema. Até que um grupo de economistas, liderado por José Azar e pelo alemão Martin Schmalz, da Universidade de Michigan, publicou em 2016 um relatório sobre “propriedade comum”.

A tese é muito clara: os co-proprietários de empresas do mesmo sector não têm nada a ganhar se as suas empresas se desvalorizam, pela concorrência. Ou seja, se a BlackRock tem acções de várias marcas de combustível, não é de esperar que deseje que uma delas vá à falência porque outras vendem gasolina mais barata. Na melhor das hipóteses, o valor de todo o seu portfólio permanece igual se uma empresa ganha à custa de outra. “Em teoria, o problema era conhecido há muito tempo", lembra Schmalz, “mas ninguém o investigou”.

É por isso que ele e dois colegas examinaram de perto a indústria de aviação dos EUA. A BlackRock e a Vanguard eram duas das quatro maiores accionistas de todas as cinco grandes companhias aéreas americanas, e os economistas provaram que os clientes tinham que pagar até 10% mais no preço dos voos do que seria habitual, sob condições de competição normais. Um estudo de 2017, sobre o sector bancário, chegou à mesma conclusão. Quanto maior a concentração dos proprietários, maiores as taxas e menor o juro oferecido aos clientes.

A ameaça

Os trabalhos de Azar e Schmalz estiveram no centro de um debate na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico). O professor Einer Eilhauge, especialista em políticas de concorrência da Universidade de Harvard, afirmou nessa altura que a "propriedade comum” em sectores inteiros da economia é “a maior ameaça à livre concorrência do nosso tempo".

A Autoridade da Concorrência portuguesa está preocupada. “Parece claro que, pelo menos em algumas circunstâncias, a propriedade comum pode enfraquecer os incentivos para a concorrência e levantar questões sobre conluio tácito”, explicou a entidade reguladora ao PÚBLICO.

A Comissão Alemã Anti-Monopólio também fez soar o alarme. Num relatório para o Governo Federal escreveu que há “um potencial significativo para distorcer a concorrência por meio de participações horizontais indirectas entre empresas no mesmo sector económico através de investidores institucionais”.

Mais recentemente, a Comissão Europeia veio expressar a sua preocupação: “É cada vez mais comum que os mesmos investidores possuam acções em diferentes empresas do mesmo sector”, disse a comissária dinamarquesa Margrethe Verstager. Por isso, continua a comissária, "a concorrência não é tão atraente para eles”. Uma fonte oficial da Comissão Europeia revelou ao Investigate Europe que Vestager encomendou um estudo detalhado sobre as consequências para a UE desta situação.

A economista Fiona Scott Marton, professora em Yale, e ex-procuradora anticartéis do Departamento de Justiça dos EUA, defende que as acções e os direitos de voto dos grupos financeiros sejam limitados a um máximo de 1% por empresa se investirem em sectores inteiros.

A BlackRock rejeita estas conclusões. Para a empresa de Larry Fink, Schmalz e os seus colegas usaram “métodos estatísticos questionáveis”, e os mecanismos descritos nos seus trabalhos eram “vagos” e “hipotéticos”, escreveu Barbara Novick, vice-presidente da BlackRock, num documento enviado à OCDE.

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Martin Schmalz: "Em teoria, o problema [da propriedade comum] era conhecido há muito tempo, mas ninguém o investigou." Bjorn Erik Larsen, Bergens Tidende

A crítica a estes novos “accionistas universais” não é de forma alguma apenas um exercício académico, assegura John Weche, o especialista responsável da comissão alemã antimonopólio. “É absolutamente claro", garante Weche, “que hoje há uma influência considerável dos accionistas que têm entre 5 e 10% nas empresas cotadas”.

“Isso prejudica as regras básicas de nossa economia de mercado, mas a minha experiência diz-me que a maioria dos políticos teme a influência do gigante e nem ousa fazer perguntas críticas”, adverte Michael Theurer, deputado do FDP alemão.

O convidado de honra

Quando Larry Fink viaja pela Europa é recebido como convidado de honra. Seja em Roma, Paris, Haia ou Atenas – tem sempre um encontro privado com os líderes nacionais. “Nas últimas semanas, tive reuniões com quatro chefes de Estado”, revelou Fink, em Abril de 2017 na Bloomberg TV. O Presidente francês Emmanuel Macron recebeu-o duas vezes depois de assumir o cargo há um ano.

Desde 2011, a BlackRock aumentou os seus gastos anuais com lobby na UE de 150 mil para 1,5 milhões de euros. O êxito das suas campanhas de lobby enche uma longa lista. Apesar de ser a maior gestora de activos do nosso tempo, a BlackRock conseguiu evitar ser considerada uma “instituição financeira sistemicamente importante” pelo Conselho de Estabilidade Financeira, fugindo assim às regulamentações aplicadas aos gigantes que podem ser “demasiado grandes para falir”.

Desde 2014, quando passou a haver registo dos encontros entre lobbyistas e comissários europeus, a BlackRock já se reuniu 33 vezes com responsáveis do Governo da UE.

Mas a BlackRock não faz lobby apenas com os comissários ou chefes de estado relevantes. Influencia toda a cadeia de decisão, do comissário ao assistente de um eurodeputado. Segundo uma fonte do Parlamento Europeu, “por vezes a BlackRock organiza, através dos seus lobbyistas, os chamados 'dias de informação' apenas para assistentes dos deputados, para lhes explicar como funciona um produto ou como o potencial dos fundos passivos pode ser usado para aumentar crescimento económico”. "É claro que esses jovens assistentes aconselharão os seus membros a votarem de uma certa maneira”, nota a mesma fonte.

Tudo isso faz parte de uma “campanha de lobby muito inteligente, sustentada e rica em recursos”, diz Daniela Gabor, professora de Economia e Macrofinanças da Universidade do Oeste da Inglaterra, em Bristol. Quando Gabor acompanhou os debates em Bruxelas sobre o novo conjunto de regras que se aplicariam a bancos e empresas financeiras, percebeu que havia uma mudança.

“Comecei a olhar com atenção, a acompanhar os debates, a ir a Bruxelas para as audiências, e sempre que eu ia lá, as pessoas da BlackRock estavam ali.”

A BlackRock tem como objectivo “contribuir positivamente para a legislação e os regulamentos que afectam os investidores finais da Europa "mas a realidade pode ser medida pela observação de Daniela Gabor: “O meu instinto diz-me que neste momento não está a acontecer nada que realmente a BlackRock não queira...”

Desde a regulação dos “bancos-sombra” à criação de um imposto sobre transacções financeiras, várias são as medidas que a UE debate há anos sem conseguir chegar a um consenso. Sobre todas elas a BlackRock tem uma posição clara, detalhadamente exposta nos seus persuasivos "pontos de vista” – relatórios sobre políticas públicas.

O "biombo chinês

Nos seus quadros a empresa tem também alguns antigos responsáveis políticos europeus. O ex-ministro britânico das Finanças George Osborne é talvez o mais emblemático. Na Alemanha, Friedrich Merz, que chefia o conselho de supervisão da BlackRock desde Março de 2016, é um ex-líder parlamentar da CDU, partido da chanceler Angela Merkel. Jean François Cirelli, presidente da filial francesa da empresa, foi conselheiro do presidente Jacques Chirac, trabalhou com o ex-primeiro-ministro Jean Pierre Raffarin, e agora foi nomeado pelo actual presidente Emanuel Macron para a comissão que estuda a reforma do Estado francês. Um ponto importante na sua agenda: a alteração ao sistema de pensões de reforma.

Philipp Hildebrand, responsável pelos grandes clientes na Europa e vice-presidente do grupo desde 2012, também é influente. Presidiu ao banco central suíço durante três anos. É ele o responsável pela ligação importante da BlackRock ao sistema de supervisão bancária.

O que inicialmente foi apenas uma operação para Reserva Federal dos EUA, durante a crise, é agora uma parte substancial dos rendimentos da empresa. BlackRock Solutions é o nome do ramo de consultoria que abriu as portas na Europa para outro grande negócio: os livros de crédito dos bancos.

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Nos últimos anos, Larry Fink tem-se movido nos círculos mais altos do poder como peixe na água. Tão depressa está na bolsa alemã como no Palácio do Eliseu, em França, ou na Casa Branca, como conselheiro do Presidente dos EUA Chip Somodevilla/Getty Images

Dezembro de 2010, Dublin. O banco central irlandês falhou na supervisão e a Irlanda teve que pedir um empréstimo de 50 mil milhões de euros para resgatar quatro grandes bancos e proteger os seus credores, principalmente da Alemanha e da França, das perdas. Mas o FMI, segundo o diretor do Banco da Irlanda, insistiu numa auditoria externa "independente” aos livros bancários e foi isso “que, naturalmente, levou à nomeação de BlackRock” como assessora. Nenhum concurso foi realizado. Mas isso foi apenas o começo.

Ao mesmo tempo, na Grécia, a BlackRock também foi contratada para avaliar todos os 18 bancos gregos e fornecer recomendações para a sua liquidação ou fusão. Em 2013, o banco central grego concedeu a auditoria dos quatro grandes bancos recém-criados à BlackRock Solutions e, em 2015, voltou a contratar a mesma empresa para definir a estratégia para resolver o problema dos NPL, acrónimo para nonperforming loan, ou seja, crédito mal parado. Paschalis Bouchoris, que liderava o fundo estatal responsável pelas privatizações, foi nomeado chefe da subsidiária grega da BlackRock. O facto de um grupo que detinha a melhor informação privilegiada poder jogar em todos os tabuleros não foi visto como um problema pelos ministros das finanças do Eurogrupo, nem pelo BCE em Frankfurt.

Pelo contrário: os bancos centrais da França, Espanha e Holanda também contrataram a BlackRock para examinar os bancos. No entanto, os custos e condições dos contratos com os consultores controversos são geralmente secretos. É “informação confidencial das autoridades de supervisão financeira”, explicou ao Investigate Europe um porta-voz do banco central holandês.

Em meados de 2014, a BlackRock foi contratada pelo próprio BCE para aconselhar sobre um possível plano de compra de títulos. Segundo o Financial Times, “o braço consultivo da gestora de recursos dos EUA, BlackRock Solutions, ajudará o BCE a projectar um programa para comprar títulos baseados em activos como parte dos planos do regulador para facilitar as condições de crédito na zona euro”.

Em 2016, a BlackRock foi novamente contratada pelo BCE para ajudar o banco nos seus testes de stress a 29 bancos da zona euro – o teste envolveu os bancos sob supervisão da Autoridade Bancária Europeia, num total de 53 bancos.

Estes testes de stress revelam informações confidenciais sobre os bancos, como quais os empréstimos que provavelmente não serão pagos, mas o BCE garante que há uma separação estrita entre os investidores da BlackRock, que possui acções em todos os principais bancos europeus, e o braço de consultoria. “A confidencialidade da informação é garantida pelos termos do contrato”, garante ao Investigate Europe um porta-voz do BCE.

Para justificar esta ubiquidade, tanto a BlackRock como o BCE alegam que há um “biombo chinês” a separar a actividade de consultoria da actividade financeira da empresa.

A empresa é “obrigada a separar estritamente a equipa de consultoria de todas as outras equipas que aconselham outros investidores”. Há um “biombo chinês” denso entre os consultores contratados e as outras atividades da BlackRock. Cada consultor deve assinar um "acordo de confidencialidade" e o envio de dados é tecnicamente impossível. “Eles não podem nem trazer pen drives para aqui”, garante o BCE.

“Eu não acredito em biombos chineses. Quando se torna relevante para a empresa, isso não existe. Ouvi pessoas que trabalham nos bancos que garantem que esse conceito definitivamente não funciona. Assim que uma informação é valiosa, ela será usada ou – do ponto de vista legal – também será abusada”, clarifica Hans-Peter Burghoff, professor de Economia Bancária e Serviços Financeiros na Universidade Hohenheim, Alemanha.

O acesso exclusivo à mais alta autoridade de supervisão da Europa dá inevitavelmente origem a “uma enorme vantagem estratégica sobre todos os concorrentes”, continua Burghoff.

O êxito da BlackRock em vender o sistema Aladdin, que os gestores de investimento podem usar para testar os seus portfólios para todo o tipo de cenários, também é surpreendente. Nos EUA, a empresa mantém um parque de servidores com mais de 6.000 computadores, que processa dados de um número crescente de portfólios de investimento. Mais de 200 instituições financeiras já usam o sistema. Há até concorrentes diretos do grupo, como o Deutsche Bank e o francês BNP Paribas, que estão entre seus clientes mais importantes. Com cada novo cliente, a BlackRock recebe ainda mais informações e fornece ao grupo uma riqueza gigantesca de dados sobre o que está a acontecer nos mercados financeiros. Mais de 20 biliões de dólares de activos já são geridos por este sistema em todo o mundo, e esse valor cresce mais de 10% a cada ano. “A BlackRock terá em breve o monopólio do mercado financeiro”, prevê um banqueiro de Bruxelas.

Só no último ano, os lucros da BlackRock cresceram 26,9%. E essa parece ser a tendência do futuro. Mas há precisamente dez anos, entre Março e Setembro de 2008, ninguém previa que os gigantes de outrora – os bancos – pudessem vir a revelar-se tão frágeis.

Larry Fink deve saber que há um risco. Logo no início da sua carreira, um mau negócio de 100 milhões fê-lo sair pela porta pequena do banco First Boston, e a quase ser proscrito na selecta Wall Street. O cérebro da BlackRock reconheceu o erro. Mas o erro faz parte da sua profissão.

Há uma história reveladora do risco, que está relacionada com a forma como são geridas as pensões. Em 2010, a BlackRock criou um rombo de 500 milhões de dólares no Sistema de Previdência e Aposentadoria da Califórnia (CALPERS) com um mau negócio imobiliário em Manhattan. Este é o mesmo fundo que paga a pensão de reforma da mãe de Larry Fink.

“Quando administramos dinheiro cometemos erros. Nunca seremos 100% perfeitos. O nosso trabalho é minimizar esses problemas”, admitiu Fink à revista Vanity Fair. É uma frase de que nos devemos recordar.