Ex-primeiro-ministro “não morre politicamente”

António Campos, fundador do PS, e Vitalino Canas, antigo secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, não acreditam que o ex-líder do PS desapareça do xadrez político.

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José Sócrates e António Campos ADRIANO MIRANDA

Ao fim de 37 anos de militância política no PS, José Sócrates bate com a porta e a pergunta que se coloca é: qual vai ser o futuro político do ex-líder do PS? Vai criar um espaço próprio que lhe permita apresentar uma candidatura independente nas próximas eleições presidenciais de 2021? Vai criar um novo partido político?

O PÚBLICO falou com várias personalidades do PS, algumas próximas do antigo secretário-geral, mas, para já, ninguém arrisca muito. O fundador do PS, António Campos, é o que vai um bocadinho mais longe ao dizer que José Sócrates “não morre politicamente” ao demitir-se do PS, mas não consegue adivinhar qual o seu futuro, nem sequer imaginar se avançará para a formação de um novo partido ou com uma candidatura independente à Presidência da República. “Tenho uma certeza: José Sócrates não é um aventureiro e não tomará nenhuma atitude de aventureiro”, declarou o histórico dirigente do PS ao PÚBLICO.

Salvaguardando não ser um bom intérprete das ambições do ex-líder socialista, Vitalino Canas, que foi secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros no Governo de António Guterres, diz que as eleições presidenciais hoje em dia “não passam pelos partidos” e “se José Sócrates alimentar qualquer tipo de ambição presidencial, a circunstância de estar dentro do PS não é relevante”. De resto, observa que a “projecção política que Sócrates tinha ultimamente já não passava manifestamente pelo PS. Não creio que haja por aí grandes alterações”.

Vitalino Canas não acredita que o ex-líder do PS desapareça do panorama político. “Tendo em conta o seu gosto pela política, não creio que seja intenção dele desaparecer da política”, afirma ao PÚBLICO, mostrando-se menos receptivo quanto à possibilidade de criar um novo partido. “É um bocadinho prematuro e despropositado”, diz.

E o que pensa o antigo secretário de Estado-Adjunto da Saúde de Sócrates, Manuel Pizarro? “O que me parece é que neste momento a prioridade de José Sócrates é fazer a sua própria defesa, e não me parece plausível que enquanto o processo judicial não tiver chegado ao seu termo, faça sentido que ele alimente quaisquer ambições políticas”.

“Uma coisa é a intervenção cívica ainda que em alguém que foi primeiro-ministro e líder do PS essa intervenção cívica tenha sempre uma leitura política. Coisa diferente é um envolvimento de tipo eleitoral - ser candidato a umas eleições – e isso é muito difícil tendo em contas as condições processuais em que ele se encontra”, nota Pizarro, considerando “pouco plausível” que se incline para uma candidatura presidencial, sem que o processo judicial esteja esclarecido. “Isso seria muito negativo para o sistema democrático”, adverte.

Rui Santos, líder da Associação dos Autarcas Socialistas, é pragmático. “Nesta fase José Sócrates deve concentrar-se no processo judicial. Se for absolvido e provada a sua inocência pode regressar à política e fazer aquilo que quiser”, defende, observando que se isso acontecer “há muita gente que terá de se penalizar”.

Afirmando que é solidário com António Costa, Rui Santos defende que o PS já devia de ter tomado uma posição sobre este caso há mais tempo. “A acusação foi feita há seis meses porque é que nessa altura não se tomou uma posição?", questiona.